VERDADEIRO
METODO
DE ESTUDAR,
PARA
Ser util à Republica, e à Igreja:
PROPORCIONADO
Ao estilo, e necesidade de Portugal.
EXPOSTO
Em varias cartas, escritas polo R. P. * * * Barbadinho
da Congregasam de Italia, ao R. P. * * *
Doutor na Universidade de Coimbra.
TOMO PRIMEIRO.
VALENSA
NA OFICINA DE ANTONIO BALLE.
ANO MDCCXLVI.
COM TODAS AS LICENSAS NECESARIAS, &c.
AOS REVERENDISIMOS
PADRES MESTRES,
DA VENERAVEL RELIGIAM DA COMPANHIA
DE JEZUS.
No Reino, e Dominio de Portugal.
ANTONIO BALLE
OBZEQUIOZAMENTE SAUDA.
Saiem à luz, Reverendisimos Padres, as cartas eruditas, de um autor moderno: as quais até agora corrèram manuscritas, por algumas maons: mas chegando às minhas, e conhecendo eu, que podiam utilizar a muitos, me-rezolvi impremi-las. O argumento delas é este. Certo Religiozo da Universidade de Coimbra, omem mui douto, como mostra nas suas cartas; pedio a um Religiozo Italiano, seu amigo, que vivia em Lisboa; que lhe-dèse algumas instrusoens, em todo o genero de estudos. O que o dito Barbadinho executa, em algumas cartas: explicando-lhe em cada-uma, o que lhe-parece: e acomodando tudo, ao estilo de Portugal. Este autor escreveo-as, sem nem menos suspeitar, que se poderiam impremir: como consta de alguns periodos destas, que nam impremi; e de outras que conservo, em que declara com mais individuasam, o motivo desta conrespondencia: e explica varias coizas, que aqui nam se-acham. Onde, para consolar o dito autor, que nam sei se ainda vive, e fazer o que dezejava; nam impremi senam as que me-parecèram necesarias: e ainda nestas ocultei os nomes dos conrespondentes, e de algumas pesoas, que nelas se-nomiavam: parecendo-me justo e devido, nam revelar os segredos, das conrespondencias particulares: principalmente, quando podia conseguir o fim, de utilizar o Publico, sem prejuizo de terceiro. As cartas encadeiam tam bem umas com outras, que se-podem chamar, um metodo completo de estudos. podem servir para todos; mas especialmente sam proporcionadas, ao estilo de Portugal: pois este era o fim do autor. Protesta ele nas mesmas cartas ineditas, que nam dera em varias coizas, melhor metodo; porque temia, que o seu amigo mostráse as cartas, a pesoas preocupadas: as quais nam fariam nada, se lhe-aconselháse tudo, o que praticam em outros Reinos: e que por iso se-acomodava ao gosto, do paîz em que estava. E nam cesava de encomendar-lhe, que as-nam-lese a omens, que interpretasem mal as suas palavras; e as-aplicasem, a outro sentido.
E querendo eu agora impremir estas cartas, a quem as-devo dedicar, senam a VV. RR.? Prezumo, e com muita razam, que se o autor ouvèse de publicar estes escritos, a ninguem mais os-ofereceria, que a esa sagrada Religiam: visto mostrar a cada paso, o respeito e venerasam, que lhe-profesava. E sendo eu nam menos propenso, e obrigado a toda a Companhia; quero tambem mostrar-lhe o meu reconhecimento, nesta pequena oferta. Se a minha posibilidade dèse mais, mais faria: mas as forsas nam conrespondem aos dezejos: e VV. RR. costumam estimar mais a vontade, que as ofertas. Alem diso, por todos os titulos deviam estas cartas, ser consagradas ao seu nome. Sam VV. RR. aqueles, que só podem ajudar, os pios dezejos deste autor: aqueles, que só tem forsas, para iso: e finalmente aqueles, que mais que ninguem dezejam, o adiantamento da Mocidade, e se-cansam, para o-conseguir. Acrecento, que o autor confesa, que tudo aprendèra, com a diresam desa Roupeta, e polos seus autores. E asim, torno a dizer, por todos os titulos estes livros, se-lhe-devem dedicar.
Quam oportuna ocaziam se-me-oferecia agora, de referir os louvores desa veneravel Religiam, se a moderasam, e umildade de VV. RR. nam me-tapáse a boca! Quem tem dado mais, e mais ilustres escritores a ese Reino, que a Companhia? Quem tem promovido com mais empenho os estudos, que os seus mestres? Onde florecem as letras com mais vigor, que nos seus Colegios? Que omem douto tem avido em Portugal, que nam bebèse os primeiros elementos, nas escolas desa Religiam? Nam leio as istorias dese Reino, e Conquistas, que nam veja a cada paso, exemplos memoraveis, da grande piedade, da suma erudisam, do inexplicavel zelo dos seus Religiozos! VV. RR. que abrîram no-Oriente as portas, ao Evangelho, tem trabalhado com tal empenho, na vinha do Senhor; que se contamos somente os Povos convertidos, tem conquistado para a Fé, e tambem para o Reino, imperios vastisimos. Nem sei a quem atribua maior gloria: se às armas vitoriozas dos Portuguezes, no Oriente; se às pias exortasoens, e fadigas, dos seus Misionarios. Mas se é mais gloriozo o triumfo, que se-consegue sem sangue, somente com a forsa da eloquencia, sem prejuizo dos Povos, e com grande utilidade da Republica: ficam VV. RR. muito mais gloriozos, que os mesmos ilustres Generais Portuguezes; pois conseguîram a vitoria, nam dos corpos, mas dos animos. Vencèram VV. RR. nam derramando o sangue dos outròs, mas o proprio: e com ele escrevèram o seu nome, nam só nos livros da fama, e destas istorias caducas; mas no-mesmo livro da-vida: e levantáram um padram naquela patria, em que as virtudes se-estimam: premeiam-se dignamente os servisos: e a gloria dos vitoriosos nam morre. Nam me-volto para a Africa, para a America, que nam veja os Religiozos da Companhia, convertendo os idolatras, ajudando os fieis, ensinando a todos. Aî mesmo em Portugal, quem á que nam seja obrigado, à Companhia; e nam experimente os influxos, desa benigna Religiam? Quem ja mais chegou, a uma das cazas desa Religiam, para buscar um confesor, a qualquer ora da noite; que nam ficáse consolado? um Pregador, para qualquer festividade; que nam fose obedecido, ainda sem interese? quem foi pedir conselho, em materias de conciencia; que nam tivese promta resposta? quem quiz um parecer escrito, em qualquer materia que o-quizese; que nam tornáse satisfeito? Se olho para as prizoens, vejo os Religiozos da-Companhia consolando os aflitos, procurando os livramentos, confesando, e confortando a todos. Se olho para as prasas, e ruas publicas, vejo os mesmos Religiozos, doutrinando os ignorantes, excitando a emulasam nos-meninos, atraindo com suave maneira os que pasam, para ouvirem a verdade Evangelica. Se olho para as igrejas, vejo-os frequentes no confesionario, exortando os fieis em dias determinados, exatisimos nas funsoens divinas, que celebram com toda a magnificencia, e devosam. Se olho para as escolas, vejo-os ensinando aos meninos com grande amor, e paciencia, nam só as letras, mas a piedade, que em toda a ocaziam lhe-inspiram. As mesmas portarias das suas cazas, ensinam com o exemplo; nos muitos martires, e doutos, que nelas vemos pintados; que muda, mas eficazmente persuadem, seguir a mesma estrada: e ensinam com a doutrina, nos livros que nelas incontramos, que suavemente inclinam a vontade, para abrasar a vida perfeita. Finalmente se olho para qualquer Religiozo da Companhia, vejo o retrato da continencia, da moderasam, da mansidam, da afabilidade, do respeito: coizas que me-infundem um sagrado terror. Bemdita Religiam, em que o Prelado nam se-distingue do Sudito, senam em ter mais trabalho, e suportar o pezo, do governo economico. Ninguem aspira aos governos: ninguem busca meios de conseguilos: sinal certo, que se-administram com os olhos em Deus, e na sua obrigasam. Nam á distinsam de magisterios: nam á izensam de graos. O mesmo que ensina a Teologia na cadeira, ensina o catechismo nas prasas: o mesmo que confesa os Grandes, confesa os Pequenos: o mesmo Prelado que manda aos mais, obedece, e serve nas ocazioens a todos. Finalmente todos conspiram, para dar gloria a Deus, utilidade ao proximo, e servir no que podem à Republica.
Nam quero trazer à memoria, o que esa sua Religiam tem feito, e faz, nas mais partes da Europa Catolica. Deixo de parte, a inviolavel uniam que sempre teve, com a Sé Apostolica: e as persiguisoens, e censuras criticas, que tem sofrido por esa cauza. Nem menos falo na gloria, que rezulta à Companhia, de ver que tantas Religioens, e Congregasoens, que se-fundáram despois dela, todas a-tem tomado por treslado: e nam julgam merecer com justisa, os louvores dos omens pios, senam quando se-avizinham mais, ao seu instituto. Este é um milagre continuo daquele bemaventurado espirito, que la no-Ceo está sempre pedindo a Deus, pola propagasam, e aumento da Religiam que ca deixou: unir tantas vontades, para imitarem uma Religiam, que nam conta longa serie de seculos, mas que é a mais moderna, entre as famozas. Nam, nam quero referir mais singularidades. Intraria na verdade em uma materia vastisima, que me-daria argumento, para muitos e dilatados panegiricos; mas excederia os meus limites. Só considero, o que faz em Portugal, e o que pratîca no seu dominio. Estas coizas ocupam de sorte a minha ideia, e admirasam, que me-nam-permitem considerar o demais, aindaque seja grande e singular. Nem tem que me-dizer, que as outras Religioens sagradas todas se-cansam em obzequio da Igreja: ensinam muito, e edificam muito. Confeso, que todas tem as suas singularidades: todas merecem ser louvadas: todas dam gloria a Deus, e servem à Igreja: mas cadauma no seu genero. Nam vejo alguma, que tenha todas as prerogativas, que se-acham juntas, na Religiam da Companhia: e que as-pratique, nam por vaidade, nam por outro interese mundano; mas por amor de Deus, e por caridade do proximo. Estam todos os Portuguezes tam persuadidos, desta verdade, que quem quizese dizer o contrario, serîa publicamente escarnecido. Os mesmos Monarcas de Portugal, que sabem justamente estimar a Virtude; nam costumam intregar, a diresam da sua conciencia, senam aos Religiozos da Companhia. Desde que VV. RR. intráram neses Reinos, conspiráram todos eses Soberanos a reconhecèlos, como prudentisimos diretores, da conciencia dos omens: e por iso os-elegèram, para seus Confesores. Os Principes, a Caza Real, os Grandes, a maior parte dos omens de letras, e empregos, todos praticam o mesmo. Nam é posivel, que se-inganem tantos omens, de diferentes gerarchias, e de incontrados intereses, sem que os-obrigue a experiencia, e a verdade. Em todos os seculos, e entre todos os omens de juizo, o consenso de todos, foi argumento irrefragavel, da evidencia. Todos os omens prudentes louvam a VV. RR. todos os-engrandecem, todos os-buscam, todos se-servem das suas prendas, e virtudes: E asim sam VV. RR. tais como eles intendem.
Mas eu PP. RR. ja saî fóra do-meu argumento. Comesei uma carta, e acho-me engolfado em um elogio: caî naquilo mesmo que dezejava evitar. Nam sei se ofendi a sua moderasam, com as minhas expresoens: que é verdade que nacem do corasam, e sam proferidas com toda a sinceridade, de um bom amigo; mas emfim sam elogios. Nam obram VV. RR. polos louvores: mas por um fim mais alto, mais grande, mais admiravel. Nam obram bem para o-parecerem, e paraque todos o-conhesam; mas porque o seu instituto asim obriga: asim foram criados: vivem persuadidos diso mesmo: e nam podem obrar de outra sorte. Este é o elogio, que aquele encarecido Romano[1] deu la, ao seu Catam Uticense, com adulasam excesiva: mas que eu intendo, que só se-pode aplicar a VV. RR. nam com lizonja, mas com verdade notoria; porque o-digo publicamente, e a todo o mundo. Asim é, nam obram bem os Religiozos da Companhia, para agradar ao mundo, e conseguir os seus louvores: e dejando eu fazer-lhe a vontade, nam devo opor-me aos seus dezejos. Verdade é, que falando desa Religiam, dificultozamente podia deixar de expremir, alguma coiza do que intendo. Mas VV. RR. nam mo-permitem; eu me-desdigo, e dou por nam dito, quanto até aqui tenho significado. Só digo, que lhe-ofereso, e dedico as cartas de um autor, que conforme julgáram os omens doutos, que as-lèram, conheceo o verdadeiro modo de estudar: e para o-conseguir, deu excelentes doutrinas: e quem as-ler com animo dezapaixonado, e tiver voto na materia, achará nelas tudo o que é necesario, para aquistar o bom gosto literario; quero dizer, um juizo critico, que ensine abrasar somente o que se-deve, em todo o genero de estudos. Acho nelas algumas vezes, certas palavras, e diversidade na uniam dos-Pronomes, e outras particulas com os Verbos &c. conforme o idiotismo Italiano; que o autor pode ser que mudáse, se lhe-puzese a ultima mam: porque me-parece, que era bem informado da-lingua Portuguesa, e nam pecou por-ignorancia. Mas se nelas á algumas coizas que emendar, e acrecentar, quem melhor o-pode fazer, que VV. RR. Comque ponho-as nas suas maons, e ofereso-as ao seu criterio: e só direi o que me-pertence, a cerca da prezente edisam.
O autor segue uma Ortografia particular, (que eu, movido das mesmas razoens, abrasei) e que ainda nam está bem recebida, nese Reino: e asim para nam parecer novidade, será precizo ler as cartas, como se-acham impresas: observando bem a primeira, na qual dá razam, da sua Ortografia. Mas como em outras cartas explica varias coizas, que aqui nam se-acham; devo declarálas, paraque os leitores formem conceito, das opinioens do autor. Em certa carta, escrita entre a primeira, e segunda do primeiro tomo, diz, que nam obstante que disèse[2], que a linha se-pode pór entre as disoens, para evitar os equivos: v.g. na particula por, quando significa cauza, para a-distinguir do-verbo pòr: ou tambem nas particulas no, do, da; para as-distinguir dos sustantivos nó, dó, e do verbo, dá, dás: Contudo observando ao despois, que podia embarasar os principiantes, ver as linhas nestas particulas, que sam frequentes; julgára mais acertado, tirálas das ditas particulas: como tambem de todas as terminasoens plurais dos verbos: v.g. disera-mos, amaria-mos, quizer-mos, fizer-des &c. pola razam que estas terminasoens sam mui frequentes, e todos as-intendem mui bem. Acrecenta, que tambem nam se-deve pòr, naquelas palavras e verbos, em que se-acrecenta uma letra, para evitar a uniam de vogais, que fasam equivocos, v.g. fazèla, quando vale o mesmo, que fazer-a, isto é, fazer esa coiza. Tambem quando se-introduz o pronome no verbo: v.g. dirmeám, que vale o mesmo que, diram-me: falosîa, obrigalosîa, que muitos escrevem mal asim; falos-ia, obrigalos-ia: porque a dita palavra compoem-se destas: faria-os, obrigaria-os: acrecentando um l, para facilitar a pronuncia das-vogais: onde separando, ia, separam uma parte necesaria da palavra, e fazem erro. Nestes cazos diz, que basta o acento em fazèla, dirmeám, obrigalosîa. Aindaque na primeira e semelhantes, quando sam imperativos, faze-la, quere-la &c. que valem, faze-a, quere-a; nam reprova que se-ponha a linha, para mostrar que é esdruxola, e que se-pronuncîa diferentemente. Asimque para facilitar a Ortografia, somente deixa as ditas linhas nestes cazos. I. Na uniam dos pronomes com os verbos, ou das particulas que servem de pronomes, e sam diferentes das terminasoens dos verbos: v. g. fazemos-lhe, lhes-fazem, nos-dizem, dizem-no, o-dizem, as-querem. II. Nos verbos impesoais, que unem com o reciproco: fazem-se, chamam-se, se-nam-fazem: ou tambem nestes; nos-explicarmos, nos-virmos &c. e outras unioens semelhantes: como no verbo á quando une com a particula se: porque sempre se-pronuncîa unido: se-á-de, ám-de &c. Tudo isto advertîra confuzamente, no lugar apontado: mas aqui o-explica melhor. E com efeito tendo escrito com as linhas, as primeiras trez cartas, nas seguintes observa as regras, que aqui dá. E devendo eu, ou tirar as linhas de todas, ou polas em todas, para proceder coerente; segui esta segunda parte: aindaque em algum plural de verbo, alguma vez a-nam-puz. A quem nam agradar, observe as regras que o noso autor dá; que eu tambem observo.
Adverte na mesma carta o autor, que serîa utilisimo, que os omens doutos, seguindo a regra da pronuncia, puzesem i em muitos verbos, e nomes que deles nacem, que se-pronunciam geralmente com i; e nam se-podem pronunciar com e, sem se-esforsar: v.g. emprestar, engrandecer, envergonhar &c. Diz porem, que ele só o-praticou em poucos, e mais comuns, v.g. intrar, incontrar, inganar, intender, ingenhar, importar, informar, e algum outro rarisimo. O que fez, para nam escandalizar de um jato os leitores, pouco informados destas coizas: mas aconselhava, que pouco a pouco se-introduzisem com i. Como tambem se-escrevesem com e, alguns infinitos, v.g. admetir, permetir, defirir, &c. nam obstante se pronunciarem com i, os prezentes &c.
Em algumas partes, de duas ou trez palavras compoem o autor uma só: damesma, contantoque, namobstanteque. Outras vezes escreve-as separadas: com tanto que, nam obstante que, &c. o que eu conservei na impresam. Mas diz o autor que o-fez, para mostrar, que se-podem unir, e separar, como cadaum quizer: O que fazem os seus Italianos, em varias palavras; e os mesmos Latinos em paulo minus, nihilo minus, quam ob rem, et enim &c. que escrevem ou separadas, ou juntas, como lhe-parece mais elegante. Mas o noso autor comumente escreve-as unidas.
Algum erro de Ortografia segundo os tais principios, se-cometeo nesta edisam: o que moralmente nam se-podia evitar, nam sendo o mesmo autor, o que correge a impresam. Estes parece-me que se-podem reduzir, a varios capitulos. I. Puzeram algumas vezes acento agudo, em lugar do grave; e polo contrario: o que o autor distingue mui bem. II. Falta o acento em algumas palavras, em que o autor costuma polo, ou para evitar equivoco, ou para facilitar a pronuncia: v.g. serîa, verbo; e seria adjetivo: escrevèram, preterito remoto; e escreverám, futuro: fórma, nome da escola; e forma, nome de artifice: &c. aindaque neste particular o contexto, comumente tira o equivoco. III. Acha-se alguma linha, em parte onde nam devia, ou falta onde devia: mas sam cazos mais raros. IV. Varias vezes escrevèram i, por e, em admitir, defirir, prefirir, permitir &c. que o autor sempre escreve por e, admetir &c. conformando-se, segundo diz, com a pronuncia comua, e facil, que sempre exprime o e, tirando em bem poucos. Polo contrario puzeram tambem e por i, em ingano, incontrar, intrar, inganar &c. que o autor sempre escreve por i, pola mesma razam da pronuncia. V. Falta alguma virgula onde devia estar, segundo os principios do autor: e alguma se-acrecentou. VI. Dividîram algumas palavras mal no-fim das regras: v.g. min-ha, con-heso, mel-hor, ba-sta, &c. devendo porem o n, e l das primeiras unir-se com h; e o s da segunda com o a. Em inco-gnito, per-spetiva, e outras poucas que tem origem Latina, ou sam quazi Latinas; intendo que è melhor, dividilas nesta fórma, seguindo o estilo Latino.
Estes erros sucedèram mais frequentemente, nos principios de ambos os tomos, que se impremiam juntos: tempo em que o corretor nam tinha toda a noticia, da Ortografia do autor. Mas como os ditos erros nam pervertem o sentido do-discurso; por iso os-nam-apontei nas erratas. E asim só apontei aqueles, que me-parecèram que mudavam o sentido, ou que eram totalmente contrarios, ao estilo do autor, ou comum da dita lingua. Com as reflexoens que aqui aponto, pode o leitor cortez emendàlos, quando s’incontrarem: tendo à vista esta regra: Que achando-se diversidade em alguma palavra, que às vezes tem uma letra, e n’outras ocazioens letra diferente; observe o que é mais frequente; e saiba, que iso é o que o autor aprova.
Advirto alem disto, que os que impremîram o primeiro tomo, nam tinham U vogal maiuscolo pequeno, e asim servîram-se deste U, para vogal; e d’estoutro V, para consoante. No segundo tomo comumente se-distinguem na figura. Tambem advirto, que a minha imprensa nam tinha estas duas linhas =, para pòr no-fim da-regra, na divizam forsada das-palavras: (o que serîa necesario para distinguir, o que o autor aponta, na primeira carta) e asim puz somente, a linha simplez. O que advirto ao leitor, paraque nam estranhe, faltarem aquelas duas linhas, que o autor encomenda, e pratîca: aindaque com uma só linha, muito bem se-conhece, e distingue o sentido. Finalmente advirto, que puz alguns titulos das materias, no corpo de algumas cartas. v.g. na da Gramática, Medicina, &c. o que fiz, para facilitar a inteligencia aos leitores, e distinguir as materias. Isto é, RR. PP. o que tenho que advertir nesta carta, sobre a impresam, e inteligencia das-ditas cartas. O mais que se-contem nelas, compendiei nos-sumarios, que puz no-principio de cadauma, e tambem se-acham no-Index, de cada tomo. Nem me-pertence amim formar juizo delas, quando as-ofereso a pesoas tam doutas, de quem eu devo receber os ditames. Onde acabo a prezente carta, repetindo de novo a VV. RR. a venerasam que lhe-tenho, e dezejando-lhe as maiores felicidades, e a toda a sua Religiam.
NOTAS DE RODAPÉ:
[1] Velleio Paterculo.
INDEX
Do que contem as Cartas do primeiro Tomo.
CARTA I.
Motivo desta correspondencia: e como se-deve continuar. Mostra-se, com o exemplo dos Antigos, a necesidade de uma Gramatica Portugueza, para comesar os estudos. Dá-se uma ideia, da melhor Ortografia Portugueza: e responde-se aos argumentos contrarios. Que o Vocabulario do Padre Bluteau se-deve reformar, para utilidade da Mocidade. Pagina [1].
CARTA II.
Danos que rezultam da Gramatica Latina, que comumente se-ensina. Motivos porque nas escolas de Portugal, nam se-melhora de metodo. Nova ideia de uma Gramatica Latina facilisima, com que, em um ano, se-pode aprender fundamentalmente Gramatica &c. pag. [59].
CARTA III.
Abuzos que se-introduzîram em Portugal, no ensinar a lingua Latina. Mao modo que os mestres tem, para instruir a Mocidade. Propoem-se o metodo, que se-deve observar, para saber com fundamento, e facilidade, o que é pura Latinidade. Necesidade da Geografia, Cronologia, e Istoria, para poder intender os livros Latinos. Apontam-se os autores, de que os mestres se-devem servir na Latinidade: e como devem servir-se deles; e explicálos com utilidade; e as melhores edisoens. Aponta-se o modo de cultivar a Memoria, e exercitar o Latim nas escolas. pag. [74].
CARTA IV.
Necesidade das linguas Orientais, principalmente Grega, e Ebraica, para intender as letras Umanas: mas muito principalmente, para a Teologia. Modo de as-aprender. Utilidade da lingua Franceza, e Italiana, para ser erudito com facilidade, e sem despeza. pag. [112].
CARTA V.
Discorre-se da utilidade, e necefidade da Retorica. Mao metodo com que se-trata em Portugal. Vicios dos Pregadores; que sam totalmente ignorantes de Retorica. Que absolutamente deve deixar o antigo estilo, quem quer saber Retorica. pag. [124].
CARTA VI.
Continua-se a mesma materia da Retorica. Fazem-se algumas reflexoens, sobre o que é verdadeira Retorica, e origem, dela. Que coiza sejam figuras, e como devemos uzar delas. Diversidade dos estilos, e modo de os-praticar: e vicios dos que os-nam-admitem, e praticam. Qual seja o metodo de persuadir. Qual o metodo dos panegiricos, e outros sermoens. Como se-deve ensinar Retorica aos rapazes, e ainda aos mestres. Algumas reflexoens, sobre as obras do P. Antonio Vieira. pag. [153].
CARTA VII.
Fala-se da Poezia. Os Portuguezes sam meros versejadores. Prejuizos dos mestres, de nam poetarem em Vulgar. Que coiza seja ingenho bom, e mao. Especies de obras de mao ingenho, em que caîram alguns Antigos, mas principalmente os Modernos. Necesidade do Criterio, e Retorica, em toda a sorte de Poezia. Primeiro defeito de Poezia, a inverosimilidade: exemplos. Segundo defeito, os argumentos ridiculos. Reflexoens particulares, sobre as compozisoens pequenas Portuguezas; que nam podem dar nome, a um omem: defeitos da Nasam, provados com exemplos. Reflexoens sobre o Epigrama Latino, Elogios, inscrisoens Lapidares, Eglogas, Odes, Satiras, poemas Epicos. Que os Portuguezes nam conhecèram as leis, do poema Epico; prova-se com Camoens, Chagas, Botelho de Morais. Aponta-se o metodo, com que se-devem regular os rapazes, no-estudo da Poezia. Nova ideia de uma Arte Poetica, util para a Mocidade. pag. [215].
CARTA VIII.
Trata-se da Filozofia. Mao metodo com que se-trata em Portugal. Advertencia das outras Nasoens, em procurar a Ciencia. Necesidade da istoria da Filozofia, para se-livrar de prejuizos. Ideia da serie filozofica. Danos e impropriedades da Logica, que comumente se-explica. Dá-se uma ideia, da boa Logica. pag. [276].
CARTA PRIMEIRA.
SUMARIO.
Motivo desta conrespondencia: e como se-deve continuar. Mostra-se, com o exemplo dos-Antigos, a necesidade de uma Gramatica Portugueza, para comesar os estudos. Dá-se uma ideia, da-melhor Ortografia Portugueza: e responde-se aos argumentos contrarios. Que o Vocabulario do-Padre Bluteau se-deve reformar, para utilidade da-Mocidade.
Meu amigo e senhor: Nesta ultima carta, que recebo de V. P. entre varias coizas que me-propoem, é a principal, o dezejo que tem, de que eu lhe-diga o meu parecer, sobre o metodo dos-estudos deste Reino: e lhe-diga seriamente, se me-parece racionavel, para formar omens, que sejam utis, para a Republica, e Religiam: ou que coiza se-pode mudar, para conseguir o dito intento. Alem disto, quer tambem, que eu lhe-dé alguma ideia, dos-estudos das-outras Nasoens, que eu tenho visto. Quanto às outras proguntas, parece-me que bastantemente respondo, inviando-lhe o papel incluzo: no-qual achará, tudo o que queria saber. Mas polo que respeita ao negocio, dos-metodos diferentes de estudos, duvidei por-algum tempo, se obedeceria a V. P. e tinha algumas razoens, que me-pareciam forsozas; suposta a grande pratica que tenho, deste mundo, e deste Reino. Eu sou Estrangeiro: e com dificuldade me-explicarei em uma lingua, que nam mamei no-berso. Que nas minhas cartas particulares, eu cometa erros, a bondade de V. P. mos-desculpa. mas se eu escrever em materia, que se-posa mostrar a outrem; e me-fugir da-boca, alguma expresam menos propria; averá censores tam dezumanos, que me-condenem, por-escrever em lingua alheia, talvez sem advertirem, que iso está sucedendo todos os dias, aos mesmos nacionais, que frequentemente os-cometem. Alem disto, sempre foi coiza odioza, dar regras em caza alheia: e lembrando-me eu de alguns, que me-diseram muito mal, do-grande serviso que fez ao Reino o P. Bluteau, compondo o seu Vocabulario; via de longe, a tempestade que se-levantaria contra mim, se este meu parecer tivese a infelicidade, de sair das-maons de V. P. Mas a maior razam era, porque isto, de emendar o mundo, e principalmente o querer arrancar certas opinioens, do-animo de omens envelhecidos nelas, e consagradas ja por-um costume, de que nam à memoria; é negocio, que excede as forsas de um só omem: e principalmente de um omem, de tam pouco merecimento, e autoridade como eu. E V. P. que é tam versado na Istoria, pode trazer à memoria, mil exemplos destes, que deram, e ainda oje dam, ao mundo Literario, materia de grande admirasam. Lembrou-me tambem, que eu sou Religiozo, em uma Religiam, em que geralmente florecem pouco os estudos: e que, por-este principio, nam faltariam omens, ainda prezados de doutos, que, se chegasem a saber, de quem eram as cartas, as-desprezasem; sem terem a paciencia, de examinar as minhas razoens: por se-persuadirem, que certos acidentes exteriores, de emprego, vestido, &c. conduzem muito, para o merecimento das-obras: e que, sem pizar os ladrilhos de certas Universidades, nam se-pode fazer coiza boa.
Estas, e outras coizas, que se me-ofereceram à memoria, me-tiveram, como lhe-dise, duvidozo. Finalmente as repetidas instancias que V. P. me-faz: a sua grande autoridade: e as plauziveis razoens que me-alega, me-fizeram pegar na pena, para escrever o meu parecer. V. P. segura-me certas coizas, que nam sam de pouca considerasam. Diz-me, que oje á muita gente do-seu parecer, nam só entre os Seculares, mas tambem entre os Regulares: de que me-cita bons exemplos. Diz-me, que o bom gosto nas Artes, e Ciencias, se-comesou a introduzir em Portugal, no-feliz reinado deste Augusto Monarca: o qual nisto, tem ajudado mais o Reino, que todos os seus antecesores. Finalmente promete-me, que as minhas cartas, nam sairám da-sua mam, ao menos em meu nome. Com, estas condisoens, obedeso a V.P. e me-gloreio muito, que um omem da-sua literatura, nam despreze o parecer, de um sugeito de tam pouca doutrina. Dividirei o argumento, em varias cartas: e como as minhas ocupasoens, e molestias mo-permitirem, irei comunicando a V. P. as minhas reflexoens. Devo porem, nesta primeira carta, fazer algumas protestas. Primeira: Que eu nam acuzo, ou condeno, pesoa alguma deste Reino. Se às vezes nam me-agradam as opinioens, nem por-iso estimo menos os sugeitos, e autores, distingo muito o merecimento pesoal, do-estilo de cada um, ou metodo que observa: e poso fazer esta separasam, sem ofender pesoa alguma.
Esta reflexam para V. P. é superflua, pois conhese mui bem o meu animo; e sabe, que eu só pego na pena, para lhe-dar gosto. Mas porque poderá ler esta carta, a algum ignorante, ou malevolo; que intenda, que eu, dizendo o que me-parece dos-estudos, com isto digo mal, da Religiam da-Companhia de Jezu; que neste Reino, é a que principalmente ensina a Mocidade: devo declarar, que nam é ese o meu animo. Eu venero esta Religiam doutisima, por-agradecimento, e por-justisa. Por-agradecimento, porque ese pouco que sei, eles mo-ensináram: e aindaque nas escolas nam aprendese tudo, aprendi-o conversando com eles particularmente, e lendo os seus autores. Sempre conservei com eles, intrinseca amizade: e disto conservarei uma memoria sempiterna. Por-justisa, porque sendo todas as Religioens veneraveis; esta o-é mais que todas, segundo a minha opiniam. Parece que mandou Deus à Igreja estes Religiozos, unicamente para utilidade dos-proximos, pois eles ensinam a doutrina, e piedade, com grande amor, e trabalho: sacrificam-se polos Fieis, em todas as ocazioens: e sam perpetuos defensores da-Igreja Catolica, como confesam os mesmos Erejes. Estes sam os motivos da-minha venerasam, e parcialidade por-eles. Mas asimcomo nem todos os Jezuitas, seguem as mesmas opinioens de doutrina, mas permitem aos seus mesmos, a liberdade de filozofar, dentro dos-limites do-justo; e uns sam contrarios de sentimentos a outros: Asimcomo alguns Jezuitas Estrangeiros, tem reprovado diante de mim, o metodo de Portugal; e alguns Portuguezes me-confesáram, que o-seguiam por-necesidade, e nam por eleisam; e confesáram limpamente, que se-podia, e devia emendar em muitas coizas: (achará V. P. muitos, que lhe-digam, que aquela Logica Carvalha, e Barreta, nam se-deviam explicar nas escolas, mas coizas mais utis: o que eu ouvi muitas vezes) Asim tambem nam será maravilha, que eu me-desvie em muitas coizas, do-estilo que seguem, os Religiozos da-Companhia neste Reino: e reprove outras, que observam alguns dos-seus autores. Para tudo teria exemplos na mesma Companhia, e tambem em Portugal. Mas nam me-é necesario tanto: porque os mesmos Jezuitas, reconhecem de antemam esta verdade; e sabem, que, sem injuriar uma Religiam, pode um omem, ser de contrario parecer. Conhecem muito bem estes doutos Religiozos, que nestas diferensas de pareceres, nam deve entrar o corasam, porque estam fóra da-sua jurisdisam: e se-podem dar entre pesoas, mui unidas de inclinasam. Os Jezuitas todos sam prudentes: e nenhum omem prudente ignora, e contrareia estas coizas. Os individuos de uma comunidade, nem todos sam de igual talento: e as comunidades de uma Religiam, nem todas seguem o mesmo metodo. Alem diso, aqui em Portugal, á muita outra gente que ensina. os outros Religiozos, ensinam os seus, e os de fóra. os mestres seculares, tambem ensinam. E asim as minhas opinioens, podem ter por-objeto, nam uma só pesoa. Isto me-basta advertir, a estas pesoas, que querem saber mais que os autores: e quererám explicar, e interpretar mal as minhas palavras. Onde concluo, que a todos venero, e estimo mui particularmente: somente direi, o que me-parece se-devia fazer, para poder instruir com fruto. A segunda coiza é: que eu nam me-cansarei, em escrever Portuguez elegante: mas me-servirei das-palavras, de que comumente me-sirvo, no-discurso familiar. Nas materias de doutrina, por-forsa devo servir-me, de algumas palavras, que nam sam Portuguezas: o que tambem fazem os Latinos, quando tratam semelhantes pontos. porque no-estado em que as coizas estam, nam se-servindo das-ditas palavras, nam é posivel, explicar bem as materias. E asim deve V. P. estar preparado, para nam se-admirar, de alguns termos novos; e para me-desculpar, os erros que posa cometer. Ocorre-me ainda terceira: e vem aser, que eu suponho, que V.P. me-dispensa, de citar todos os momentos autores, de que tiro algumas das-noticias, que lhe-diser. com tanto que eu aponte, o que é necesario, nam emporta quem o-diz. Basta que eu diga, uma vez por todas, que a major parte do-que digo, experimentei eu mesmo: outras coizas, observei em terceira pesoa; ou li em autor aprovado. V.P. olhe para a razam, em que eu me-fundo: porque esta deve valer mais, que a autoridade extrinseca. Tambem incidentemente digo, nam a V. P. que sabe conhecer as coizas; mas a algum, que posa ler estas cartas: que, se algumas vezes apontar como optimos, alguns autores Erejes; nam louvo neles a sua particular religiam, mas a erudisam, ou metodo. Comumente avizarei, quais sam os Erejes, paraque nam se-leiam, sem licensa devida. Mas se acazo me-esquecer entam advertilo, aqui o-advirto para sempre.
Comeso pois nesta carta, pola Gramatica: que é a porta dos-outros estudos: da-qual depende, a boa eleisam dos-mais. Porque muitos nam intendem, o que significa este nome, por-iso nam fazem, grande progreso na Gramatica. Eu, ainda que falo com V. P. que o sabe, falarei daqui emdiante, como se faláse, com quem o-nam-soubese.
A Gramatica, é a arte de escrever, e falar corretamente. Todos aprendem a sua lingua no-berso: mas se acazo se-contentam com esa noticia, nunca falarám como omens doutos. Os primeiros mestres das-linguas vivas, comumente sam molheres, ou gente de pouca literatura: de que vem, que se-aprende a propria lingua com muito erro, e palavra impropria, e pola maior parte palavras plebeias. É necesario emendar com o estudo, os erros daquela primeira doutrina. Uma razam, aindaque boa, um pensamento exquizito, exposto com palavras toscas, ou que nam signifiquem, o que se quer; dezagrada muito, e comumente nam persuade. Contudo iso por-muitos seculos, se-contentàram os Omens, de falar, como primeiro lhe ensináram. Nam foi senam despois do-terceiro milenario, que os Omens se-aplicáram a falar bem. Foram os Gregos os primeiros, de que a Istoria nos-aponta, que se-aplicasem a este estudo: e tal vez os unicos, entre todos os Orientais. A sua Gramatica consistia, em conhecer bem as diferensas das-letras: ler, escrever, e falar bem. Explicavam tambem os Poetas; nos-quais aprendiam a Politica, e Religiam. O governo da-Grecia, que era quazi todo de Republica, (nas quais as publicas asembleias do-Povo, deliberavam nos-maiores negocios) lhe-inspirou este dezejo. conhecéram eles, quanto emportava falar bem, para falar em publico: e se-aplicáram tanto a iso, que deram, e ainda oje dam, documentos a todo o mundo. Talvez niso foram mais escrupulozos doque convinha: porque, para conservar a sua lingua pura, nam queriam aprender, lingua alguma estrangeira. Estavam tam satisfeitos, das-belezas da-sua lingua, que quazi desprezavam as outras todas. desorteque quando os Romanos, despois de vencidos os Gregos, os-transportáram a Roma; avendo nesta tantos, e de diferentes gerarchias, se-observou (como nota um autor de bom juizo) que os Romanos, aprenderam o Grego: mas nenhum Grego, estudou a lingua Romana: aindaque com o uzo, alguma coiza intendese. E este costume, durava ainda nos-tempos de Cicero.
Com a lingua pasou da-Grecia para Roma, a inclinasam para a Gramatica. porque se-observou, que a lingua Latina se-comesou a aperfeisoar, desde o tempo dos-Cipioens, e continuou até o seculo de Augusto. que é justamente o tempo, em que os Gregos, destruido o seu imperio, comunicáram a sua lingua aos Romanos. Pois aindaque, desde o tempo da-guerra com os Sanitas, e outros Povos da-Magna Grecia, polos anos de Roma 471. algum Romano comesáse a intender, e falar o Grego; foi raro: e somente para poder intendelos nas Embaixadas, e coizas semelhantes, é que o-aprendiam. nam era vulgar este estilo: o que só sucedeo ao despois. Foram os Romanos os primeiros, que aprenderam voluntariamente lingua estrangeira. o que nam consta, que Povo algum, antes deles, tivese feito. E nisto mesmo, me-parecem mais racionaveis: porque conhecendo a necesidade dela, para o estudo da-Filozofia, Matematica, e belas Letras, nam se-envergonháram de receber lisoens, daqueles mesmos a quem tinham vencido, e davam leis. Este é um grande elogio, para uma Nasam tam considerada, como a Romana: conhecer que é vencida em merecimento; e confesar publicamente ese vencimento; e pór o remedio a esa falta. Paolo Emilio, aquele grande omem, que destruio na pesoa de Perseo, o imperio de Macedonia, antes de tornar para Roma, pedio aos Ateniezes, que lhe-buscasem um excelente Filozofo, para acabar de instruir, seus dois filhos. Outros omens grandes, que por-brevidade nam aponto, seguiram o seu exemplo. Lelio, e Cipiam Emiliano, que tanto rafináram a lingua Romana, eram inseparaveis, dos-seus mestres Gregos: dos-quais nam só aprendiam a Filozofia, mas tambem a Gramatica; e o modo de falar bem, e aperfeisoar a sua lingua. Os Filozofos daquele tempo, nam se-ocupavam somente, com discursos aereos de Logica; mas estendiam o seu conhecimento, para muitas outras coizas.
Mas, é necesario confesar uma verdade; em todo o tempo ouve dificuldade, em se-receberem costumes novos, aindaque fosem utis. os Velhos nam querem ceder dos-costumes, que uma vez espozáram. Isto vimos em Roma, no-consulado de Estrabo, e Messala: que publicáram um decreto, em que ordenavam aos Filozofos, e Retoricos, sairem de Roma[3]. Catam o velho, que temia, que os Romanos, pola vaidade de quererem falar bem, servisem mal à Republica no-oficio das-armas; foi um grande protetor disto. Mas a Verdade, por-mais que se encubra, sempre transpira. Trez Embaixadores Ateniezes, que, cinco ou seis anos despois do-tal decreto, vieram a Roma, namoráram todos com os seus discursos. e, nam obstante a repugnancia de Catam, e de alguns outros, os estudos das belas Letras se-introduziram em Roma, e cada dia mais se-aumentáram[4]. A Grecia foi reconhecida por-mestra: e Atenas foi sempre reputada, a Universidade de Roma: aonde se-mandavam os nobres Romanos, para aprenderem o bom gosto. Os dois celebres Antonios, Atico, Cicero pai, e filho, e muitos outros lá foram aprender o que souberam. e o que mais cauza admirasam, é, irem em tempo, que as letras tinham descaido na Grecia. tal era a boa opiniam que tinham dela! Outros muitos Gregos vinham a Roma, e publicamente ensinavam, os estudos Gregos.
Com este exemplo, pouco mais de um seculo antes de Cristo, se-abriram escolas Latinas em Roma. as quais, ainda que com alguma contrariedade, felizmente e com grande concurso se-continuáram. Delas sairam omens mui grandes, que apuráram, quanto puderam, a lingua propria. Tais foram Cota, Sulpicio, Ortensio, Marco Cicero, Caio Cezar, Marco Bruto, Messala, Asinio Pollio, e muitos outros que entam, e oje veneramos, como mestres da-lingua Latina. À imitasam dos-Gregos, comesáram os Romanos a aprender, a Gramatica da-sua lingua, no-mesmo tempo que aprendiam a Grega. A Gramatica, nam se-reputava, coiza de pouca emportancia: mas a-consideravam como baze da-Eloquencia: e por-iso a ela se-aplicavam omens grandes; e nela empregavam um tempo consideravel, os que queriam, fazer figura na Republica. Os livros Retoricos de Cicero, principalmente os trez de Oratore ad Quintum Fratrem, especialmente o ultimo: o livro intitulado: Orator ad Marcum Brutum: e o de Oratoriis Partitionibus: nam só ensinavam Retorica, mas principalmente falar a sua lingua, com toda a pureza, e grasa: que era uma parte principal da-Retorica. Caio Julio Cezar, aquele grande omem em armas, e letras, nam se-envergonhou, de escrever dois livros, sobre a Analogia da-lingua Latina[5]. Marco Terencio Varram escreveo comentarios doutisimos sobre a sua lingua, e uma Gramatica. Continuou este costume, até o tempo de Quintiliano, e seu dicipulo Plinio o moso: o qual Quintiliano, alem de nos-explicar, como se-ensinava a Gramática Latina; ele mesmo nos-deixou uns Elementos dela, no-primeiro livro das-suas Instituisoens. E é de crer, que se-continuase este estilo, até os principios do-quinto seculo de Cristo; em que os Godos entráram em Roma: ou um pouco despois, em que os Ostrogodos se-estableceram na Italia, e arruináram o imperio Latino: abrindo com isto a porta aos Longobardos, que nela domináram tantos anos. Desorteque com o Imperio no-Occidente, se-pode dizer, que se arruinou a lingua Latina: porque comesando a destruir-se, com a mescla de outras palavras, foi necesario emendála com o estudo, e fazer Gramatica dela.
Este metodo de ensinar aos nacionais, a Gramatica da-sua lingua, nam só praticáram os Antigos; mas até em um seculo barbaro, qual foi o de Carlo Magno, foi conhecido, e praticado: e o mesmo Carlo no-dito VIII. seculo, escreveo uma Gramática Tudesca, que era a lingua da-sua corte. Nos-seguintes seculos até o duodecimo, em que a ignorancia tanto dominou, nam foi ignoto este uzo. Mas alguma Gramatica que se-fazia, era para intender o Latim. os livros eram rarisimos. a critica nenhuma. e asim nam é maravilha, se nam se-aplicáram ao que deviam. Desde o seculo duodecimo até todo o seculo decimosexto, reinou outra particular ignorancia, sobre o metodo. Muitos se-aplicáram as letras, mas muito mal. só reinavam as agudezas, e o estilo ridiculo. No-seculo pasado, é que resuscitou este metodo, de ensinar a Gramatica da-propria lingua.
E, na verdade, o primeiro principio de todos os estudos deve ser, a Gramática da-propria lingua. A razam porque nos-parece tam dificultozo, o estudo da-Gramatica Latina, (alem de outros motivos que em seu lugar direi) é porque nos-persuadimos, que toda aquela machina de regras, é particular da-lingua Latina: e nam á quem nos-advirta, quais sam as formas particulares desa lingua, a que chamam Idiotismos: quais as comuas com as outras. Se a um rapaz que comesa, explicasem, e mostrasem na sua propria lingua, que á Verbo, Cazo, Adverbio &c. que á formas particulares de falar, deque se-compoem, a Sintaxe da-sua lingua: Se sem tantas regras, mas com mui simplezes explicasoens, fizesem, comque os principiantes refletisem, que, sem advirtirem, executam as regras, que se-acham nos-livros: e isto, sem genero algum de preceitos, mas polo ouvirem, e exercitarem: Seguro a V. P. que abririam os olhos por-uma vez, e intenderiam as coizas bem: e se-facilitaria a percesám das-linguas todas.
Isto suposto, julgo que este deve ser, o primeiro estudo da-Mocidade. e que a primeira coiza, que se-lhe-deve aprezentar é, uma Gramatica da-sua lingua, curta, e clara: porque neste particular, a voz do-Mestre, faz mais que os preceitos. E nam se-devem intimidar os rapazes, com mao modo, ou pancadas, como todos os dias sucede: mas, com grande paciencia, explicar-lhe as regras: e, sobre tudo, mostrar-lhe nos-seus mesmos discursos, ou em algum livro vulgar, e carta bem escrita, e facil; o exercicio, e a razam, de todos eses preceitos. Se me-tocáse o-fazelo, regularia tudo desta maneira. Primeiro, explicaria brevemente as regras: e obrigalosîa a repetir, as mesmas noticias gerais. Despois, darlheîa um livro de Cartas, vg. as do-P. Antonio Vieira: escolhendo as mais facis: ou alguma istoria pequena, digo, que tivese capitulos pequenos, e periodos nam mui compridos: e mandaria, que a-lesem: e no-mesmo tempo apontaria, quais eram as partes da-orasam. o que se-observa, com grande facilidade. Ajuntaria a isto, as regras mais principais de Sintaxe: porque como tudo isto, se-á-de recozer na Latinidade, basta nesta ocaziam, uma noticia geral. Feitos estes principios, ensinaria duas coizas, mui principais em materia de linguas. a primeira é, a propriedade das-palavras: mostrando-lhe, a forsa de cadauma daquelas, que sam menos comuas. a segunda é, a naturalidade da-fraze: ensinando-lhe, que a afetasam, se-deve fugir em tudo: e que se-deve cuidar em explicar tudo, com palavras mui naturais. Alem disto, ensinaria aos rapazes, pronunciar bem, e ler expeditamente. Este ponto, é mui necesario: achando-se todos os dias omens feitos, que lem soletrando, e cantando: e que dizem mil barbarismos. o que tudo procede, de nam terem tido mestres, que lhes-ensinasem bem. Quando os rapazes estivesem mais adiantados, obrigálosia, a escrever algumas cartas, a diversos asumtos. e introduziria entre dois, uma conrespondencia epistolar: ensinando-lhe os tratamentos, e modo de escrever, a diversas pesoas. Nesta ocaziam tem lugar, ensinar-lhe a boa Ortografia, e Pontuasam. É incrivel, a utilidade que daqui rezulta, nam só para a inteligencia da-Latinidade; mas para todos os estudos da-vida. Este estudo pode-se fazer, sem trabalho algum: e se-pode continuar no-mesmo tempo, emque se-explica o Latim: bastando meia ora cada menhan, ler, e explicar o Portuguez. Isto se-pratica oje, em algumas partes da-Europa. e só os que nam tem juizo, para conhecerem a utilidade, que daqui rezulta, é que negam, a necesidade deste metodo.
Mas aqui, deixe-me V. P. lamentar, e admirar, a negligencia dos-Portuguezes em promover, tudo o que é cultura de ingenho, e utilidade da-Republica. Ainda até aqui, nam tem cuidado nestas coizas: e será rarisimo, o que souber, que esta Gramatica pode ser util. Especialmente nóto isto, sobre a falta de escritos, para instruir um Secretario principiante. (falo dos-secretarios dos-Grandes, e de tudo o mais, fóra das-Secretarias Reais.) Nas-outras Nasoens á livros, que ensinam a qualquer, a urbanidade e ceremonial do-seu Reino. Como escrevem os Reis, e os Grandes entre si, e às pesoas de diferentes gerarchias mais inferiores. como os inferiores escrevem, a toda a sorte de pesoas de maior esfera, tanto Secular, como Ecleziastica. &c. apontam-se os sobrescritos, e poem-se algumas cartas para exemplo. Isto ensina a todos; e impede o fazer erros. Mas em Portugal, é desconhecido este metodo. Um secretario de um Bispo, ou Cardial, ou Fidalgo, ou Dezembargador &c. governa-se por-uma pura tradisam; ou porque asim vio alguma carta; sem mais conhecimento da-materia. Comtantoque um moso, tenha um carater comprido, e dezembarasado, a que eles chamam, letra de Secretaria, é o que basta. Confeso a V. P. que ainda até aqui, nam vi secretario algum destes, que soubese escrever duas palavras, com juizo. que tecese uma carta, considerando quem escreve, e a quem escreve: emque circunstancia: se com dependencia, ou sem ela: se por-agradecimento de alguma fineza, e atensam, ou por-outro motivo. Nam consideram circunstancia alguma destas: as quais porem deveriam considerar muito; porque fazem a carta, mais, ou menos abundante de atensam: Sendo certo, que o Secretario, deve conservar o decóro de seu amo: mas no-mesmo tempo deve procurar, que paresa mais cortez que posa ser. Mas isto, é o que eles nam intendem. e nada mais cuidam, que mostrar, nam digo a grandeza, mas a soberba de quem escreve. Verá V. P. um pobre Cavalheiro das-Provincias, do-qual se pode dizer, como dise aquele noso amigo==Est res angusta domi==; escrever uma carta, com mais soberania e magestade, que nam fará o Papa. porque este, comumente poem==Dilecto filio==: e aquele, comesará uma carta ex abrupto, e imprudentemente, sem atensam alguma. Os de maior gerarchia, ainda fazem pior. e apenas se achará um, que nam queira mostrar na carta, que é mais, da-pesoa a quem escreve. Por-fóra, costumam pór==do-Bispo Fulano: do-Marquez Sicrano== &c. á coiza mais digna de rizo doque esta! As cartas mandam-se lacradas, para que ninguem saiba, de quem sam; e nem suspeite, o que contem: e estes tais poem, e asinam-se de fóra! Que o-fasa o Secretario de Estado, ou outro Ministro, que tem jurisdisam publica; é justo: paraque todos conhesam, de quem é a carta; e, se mais suceder perdela, quem a-achar, a-entregue; e lhe-tenham o respeito, que é devido. mas que o-fasam os outros, e em negocios particulares; e que o-fasam por-grandeza, merece compaixam. Tenho visto milhares de cartas, de Cardiais, Principes Soberanos de outros Reinos, e muitos outros Gran-senhores, e nenhum praticava esta rapaziada. Mas eu vi mais doque isto: porque vi carta de uma grande pesoa, que V. P. conhece, que escrevia a outro mui condecorado, que tinha no-sobrescrito: A Fulano: pondo o simplez nome, sem Senhor, nem titulo, &c. e dentro asinava-se, sem lhe-fazer comprimento, como se-faz nas Patentes.
Pertencem à clase asima, os que carregam o sobrescrito, com todas as circunstancias de Pai, Primo, Cunhado &c. o que tudo pode dar ocaziam, a abrir a carta por-curiozidade. O mesmo digo, dos-que poem: Familiar do-S. Oficio, e outras coizas destas. Basta pór um titulo principal, ou, quando muito, dois maiores: os mais ja se-intendem, ou se-supoem. Estes sam semelhantes àqueles, de que ja falámos tantas vezes, que, no-titulo das-censuras dos-livros, poem uma enfiada de empregos velhos: Ex-Provincial: Ex-Difinidor: &c. e dos-quais V. P. dizia, com tanta grasa, que lhes-faltava pór: Ex-Porteiro: Ex-Guardiam: Ex-Procurador. &c. O pior é que nisto, caiem tambem os Seculares: e poem frequentemente: Colegial que foi no-Colegio de S. Paulo: Lente que foi de Leis, ou de Instituta. &c. só lhes-falta acrecentar a prepozisam, e dizer: Ex-Colegial: Ex-Leitor: Ex-Secretario: Ex-General: Ex-Coronel. Que tendo os empregos, o-declarem; é mui justo: mas que ponham os que tiveram, e sam inferiores aos que oje tem; é uma vaidade mal fundada: e é querer ser estimado, mais polos empregos, que polo merecimento. Leia V. P. a istoria, que escreveo Alexandre Ferreira, e verá, que no-titulo da-obra, escreve toda a sua vida. Outros fazem dedicatorias de livros, a pesoas Grandes, e enchem boa meia folha de papel, de titulos: Capitam-mor de cá: Alcaide-mor de lá: &c. Quando tivesem dito: Marquez, ou Conde; Conselheiro, ou General &c. estes titulos sorvem todos os outros. Destes se-pode tambem dizer, que lhes-esqueceo escrever, todas as quintas, e cazas, que posuem em diversas Vilas, e Cidades, as pesoas a quem louvam, e dedicam as obras.
Em Italia, seria grande injuria, tratando-se com um grande Principe, por-lhe todos os titulos: porque era mostrar, que sam menos conhecidos polo nome, e pesoa. Á cazas, que tem muitos Principados, Marquezados, Condados: e nam somente de titulo, mas com inteira jurisdisam e dominio, pois tem o direito==Vitæ & Necis: e contentam-se com um só titulo, ou, quando muito, dois: Vg. Lourenso Colona, Duque de Paliano, Condestavel do-Reino de Napoles. Domingos Orsini, Duque de Gravina. Prospero Conti, Duque de Poli. Estas cazas tam antigas, que algumas contam mais de mil anos, e tem dado, alem de infinitos Cardiais, 13. Papas, outras cinco, à Igreja de Deus; nam fazem vaidade destes ridiculos titulos; porque sabem, que sam mui bem conhecidas. Mas os *** e principalmente os Portuguezes, governam-se por-outros principios. Tem alem diso estes Senhores por-injuria, se lhe-escrevem por-secretario; e quando nam vem toda a carta, de proprio carater, tocam a fogo. Veja V. P. quam diferentes sam, os costumes estrangeiros! Em Roma, aonde o ceremonial está tanto em vigor, que às vezes é excesivo, nam se-faz cazo de tal coiza. escreve um Cardial a outro, por-secretario. escrevem os inferiores &c. por-secretario. Isto nam prova descortezia, mas que um omem, é sumamente ocupado. nem pesoa alguma faz cazo disto. Somente se-pratica, escrever de proprio punho, quando é primeira carta de ceremonia a pesoa grande, ou quando respondo, a quem escreve de proprio punho: ou n’outros cazos asim. Mas aqui, seria um cazo rezervado, praticar o contrario.
Ora tudo isto, é intender mal as coizas: é falta de educasam: falta de livros bons: e é expor-se ao rizo dos-omens de juizo. Isto pois deve acautelar o mestre, quando instrue os rapazes. deve informar-se das-coizas: ensinar-lhe como se-devem regular: e finalmente dizer-lhe em poucas palavras aquilo, que, por-falta de livros, somente se-pode saber, com uma longa experiencia. Estas coizas devem-se tratar, nestes primeiros estudos.
Despois de ter escrito isto, me-veio à mam, uma Gramatica Portugueza, composta polo P. Argote, Teatino. Verdadeiramente nam é Gramatica completa: mas o autor declara, que só dá regras, para facilitar a inteligencia da-lingua Latina. O juizo que formo desta Gramatica, é este. O autor, introduzindo um dialogo enfadonho, dise, em muitas folhas, o que podia dizer, em poucas regras. Os dialogos nam servem mais, que de fazer mil repetisoens sem necesidade. servem de cansar á memoria aos rapazes, sem fruto: ensinando-os a falar como papagaio: vistoque nam intendem o que dizem. quando polo contrario poucos preceitos, bem explicados com a viva voz do-Mestre, ensinam mais, com menos trabalho. Isto, quanto ao metodo. quanto às regras: O que diz da-Analogia das-vozes, parece-me mui bem; e pode-se ensinar com utilidade. A Sintaxe de concordar, pode pasar: a de reger, nada me-agrada. O P. Argote dezemparou o seu mesmo metodo, por-seguir os erros de Manoel Alvares, e multiplicar regras sem necesidade; asinando regencias falsas: quando tudo aquilo se reduzia, a explicar a regencia dos-Cazos, polas regras fundamentais; que sam mui poucas. Isto é o que deve cuidar o Mestre: reduzindo as regras, às verdadeiras cauzas da-regencia: apontando algum particular idiotismo &c. porque isto basta: vistoque a Gramatica Latina, tambem se-deve explicar em Portuguez, e com poucas regras. A terceira parte, da-sintaxe Figurada, tirando a extensam, tambem pode pasar. Na quarta parte, o que diz dos-Dialetos &c. pode pasar: aindaque tudo aquilo se dizia, em duas palavras. o que diz do-modo de reger a lingua Portugueza, é uma grande superfluidade, e pedanteria: vistoque nam á mestre tam tolo, que nam saiba, como á-de reger, uma carta Portugueza. Isto se-faz, quando o estudante nas escolas, vai lendo a lingua dita: e o mestre lhe-explica, o dialeto da-proza, e do-verso. Antes seria loucura, querer explicar ao principio, o dialeto do-verso. porque os Poetas, que pola maior parte nam pezam bem as coizas, sem excetuar o Camoens; caîram na parvoice, de aportuguezar mil palavras Latinas, sem necesidade alguma: e asim nam é coiza para rapazes. Antes, polo contrario, deve o mestre advertir-lhe, que ese estilo, nam se deve uzar. Finalmente, a Ortografia do-P. Argote nada vale, como abaixo direi. Mas, em quanto nam aparece outra, ou se-reforma esta arte; pode o mestre uzar dela, com as ditas cautelas.
Devo tambem dizer a V. P. alguma coiza, sobre a Ortografia Portugueza. noticia que me-parece mui necesaria, e que com todo o cuidado se-deve comunicar aos principiantes: pois da-falta desta doutrina nace, que em toda a sua vida, escrevam mal: e, ainda despois de estarem em lugares de letras, é lastima ver, como muitos escrevem. E estas reflexoens, servirám para emendar, o que diz o P. Argote, nas suas Regras Portuguezas, e algum outro.
Isto suposto, e compreendendo em pouco, o muito que outros escrevem nesta materia, digo, que os Portuguezes devem pronunciar, como pronunciam os omens de melhor doutrina, da-Provincia de Estremadura: e, posto isto, devem escrever a sua lingua, da-mesma sorte que a-pronunciam. Esta é uma singularidade da-lingua Portugueza, que só se-acha nela, na Italiana, e na Castelhana: aindaque esta tenha sua variedade: ponho de parte a Latina, que é morta. Daqui fica claro, que devem desterrar-se da-lingua Portugueza, aquelas letras dobradas, que de nada servem: os dois SS. dois LL. dois PP. &c. Na pronuncia da-lingua, nam se-ouve coiza alguma, que fasa dobrar, as ditas consoantes. Que se-escreva Terra, Perra, com dois rr, intendo eu a razam: e o ouvido me-aviza, que a pronuncia é fortisima no-r. pois quando nam é forte, como em Pera, Caracol, escreve-se um só r. mas em Elle, Essa, é coiza superflua: porque ou tenha um, ou dois ss. sempre seá-de pronunciar, da-mesma sorte. Nas linguas mortas, faso escrupulo, de mudar uma letra: mas nas vivas, em que nós temos todo o poder, e uzo, quando a boa pronuncia nam ensina o contrario, sam superfluas as repetisoens.
Os nosos Italianos somente dobram as letras, quando a pronuncia é diferente: e sam tam escrupulozos observadores da-pronuncia, que nam á Nasam, que os-iguale. De que nace, a grande dificuldade que os Estrangeiros tem, em pronunciar bem a nosa lingua, nam obstante ser labial. porque nam tendo eles, ouvido tam esperto, para poder perceber, a diferente pronuncia das-letras dobradas; na pronuncia delas, servem-se de uma pronuncia doce e simplez; a qual os-acuza, por-Estrangeiros. O motivo que os Nosos tem, para pronunciarem asim, é uma antiga tradisam, desde o tempo em que a lingua Latina, era viva e domestica entre os seus antepasados. pois é sem duvida, que os Romanos cuidavam muito, em pronunciar bem a sua lingua; e que os mestres, ensinavam isto aos dicipulos com cuidado. Esta tradisam conservou-se sempre em Italia. e nacendo o Italiano, da-corrusam do-Latim, conserváram sempre as mesmas letras dobradas, que os Latinos tem: e talvez acrecentáram mais alguma. Donde vem, que os Italianos, achando no-Latim as letras dobradas, pronunciáram-nas como dobradas: e, por-este mesmo principio, pronunciando o Italiano, com alguma semelhansa do-Latim, dobráram tambem as letras da-sua lingua por cuja razam, sam nela desculpadas, as repetisoens. Os Francezes dobram algumas letras, por-necesidade, para distinguirem as pronuncias: outras dobram, porque tomáram os ditos nomes, dos-Gregos, e Latinos, entre os quais antigamente se-pronunciavam, e escreviam asim: como mostram os omens, que escreveram nesta materia. Tambem nisto tem variado muito: e nam sam aprovados, polos melhores criticos. E oje os Francezes mais doutos, regeitam muitas letras, que parecem escuzadas, por se-nam-pronunciarem: como adverte o P. Lima, na sua Arte Portugueza, e Franceza. Muitos Francezes sam de parecer, que se-devam desterrar todas. e talvez com o tempo, escrevam como falam: vistoque ainda nam á muito tempo, que esta lingua se-comesou a purificar: o que nam excede o tempo, de Luiz XIV. Mas concedamos-lhe o mesmo, que oje concedemos, aos Ebreos, Caldeos &c. é certo, que a lingua Portugueza, todos asentam, se-deve escrever como se-pronuncîa: e asim, nam deve receber letras, que se-nam-proferem.
Deste meu parecer, sam muitos Portuguezes de boa doutrina, com quem tenho conversado nesta materia: os quais nam podiam sofrer, que, sendo a pronuncia a regra da-Ortografia; ainda asim ouvesem omens prezados de doutos, que embrulhasem a Ortografia, com a preocupasam de quererem seguir, a derivasam e origem. Se eu ouvese de escrever, tudo o que me ocorre nesta materia, ou tudo o que se-pode dizer nela, faria um longo tratado; que seria contra o meo asumto, e tambem contra a necesidade da-materia, a respeito de V. P. Direi somente, o que pertence ao meu argumento. Nam obstante que eu á muitos anos, viva nesta opiniam, que a Ortografia comua é muito má; e, com esta ideia, tenha feito um tratadinho dela, para uzo, e regulamento meu; contudo nam me-atrevia, a declarar a todos, o meu animo, como faso a V. P. sabendo, que ainda os mais doutos se-ririam, de que um Estrangeiro, viese dar regras, nesta materia: Sem se-lembrarem, que tambem os que nestes ultimos seculos, escrevèram sobre a Ortografia Latina, eram Estrangeiros nela: semque por-iso, sejam mal ouvidos. Mas agora, devendo dizer a V. P. o meu parecer nela, puz de parte, todos os respeitos politicos; e nam só quiz apontar, o que condeno; mas, para o-fazer melhor, tive a curiozidade de ler, o que dise nesta materia o P. Bluteau. cuja leitura me-confirmou, no-meu propozito, e me-convida, a abrir-me mais promtamente: porque alfim vejo, que tenho mais padrinhos, doque nam cuidava[6].
Digo pois, que da-observasam que asima fiz, e maxima que estableci, se-devem tirar as reflexoens, para as outras letras, e para todas as mudansas e corresoens da-Ortografia. E comesando pola letra A, dobram alguns esta letra, em Menhaan, Vaan &c. e deste parecer, é Duarte Nunes de Leam. Nam se-pode intender, a razam destes omens. Na pronuncia, nam se-ouve aquele segundo A, e seria verdadeiro ridiculo, quem o-quizese pronunciar. e asim porque se-aja de escrever, eu nam intendo. O certo é, que a regra da-pronuncia, ensina o contrario. Daqui pasando ao B, digo, que esta nam se deve conservar, senam naqueles nomes, que especialmente a-tem na pronuncia, como obstaculo, obstante &c. mas naqueles, que oje se-pronunciam sem ela, parece-me escrupulo demaziado. Sobre o C, acha-se alguma diversidade entre os mesmos Portuguezes, em que lugares deve entrar quando tem cedilha, ç. Comumente antes das-terminasoens em ão o-escrevem, e mais em outras partes: sobre o que nam á regra alguma mais, que o uzo. Nisto alguns sam tam escrupulozos, que se encontram escrito com s, Sapato, fazem um orrivel espalhafato. Outros desterram o dito c, e em seu lugar escrevem dois ss. Mas para falar a verdade, e examinar as coizas sem paixam, tudo isto sam iluzoens. Nenhuma diferensa na pronuncia se-acha entre o c, e o s: se alguem contrareia isto, que me-fasa a merce de mo-provar: porque o meu ouvido, que é bastantemente advertido, nam conhece esta diversidade. Isto suposto, pór dois ss, em lugar do c, é uma solenisima ridicularia, sem mais razam, que querer distinguir-se dos-outros. Mas, nam merecem mais indulgencia, os que se-escandalizam de lerem, Sapato, Surrador &c. com s: porque na minha estimasam asim se-deve escrever. Eu verdadeiramente nam sei donde veio, que o ça, se-pronunciáse sa: mas se é permitido conjeturar em materia tam oscura, suponho que foi, por-engano de quem escrevia, que pintava mal o s: e asim com o tempo tomáram-no por-c: Porque a falar a verdade o c com cedilha sam dois cc contrapostos, e que imitam bastantemente um s, asim
: onde continuando a pronuncia do-s por-tradisam; e achando-se escrito o dito ç; intendèram que era uma particular especie de c, e asim o-escreveram. Seja como for, o c, em tais cazos vale um s. e por-esta razam cuido, que é mais proprio, e mais natural, servir-se desta letra simplez, que do-dito c. Desta sorte averia menos confuzam na Ortografia Portugueza, se asentasem todos, a nam escrever antes de a, ou o, ou u, senam um s, e nunca o dito c. Dirmeám alguns, que tambem o c antes de e, ou i, vale um s: e que será tambem necesario desterralo, e convertelo em s. Mas eu respondo, que á mui diferente razam. porque o c, antes de e, ou i, tem o seu proprio soido, sem violencia alguma: e aindaque se-posa compensar com s, contudo neste cazo deve-se permitir alguma coiza ao uzo, que o-introduzio. Nam asim o c antes de a: pois para fazer o soido que eles querem, deve violentar-se, sem ter analogia com as linguas, de que deriva, a nosa Portugueza: e asim parece-me grande superfluidade. Este é o meu parecer: Contudo se alguem ateimáse a servir-se do-dito c, nam faria disto um cazo rezervado: comtantoque confesase, que igualmente se-pode escrever com s: e que nam se-escandalizase, de quem fizese o contrario.
Desta regra, de escrever conforme a pronuncia, crejo que se-pode achar excesam no-Ch. Tem esta letra aspirada com o h, uma pronuncia em Portugal semelhante ao x. e asim dizemos Choro, Chove &c. como se estivera escrito, Xoro, Xove. Contudo algumas vezes se-deve pronunciar; como se-fose um k. o que intendo dos-nomes que vem do-Grego, e nos-quais se-ouve o k na pronuncia. vg. Architetura, Machina, Chimica &c. O Bluteau nam admite isto, nos Opusculos; e defende, que sempre o ch se-deve pronunciar quazi semelhantemente ao x. Mas ele mesmo se-contrareia no-Dicionario: pois diz, que em Portuguez se-deve escrever, Archanjo, Patriarcha &c. com ch, aindaque se-pronuncie o k: Tomára pois que me-dese a diversa razam, porque em outros nomes oriundos da-mesma Grecia, se-deva escrever com qui v.g. Monarquia &c. O certo é, que em ambas as partes a razam é a mesma. Antes parece-me, que com maior razam se-deve fugir o qui: porque em Portuguez despois do-q, sempre se-pronuncia o u, desorteque o q por-si só nam une com as vogais, sem se-pronunciar o u. E como seria erro pronuncialo, em Monarchia, Chimica &c. daqui vem que também é erro, escrevelo. A quem nam agradar esta minha opiniam, de escrever estes nomes por-ch, sou de parecer, que adóte o k dos-Gregos: pois é melhor chamar de fóra, uma letra Estrangeira, doque escrever o q, que em Portugal geralmente tem diferente pronuncia: o que nam sucede no-ch, que ja em muitas disoens está recebido em Portugal, com privilegios de k.
E nam obsta, que a maior parte dos-Ortografos Portuguezes digam, que o k é superfluo no-Portuguez: nam é o mesmo dizelo, que provalo: aqui nam á meio, ou se-deve admitir o ch com privilegios de k; ou adotar o k, em seu lugar. Sei que podem argumentar com Aquele, Aquilo &c. em que parece nam se-ouve o u: mas isto provèm da-pronuncia, que o-toca levemente; porque em todas as palavras Portuguezas o q faz pronunciar o u: Quando, Quanto &c. E principalmente avendo-se de introduzir, em disoens novas, ou Gregas, deve sempre observar-se o uzo mais comum. Duarte Nunes poem sempre c antes de t, como em Docto, Doctrina &c. Desta afetasam zomzombam os omens de melhor juizo; e cuido que com razam: pois se aos nosos ouvidos é insoportavel, quem fala asim, porque á-de ser toleravel, quem o-escreve? Bluteau admite o tal estilo alguma vez, para evitar o equivoco; v.g. Compacto, e Compato: mas eu nam vejo nisto equivoco, pois na segunda disam o Com, deve estar separado. Mas aindaque ouvese equivoco, o contexto o-tira. Outros em lugar do-c, sempre poem u, e dizem, Auto &c. tambem esta afetasam é condenavel: porque Ato, é mui boa palavra, e todos a-intendem. Em Douto &c. pode-se conceder alguma coiza ao uzo.
Costumam muitos Portuguezes dobrar os ee finais em muitas vozes, especialmente em Fée, Sée &c. e alguns dobram-nos em muitas outras palavras, inclinando-se, segundo dizem, a uma antiga pronuncia. Mas ou seja antiga, ou seja de novo inventada, deve-se fugir esta introdusam, pola mesma razam que disemos, de ser contraria à pronuncia. Concorda o Bluteau dizendo, que em algumas palavras se-supre, com um acento sobre o é. Mas eu digo, que nam sò em algumas, mas em todas se-deve escrever um só e. e quanto ao acento agudo, digo, que se-lhe-deve pór, nam para mostrar, que falta um e; mas para mostrar, que se-deve carregar a vogal; porque asim ensina a pronuncia.
Pola mesma razam da-pronuncia, se-deve desterrar das-palavras ou Portuguezas, ou aportuguezadas o Ph, em lugar de F. Muitos Portuguezes introduzem, sem advertencia, em lugar do-f, o dito ph: outros dam longuisimas regras para distinguir, quando se-deve escrever um, quando outro. mas uns e outros discorrem muito mal. O ph dos-Gregos era um p, aspirado com muita forsa, e que alguma coiza declinava para f. e nam avendo em Portugal semelhante pronuncia, é erro introduzir o dito p, quando temos cá o f, que tem o seu próprio soido. Daqui vem que aindaque Filozofia, Triumfo &c. na sua origem tivesem o ph, contudo oje que sam palavras Portuguezas, nam só adotadas polos doutos, mas de que indiferentemente se-servem todos; devem-se escrever com simplez f. Temos o exemplo nos-mesmos Latinos, que, quando adotavam algumas palavras Estrangeiras, pronunciavam-nas com a pronuncia Romana: e davam-lhe as proprias declinasoens Latinas. Talvez lhe-conservavam algumas proprias letras, em atensam de serem linguas vivas. E muitas vezes, para se-livrarem da-impropriedade, escreviam, e pronunciavam as ditas letras em Grego puro: como todos os momentos encontramos nos-seus escritos, principalmente nas cartas de Cicero, e alguns outros. Esta liberdade de acomodar as palavras, ao estilo da-propria lingua, tiveram sempre todos os Povos cultos: e devem ter tambem os Portuguezes. e asim significando o ph um p aspirado, com algum soido de f; nam o-devemos uzar, vistoque nas palavras Portuguezas, nam temos tal pronuncia.
Quanto aos nomes, que ainda nam estam em uzo por-todos, mas que somente uzam, ou para melhor dizer, algumas vezes se-servem deles os literatos; deve-se praticar outra regra. Se sam nomes (falo dos-Latinos, Gregos, Ebreos &c.) de coizas pertencentes a Artes, ou Ciencias, parece-me que se-devem escrever, com as suas letras originais. Vg. se quizer-mos explicar, ou escrever os nomes pertencentes à Anatomia, que sam todos Gregos, segundo o estilo do-Portuguez; escreveremos palavras, que se-nam-intenderám: e asim é melhor, seguir a derivasam Grega. O mesmo digo, de algumas partes da-Medicina, da-Filozofia &c. Muitos destes nomes ou nam se-podem escrever de outra maneira, v.g. Pneumatologia &c. ou, aindaque se-posam escrever, nam estam geralmente recebidos, nem ainda polos mesmos eruditos: e asim nam gozam, do-privilegio Portuguez. Se sam nomes Proprios, entra a mesma regra: ou sam pouco uzados; e em tal cazo é obrigasam escrevelos, com as suas proprias letras. Onde nam condeno quem escreve, Homero, Herodoto, Herodes &c. aindaque estes trez, e outros semelhantes que estam ja muito em uzo, podem mui bem escrever-se sem h: o que ate os nosos Italianos ja fazem: Mas sempre é mais desculpavel, se em semelhantes nomes se-uzam letras da-origem. Quanto porem aos outros, que servem de diferenciar as pesoas Portuguezas, e já estam totalmente naturalizados; devem-se vestir, com o traje de Portugal. E este uzo acho praticado, em todas as Nasoens de melhor doutrina. Quazi todos os nomes da-Sagrada escritura, se-acham mudados na nosa Vulgata. Vg. nós dizemos, o Mesias: e se ouvesemos pronunciar como está no-texto Ebreo, deveria-mos dizer, Maxiaggh com pronuncia forte, e gutural no-g. o que fizeram os Latinos, para adosar a pronuncia forte, e aspera dos-Ebreos. Traduzindo os Gregos este nome, escreveram, Christos: os Latinos, Christus: de que nós tomámos a palavra, Cristo. Podia apontar mil exemplos, que deixo por-brevidade. Os Gregos quando pronunciavam os nomes Latinos, faziam-no com o dialeto Grego. e por-iso nós achamos, que nas medalhas Gregas dos-Consules, e Imperadores Romanos, os nomes estam transformados. Vg. este nome, Marcus Tullius Cicero, os Gregos escreveram-no nas medalhas, Markos Tyllios Kikeron, que tem bastante diferensa do-Latino. Os Latinos, como ja disemos, davam a terminasam Latina, aos nomes Gregos: e muitas vezes deitavam-lhe fóra algumas letras. basta abrir os Dicionarios, para reconhecer esta verdade. Os nosos Italianos italianizam todos os nomes Estrangeiros, que lhe-chegam às maons, quando eles sam tais, que se-podem pronunciar à Italiana: e, seguindo a pronuncia Franceza, desterram da-escritura, os ditongos, e tritongos; pondo somente a letra que conresponde ao tal ditongo. outras Nasoens fazem o mesmo. Se pois em todos os tempos ouve esta liberdade; tambem se-deve praticar em Portugal. E asim parece-me escrupulo ridiculo, querer conservar em Ieronimo, o h, e y: e em Iozé, o ph &c. tudo isto se-deve evitar, escrevendo os nomes com as letras, com que-se pronunciam em Portugal.
Emfim a regra é geral, que todos os nomes de origem antiga &c. ou sejam Proprios, ou Apelativos, que estam naturalizados, e sam frequentemente uzurpados, ou por-todos os omens, como Ieronimo, Triumfo, &c. ou polo comum dos-doutos, como Filozofia, Teologia, Fizica, Metafizica, e mil outros; devem-se escrever como se-pronunciam. Os nomes ditos que nam sam geralmente uzados, v.g. Themistio, Theopompo &c. por-nam escandalizar os ouvintes, ou confundir os ignorantes, é melhor escrevelos com as letras originais. Os nomes, em que entra duvida se sam, ou nam uzados, podem-se escrever, com as letras da-sua derivasam; pois a duvida mostra, que nam é uzual. Isto digo dos-nomes, que sam puramente antigos, ou que se-derivam de linguas mortas, como a Latina, Grega, Ebraica, Caldaica &c. Quanto pois aos nomes de linguas vivas, principalmente das-linguas do-Norte, em que se-acham muitas consoantes seguidas &c. acho que é melhor, e às vezes preciza necesidade, escrevelos com todas as suas letras: porque sem isto, nam se-poderám distinguir e reconhecer, os Autores, as Cidades &c. e nacerá grande confuzam. Aquelas consoantes que a nós parecem superfluas, nam o-sam para eles, porque as-pronunciam, supondo-lhe vogais: onde tirando-as, nem os-intenderemos pronunciar, nem os-saberemos procurar nos-livros.
Esta doutrina que atè aqui establecemos, deve-se aplicar, a todos os outros cazos que ocorrerem, de quaisquer letras que se-nam-pronunciam: E asim nam é necesario repetila especialmente, em todas as palavras: pois qualquer por-simesmo pode aplicála. Onde, seguindo a ordem do-Alfabeto, deve-se desterrar o G. de Madalena &c. Polo contrario deve conservar-se em Significar, Magnifico &c. porque na pronuncia s’exprime.
A mesma razam persuade, que nenhum Portuguez deve servir-se do-H, senam quando tem diferente pronuncia. v.g. despois de c, como em Chave, despois de n, como em Minha &c., nunca porem quando se-diz, He, Hei &c. Desta opiniam foram alguns antigos Portuguezes, como Joam Franco Barreto na sua Ortografia; que quer se escrevam, sem h: e o P. Bento Pereira na sua Grammatica Linguæ Lusitanæ, que concede, que em algumas partes se-pode deixar. Muitos Portuguezes que atualmente vivem, e de mui boa doutrina, defendem fortemente, que se-exclua o h. e achei um, que somente o-admitia, quando distinguia uma disam da-outra. v.g. Ouve pode significar, teve, e também, está ouvindo: onde no-significado de teve, punha-lhe o h, para nam cauzar confuzam. Conheso, que o contexto mostra bem, em que sentido se-toma: e sei que no-Latim, á infinitas palavras, que tem terminasoens equivocas, cujo verdadeiro significado se-alcansa, polo contexto. E ainda no-Portuguez Amára, e Amará, se acazo nam tem acento, somente se-distinguem polo contexto. da-mesma sorte Cria verbo que significa, Tirar do-nada: cria verbo que significa, Produzir a terra: cria verbo que significa, Dar leite ás criansas: e cria, imperfeito do-verbo crer: nam se-distinguem senam polo contexto: o que tambem sucede em muitos outros. Digo somente, que nam condenaria, quem o-escrevese nestes cazos: aindaque eu pratique comumente o contrario. Fóra daqui, julgo que nam se-deve escrever, em nenhuma outra disam; porque todas se-distinguem mui bem, sem ese sinal de aspirasam. O Bluteau, que no-Dicionario diz, que em algumas partes se-podia deixar de pòr o h no-principio; em outros lugares porem defende, a introdusam do-h, querendose desculpar, com a lingua Italiana. Mas erra manifestamente no-que diz. porque nam só os omens mais doutos na lingua Italiana desterráram o h do-principio, e de muitas partes do-meio das-disoens, deixando-o somente despois de c, e g, como em Bianche, Vaghe; porque aqui é verdadeiramente aspirasam forte, e tem seu particular soido: mas tambem a mesma Academia da-Crusca no-seu Vocabulario Compendiado e Correto, declara, que somente uza do-h, para evitar algum equivoco. v.g. Hanno, Verbo que quer dizer, tem; de Anno, nome que significa, o ano. Como tambem em, Ho, Hai, Ha, inflexoens do-mesmo Verbo; para as-distinguir de algumas Particulas, que tem a mesma terminasam. aindaque neste cazo nam condenam, quem deixa o h. Quando muito admitem o h, em Hui, Hoi, exclamasam de quem se-queixa, ou outro semelhante monosilabo: declarando porem, que aqui, e em quatro vozes que apontam, s’introduzio por-erro antigo dos-impresores, e nam por-alguma fundada razam. O que é muito de notar: sendoque os Toscanos aspiram fortemente todos os monosilabos, semque por-iso escrevam h. Fóra destas circunstancias, nenhum Italiano douto escreve h: onde falsamente se-serve o Bluteau do-seu exemplo.
Mas, deixando o que fazem os outros, e pasando ao que devem fazer os Portuguezes, digo, que nam devem escrever h senam, quando cauza diferente pronuncia, como em Minha, Diz-lhe &c. O é quando é Verbo, muito bem se-distingue do-e Conjunsam, pondo-lhe emsima um acento. Nem eu poso intender porque razam é Verbo, deva escrever-se com h, e era, eram &c. que sam inflexoens do-mesmo Verbo, sem ele. Também o ás, á, Verbos que significam ter, mui bem se-distinguem de às, à Particulas, com a diversidade do-acento grave. Tudo isto asim distinguem os nosos Italianos, que participam mais que ninguem da-lingua Latina, e que sam mui advertidos nestas pronuncias. Onde é erro dizer, Huma, Humilde &c. mas deve-se escrever, Uma, Umilde &c. Nem é obscura a razam: basta olhar para à pronuncia, para saber, que é erro, pòr o h. Antigamente o h era sinal de uma forte aspirasam[7]. (intendo por esta palavra aspirasam, deitar para fóra o ar que se-recebeo, para refrescar o interior, e ajudar a circulasam do-sangue: o que advirto, porque me-parece, que entre muitos Portuguezes, nam é bem certa a significasam desta palavra, aspirasam) Deste final pois somente se-serviam, para suprir as letras aspiradas dos-Gregos. Onde somente s’escrevia antes das-vogais, cuja pronuncia era bem aspirada, e gutural, como adverte Cicero[8]. e talvez antes desas nam se-punha. Mas no-tempo da-pureza da-lingua Latina, nunca os omens doutos escreveram h despois de consoante: mas somente no-principio da-disam, e antes de vogal: e nam escreviam Pulcher, mas Pulcer: nam Charitas, mas Caritas &c. o que ainda oje vemos, nos-melhores manuscritos, e inscrisoens lapidares. Mas se alguma vez a-punham despois de consoante, somente o-faziam nas palavras Gregas, ou que de lá traziam origem. De que fica claro, que na lingua Portugueza, em que nam á aspirasam alguma nem forte, nem branda; nam se-deve pòr aquele sinal, que só serve de avizar o Leitor, que aquela letra deve ser aspirada. Somente do-U duvidei por-algum tempo, se admitia antes de si h: porque, a falar verdade, parece-me ser aquela letra, que em Portugal se-pronuncia, com alguma aspirasam; porque a mesma natureza da-letra o-permite. mas dezenganáram-me os meus Italianos, que, sendo tam escrupulozos observadores da-pronuncia, nam poem h antes de disam alguma, que comece por-u: falo dos-que escrevem com a ultima perfeisam. Onde nem menos os Portuguezes devem ter escrupulo, de os-escrever sem h.
Sobre as diferentes especies de II. é incrivel a bulha que alguns fazem, especialmente para determinar, quando se-deve pòr j rasgado, ao principio das-disoens. Cuido que esta grande bulha, se-pode reduzir a duas palavras. Distinguir o i vogal do-consoante, é mui necesario, para saber quando fere, ou nam fere a vogal. chamamos rasgado, ao consoante; pequeno, ao vogal; e distinguem-se pola figura. Quanto ao escrevelos ao principio, pouca dificuldade pode nacer, em quem escreve em Portuguez; vistoque rarisima palavra Portugueza comesa por-i vogal, antes de outra vogal. Onde tirando, îa Verbo, ou alguma outra rarisima, que agora nam me-ocorre; em todas as palavras Portuguezas, que comesam por-i antes de vogal, a dita letra é consoante, e deve-se escrever rasgada; ou de forma pequena, ou maiuscula, segundo a necesidade. Alguma dificuldade pode nacer, no-principio das-palavras impresas. Neste cazo nam dezaprovo, que o i de Joannes v.g. e outros semelhantes seja rasgado, para evitar alguma confuzam. Mas isto intende-se nos-nomes de fórma pequena: porque nos-de fórma grande, que é a maiuscula Romana, pouca necesidade temos de escrever i rasgado no-principio: pois com o outro, igualmente se-pronuncia bem. Quem porem em ambas as partes quizese pòr i rasgado, nam o-condenaria: principalmente se comesasem por-alguma das-duas Portuguezas, que asima aponto.
A maior dificuldade consiste em determinar, quando se-poem G, quando I, antes de e, ou i, nas palavras Portuguezas. v.g. Gente escreve-se com g: Ereje uns o-escrevem com g, outros com i, Ieronimo com i: Giro escreve-se com g: E outras vezes antes do-e &c. poem-se um j consoante. Para dar razam destas variasoens, tem alguns escrito longas paginas: mas nenhuma Regra das-que li, deixa de ter suas excesoens. Dizem, que em Gente, Giro &c. a derivasam aponta o g. concedo: mas que derivasam aponta a letra, que devemos escrever em Ereje, e outros semelhantes, que nam tem analogia alguma, com as letras da-sua derivasam? O meu parecer é este: Que os doutos, sigam a derivasam Latina, especialmente no-principio; e tanto nos-Apelativos, como Proprios, que sempre comesam por-i: tirando quando despois se-segue outro i, que entam é melhor, converter o primeiro em g, como Ginja. Que no-meio, uzem mais do-g, que do-i: vistoque nisto tambem á diversidade, ainda nos-que derivam do-mesmo Latim. Mas, nam se-lembrando da-derivasam, &c. posam servir-se indiferentemente de ambas. Os ignorantes sigam o costume e a pràtica, dos-que melhor escrevem. Nem devemos admirar-nos, se em alguma letra nem todos concordem: nam sendo posivel, que convenham todos, em materia tam duvidoza e arbitraria.
Tambem sobre as terminasoens, am, e aõ, fazem alguns longuisimas disputas, e mui superfluamente. Confesa o Bluteau na sua Proza Apologetica, que ja saîram livros inteiros, para deitar fóra o aõ: e que outros lhe respondèram dizendo, que o til nam era letra, mas risco. O Bluteau protege a pose do-aõ. mas declara, que o til supre a letra n: e defende constantemente, que nam se-deve tirar o til, porque a terminasam aõ, segundo ele diz, é mais engrasada, que o am; e por-este motivo deve-se conservar: muito mais porque seria necesario tambem, desnaturalizar as palavras, Birimbao, Catimbao, Pao, &c. Mas o Bluteau nesta materia, deixou-se guiar por-alguns prejuizos. Dizer, que o til é risco, e nam letra, é o mesmo, que nam dizer nada. O certo é, que este risco faz, que eu pronuncie um n demais, que as letras que ali vejo: onde, chamem-lhe como quizerem, é um verdadeiro n. Dizer, que a terminasam am, é diferente na pronuncia, de aõ, é outro engano: pois em qualquer disam Portugueza, que se-ache a terminasam am, todos a-pronunciam como aõ: e Portuguezes mui doutos servem-se indiferentemente de ambas: e cuido que com muita razam; se è que a segunda se-deva tolerar.
Os que contrareiam isto, nam intendem bem a materia; nem d’onde naceo, esta particular pronuncia em aõ. Quem bem considera o ponto, reconhece facilmente, que aquele til, é um rigorozo m final: e deveria escrever-se, Falaom: porque escrevendo-se desta sorte, e pronunciando-se depresa, faz o mesmo soido, que Falaõ. Daqui naceo, aquela particular terminasam em aõ dos-Portuguezes: porque com a presa de pronunciarem, tocam tam de pasagem o o; que nam se-ouve mais, que o m: o qual, em vez de o-pronunciarem com os beisos fechados, que é a sua propria pronuncia; pronunciam com um soido fanhozo do-nariz: que é o estilo prezente de pronunciar todo o m final, em Portugal: nam avendo aqui m, que se-pronuncie como deve ser. Alemdeque bastava alguma reflexam, para conhecer isto; acha-se manifesta razam, para o-persuadir. A plica ou til, deve significar alguma letra: de outra sorte seria superflua, e nam produziria algum efeito. Esta letra só pode ser m, ou n, e ambos finais: porque de outra sorte sería, Falamo, ou Falano: o-que nam pode ser. Onde fica claro, que Falam, é uma sincope de Falaom: e que tanto se-pode escrever um, como outro. Reconhece-se isto melhor nos-plurais. v.g. Maõ, faz maons: Varaõ, varoens: nos-quais declaradamente se-ve o m, ou n, segundo a pronuncia. E eu creio, que antigamente nestes plurais, em vez de n, punham m; e que a dificuldade de pronunciar o m junto com o s; ou o som do-nariz, que pouco a pouco se-foi introduzindo no-m, o-converteo em n nestas terminasoens: pois ainda oje escrevendo-se com um m final, a pronuncia o-faz parecer, como n. O que, como dise, é um idiotismo particular dos-Portuguezes.
E esta é a razam, porque os Estrangeiros, nam podem pronunciar bem estas dezinencias; que na verdade sam feias, e asperas terrivelmente: porque nam á quem lhe-explique, que o til de aõ, é um m, que os Portuguezes, por-corrusam, pronunciam como um n; nam só no-fim, mas ainda no-meio das-palavras. Reconheci isto por-experiencia: pois tantoque dei esta explicasam a alguns, e mostrei o vicio da-linguagem; pronunciáram melhor, que os outros. Daqui concluo, que as ditas terminasoens, aõ, e am, podem-se uzar indiferentemente; vistoque uma é sincope da-outra: tendo introduzido o uzo, nam pronunciar na segunda, o o. Onde dise um erro Inacio Garcez Ferreira, e alguns outros, quando quizeram defender, que estas dezinencias eram diferentes no-soido: e quando ele lhe-chamou, sincopes das-Castelhanas. E nam sei, se confirma tambem o que ate aqui dise, ver, que na Provincia de Entre Doiro, e Minho, ainda oje se-pronuncîa, em muitas destas palavras, o o; pois dizem, Tabaliom, Escrivom &c.
Mas eu digo mais, e asento, que aindaque uma seja abreviatura da-outra, emportava muito à lingua Portugueza, que se-deitase fóra o til, e a terminasam aõ, escrevendo-se tudo extensamente: e uma de duas, ou que se-escrevese Falaom; ou, abreviando, Falam. Introduzir a primeira escritura, serîa mais dificultozo; porque estes amigos nam querem reformas utis: e asim será melhor, preferir a segunda am, que ja está recebida em Portugal. Certo é, que quando os Portuguezes escrevem, a dita terminasam am, pronunciam aõ: e tambem é certo, que muitos omens doutos servem-se da-primeira terminasam. Este modo de escrever, encostava-se mais para a pronuncia: e com ele se-evitavam confuzoens. serîa também a lingua mais facil de ler, e pronunciar, aos Estrangeiros: pois bastava advertir-lhe, que entre, o a e m, deve-se pòr um o, e pronuncialo depresa. Advertimos porem, que aindaque os Portuguezes tenham, esta pesima pronuncia na sua lingua; quando porem pronunciam a dita terminasam am, no-Latim; devem pronunciala com os beisos fechados, como em seu lugar advertiremos: poisque a lingua Latina nam está sugeita, às suas leis.
Querem alguns, que em Tempo, e outras palavras, em lugar do-m, se-ponha n, porque asim soa. Cuido, que dizem mal: porque aindaque alguns pronunciem o dito m, como n, pronunciam muito mal; pois nesta voz muito bem se-ouve o m, e em outras tambem. E aindaque em outras partes, nam seja tam sensivel o m, deve conservar-se: pois se ouvesemos de tirar todos os mm, que nam se-explicam bem, poucos mm ficariam em Portugal. Em Contigo, Consigo &c. podem tiralo. Contudo quem o-quizese tirar em todas as outras, nem por-iso o-condenaria como erro.
A terminasam an, tambem cauza duvidas, a muitos Portuguezes: e eu julgo, que nam deve ter nenhuma. Acham-se omens que asentam, que nam á tal terminasam no-Portuguez, e defendem isto, com muita forsa. Se disesem, que a terminasam an, antigamente era am, nam diriam mal: mas querer defender, que oje nam á tal terminasam, é dizer um erro. Distinguem-se oje os nomes Femininos, dos-Masculinos, com esta terminasam. Vg. Vam, e Van: Irmam, e Irman. Nem me-digam, que o til é risco, e nam letra: pois ja asima mostrei, que o til é uma letra; e que a pronuncia ensina, que á-de ser n. Por-esta razam concluo, que será necesario, pòr o dito n expreso, deitando fóra o til. Muitos Portuguezes doutos seguem esta opiniam: os quais rim-se de Duarte Nunes, que queria se-dobrasem os aa, dizendo Vaã, Menhaã.
Sobre o P, ja asima dise, que nam se deve escrever ph por-f: Agora digo, que nem menos se-pode sofrer, o que muitos fazem, pòr p, antes de t, em muitas disoens. vg. Prompto &c. Esta é uma afetasam pouco toleravel: vistoque a pronuncia Portugueza, tem ja desterrado este p. Onde nam é a mesma razam do-b, ou do-g, ou do-d, que se-conservam nas palavras, Obscuro, Significo, Adverte: porque este, ouve-se mui bem: e o p, nam se-ouve sem afetasam. E nam falta quem diga, que nas duas primeiras palavras tem ja introduzido o uzo, deixar aquelas letras na pronuncia: o que eu nam condeno: como nem menos condeno, quem as-pronuncîa. Pode ser que com o tempo, se-deixem totalmente.
Quimera por-Chimera, defende Bluteau, e alguns outros: eu julgo, que sem razam alguma; sendoque o qui, tem mui diferente pronuncia, doque a que se-ouve na palavra, Chimera. Ja asima dise, que a quem nam agrada, escrever estas palavras, por-ch, é melhor, uzar o k dos-Gregos, doque o qui; que tem em Portugal diferente pronuncia, na qual expresamente se-ouve o u.
Introduzio o uzo em Portugal, dobrar os rr, quando tem pronuncia forte: e parece-me que este uzo se-deve observar, nam fazendo cazo, do-que aconselham alguns, que um só r bastava.
Nam poso sofrer, que o Bluteau na sua Proza Gramatonomica, queira introduzir, no-principio das-palavras Portuguezas, o s antes de consoante: e escrever, Squeleto, Spasmo, Scena, Sciencia &c. Esta corresam é tam fora do-escolio, que nenhum Portuguez, que nam seja Latino, saberá pronunciar aquele s, no-tal lugar: e o que souber Latim, será necesario, que pronuncie um e mui redondo. A razam disto é, porque o s Portuguez, que nam é final, é um verdadeiro sibilo ou letra sibilante, que faz ouvir a vogal ou antecedente, ou consequente. e asim, querer escrevela sem vogal, é mudar a pronuncia da-letra, e é fazer uma ridicularia, fundada unicamente em querer mostrar, que sabe a derivasam daquelas palavras. Abrasáram algumas pesoas cegamente, a opiniam do-Bluteau: mas nem por-iso dam razam, ou fazem autoridade nesta materia. Onde, antes de consoante, nunca se-deve escrever s simplez.
Deve-se com cuidado distinguir o u vogal, do-consoante v, ou v, para nam originar duvidas. O que muitos nam fazem, ainda prezados de doutos: pois vejo escrituras deles, que merecem compaixam. Isto porem nam só no-Portuguez, mas ainda no-Latim é necesario: Pois aindaque antigamente, (que os Romanos escreviam com letras maiusculas) todos os vv tinham a mesma figura: oje que, com muita razam, se-introduzio esta necesidade, devemos, no-carater pequeno, distinguir na figura estas duas letras, asimcomo as-distinguimos na pronuncia. E fazem mui bem os Alemaens, que, ainda nas letras maiusculas, distinguem o vogal, do-consoante, nos-livros impresos.
Diz Alvaro Ferreira Vera, que nenhuma disam Portugueza, deve acabar em x. Muitos porem acabam em x algumas palavras, e entre elas, Felix, Simplex &c. O que eu sei é, que a pronuncia Portugueza acaba em x, todas as palavras que acabam em s: quero dizer, que todo o s final pronunciam como x. de que nam quero outra prova mais, que cada um observe, como pronuncia o s final; e que diferensa tem do-s, que pronunciam no-meio das-disoens. O que suposto, se seja mais util, acabar em x, o que se-pronuncia como x, ou pronunciar diferentemente os ss finais; eu o-deixo considerar a V. P. Mas deixemos o s, na sua pose: observo, que nam só o s final se-pronuncîa como x, mas também o z final: o que V. P. pode ver em, Diz, Luiz, Fiz &c. E daqui cuido que naceo a facilidade, de pòr o z, em lugar de s final, naquelas vozes de que se-formam outras: como, Diz, dizes; Faz, fazes; para por-este meio fazer os plurais, somente com acrecentar es. O que eu nam condeno, mas antes aprovo, e pratîco com o exemplo, e com a razam: e cuido asim se-deve fazer. Nesta letra é digno de atensam, o demaziado escrupulo de alguns, que magistralmente decidem, que o x tem diferente pronuncia do-ch, antes de e, ou i: e que é erro dizer, Xapeo; mas que se-deve pronunciar, Chapeo, carregando muito no-ch, para o-distinguir do x: e advertem, que é erro da-pronuncia da-Estremadura, pronunciar o ch, como x. Mas, sem fazer cazo da-decizam destes Senhores, julgo, que devemos continuar, na pronuncia da-Estremadura. Nam digo, que na escritura convertamos o ch, em x: deixo as coizas como se-acham: só digo, que na pronuncia, nam á diferensa entre uma, e outra letra. Em materia de pronuncia, sempre se-devem preferir, os que sam mais cultos e falam bem na Estremadura, que todos os das-outras Provincias juntas. Ora é certo, que os ditos pronunciam docemente como um x: e nem só eles, mas muitisimos de outras Provincias, tem a mesma pronuncia. Somente alguma diversidade achei nos-Beirenses, que batem mais o dito c, encostando-se à pronuncia Romana do-c. Mas seja como for, estas nam sam razoens, para persuadir um omem, a que pronuncie o dito ch, diferentemente do-x: quando a pronuncia comua está a seu favor: a qual por-iso mesmo que é mais suave, deve ser preferida à outra. E saiba V. P. que notei outra coiza, e vem aser, que os que querem pronunciar o ch, nam como x, esforsam-se desorte, que, na violencia comque pronunciam, mostram bem, que nam é esa a sua pronuncia. O dizer, que se-devem distinguir na pronuncia, nem menos persuade: porque eles mesmos admitem que s, e c, antes de e, e i, pronunciam-se da-mesma sorte: onde nam tem que se-escandalizar. E asim o dizerem eles, é erro, nam faz forsa: devemos responder-lhe, que eles sam os que erram. Advirto porem, que no-meio das-disoens introduzio o uzo, nam pronunciar o x, como no-principio; mas segundo o estilo Latino, como se fose um cs brando, tocando ligeiramente o c: v. g. em Reflexam, Conexam &c. porque asim é mais suave. mas Paixam, ainda se-conserva em toda a sua forsa; e nam sei qual outro.
O Y tem tantos apaixonados, principalmente entre os modernos Portuguezes, que quazi abuzam dele: e acham-se livros, em que sam mais os yy, que os ii: especialmente o Curvo na sua Atalaia da-Vida, e alguns outros. O Bluteau, seguindo a Bento Pereira, diz, que se-deve admetir nas palavras, para mostrar a origem remota delas, principalmente do-Grego &c. Como se sem esta noticia, nam pudesemos saber Portuguez! Tomára porem que me-disese, se Meio, Cuidado, Saia &c. em que poem o tal y, tem alguma analogia com a origem. Outros dam outras razoens, que nam merecem reflexam, nem resposta: O certo é, que esta vogal antigamente valia o mesmo, que o u, ou tinha um soido mais semelhante a u, que a i. onde se a-quizer-mos tomar, no-seu antigo vigor, faremos uma voz desemelhante, à que queremos pronunciar: e se acazo deve valer um i simplez, tomára que me-disesem, por-qual razam a-poem, onde nam é necesaria. Daqui vem, que é erro escrever, Meyo, Ley, Hey, Rey &c. tudo isto se-deve escrever sem y, porque nam sam nomes Gregos, mas puros Portuguezes. Onde nam só os Portuguezes, mas os mesmos nomes Gregos, quando estam bem aportuguezados, como Idropezia, Ulizes &c. se-devem escrever sem y. Confeso, que nam pude sofrer o Bluteau, o qual, seguindo ao Pereira, quer, que a vogal i nam seja suficiente, para fazer ditongo com a, dizendo, Pai, Dai, &c. mas que seja de necesidade pòr o y, para o ditongo. Este parecer nam necesita de confutasam: pois quemquer conhece, que com ai, se-pronuncîa, da-mesma sorte que ay: onde o uzo serve de resposta; e nam temos necesidade do-y, para fazer o mesmo, que fazemos com o i.
Paso daqui ao Z, aquela letra desgrasada, que teve a infelicidade de dezagradar, à maior parte dos-escritores Portuguezes deste seculo: os quais nam só a-desprezáram, para introduzir em seu lugar o s; mas alguns deles com decreto asentáram, que se-devia desterrar do-meio das-disoens, e prover o seu lugar no-s. Estes Senhores escrevem quazi tudo com s. Achará V. P. em alguns dos-bem modernos * * * Cezar, Fazer, Quizeram, Miudeza, Reduzir, Fazenda &c. tudo escrito com s. Entre eles achei um, de mui boa fama, que em uma orasam * * escreve, Alteza, Solenizado com z: e pouco abaixo, Usurpáram, Lisonja com s. poem Riqueza, e logo Luminoso, Profusam. poem Fazem, e logo Religioso. Emfim a maior parte destes modernos doutisimos escrevem, Alteza, Luzes, e outras poucas palavras com z: e tudo o restante, em que devia entrar o z, vai com s. O Vieira, e outros, que nam admitem tantos ss, contudo em algumas disoens seguem o mesmo, e escrevem vg. Brazil, com z, e Reside, com s. Mas eu creio, que é necesaria mui pouca meditasam para conhecer, que todos estes erram. Os Portuguezes tem a pronuncia do-z asperisima: que creio lhe-ficou, da-comunicasam com os Moiros, e Arabios, que abundam muito diso: e eu acho em Portugual, muitos vocabulos destas Nasoens. Onde tendo o s, e z, diferentisimas pronuncias, é erro sem desculpa, pòr o s, em lugar do-z, quando este deve ter toda a sua forsa, como no-principio, ou meio das-disoens. Dezafio todos os Portuguezes, paraque pronunciem estas palavras diferentemente, vg. Luzes, e Lizonja; Abrazado, e Plauzivel; Riqueza e Religiozo. nam averá algum que se-atreva a dizer, que nas primeiras se-ouve z, e nas segundas s: mas em ambas as partes se-ouve um z mui grande, e gordo. Sendo pois esta pronuncia particular na lingua Portugueza, acha V. P. que se-pode sofrer, desterrar todos os zz, para introduzir uma letra, que soa diferentemente? a isto chamo eu destruir, nam emendar, a boa Ortografia. Alem diso, eu acho em Portugal motivo, para dizer o contrario. ponhamos exemplo nestas duas palavras, Azeite, e Aceite; ou tambem, Razam, e Raçam. Ninguem dirá, que estas duas palavras soam da-mesma sorte: porque em tal cazo nam averia motivo, para as-distinguir na pronuncia. todos tambem conhecem, que o c, com cedilha ç, antes de vogal, pronuncia-se como s; e que por esta razam muitisimos Portuguezes indiferentemente uzam delas. Daqui pois segue-se, que se z, se-deve pronunciar como s, os ditos pares de vocabulos devem pronunciar-se da-mesma sorte. Mas sem eu perguntar isto a omens doutos, mas somente ao leigo da-cozinha de V. P. sei que me-responderá, que Razam, e Raçam, sam coizas mui diferentes: Azeite, e Aceite, nam menos: E asim nam tenho lugar de duvidar, que, pronunciando-se diferentemente, devem tambem escrever-se, com letras diferentes. Se concedem, que o z se-deve conservar, em algumas vozes, como todos concedem; que razam á, para o-nam-conservar nas outras? Se dizem, que o dito s se-deve pronunciar como z, merecem rizo quando querem pòr aquele por-este. ou deitem fóra esta letra do-alfabeto; ou escrevam-na onde deve entrar. Fazer o contrario, é destruir a pronuncia da-lingua, ou batizar de novo as letras.
Somente porei z em lugar de s, no-fim de algumas disoens, de que se-formam outras, como asima dise: porque o uzo introduzio esta pronuncia do-z, semelhante ao s. o que suspeito que provèm de uma Apocope, que se-acha nas tais palavras: e que antigamente despois do-z se-punha uma vogal: como á exemplo em muitas linguas, e também na Portugueza.
Lendo eu a este intento o Bluteau nos-opusculos,[9] fiquei confirmado, que poucos omens pensam bem, ainda dos-que tem bom nome. Confesa, que muitos eram de parecer, que s’escrevese Filozofia, sem ph: e que sempre se-avia de seguir a pronuncia, pois era esta a maior excelencia do-Portuguez; no-qual as letras dobradas eram inutis. Que desta opiniam era Duarte Nules de Leam, & Joam de Barros, nas suas Ortografias; e outros muitos autores, que escrevèram da-lingua. Contudo diz, que na Academia do-Ericeira se-asentára, que nem sempre se-devia escrever como a pronuncia: Mas aqueles nomes que conhecidamente encerravam origens sem corrusam, s’escrevesem como na sua etimologia, quando as letras nam fosem como a pronuncia: e asim Coro, e nam Choro: Monarquia, e nam Monarchia: E que os zz s’evitasem muitas vezes, servindo-se do-s. Confeso a V.P. que nam pude ler isto sem rizo. Eu nunca li as obras do-Leam, ou Barros, nem me-cansei em buscalas: mas agora fico formando melhor conceito deles. Polo contrario nam sei, quais eram os votantes na dita conferencia: porem olhando para o que asentáram, formo mao conceito do-seu juizo: pois conhecendo a razam, e tendo bons autores, que os-apadrinhasem; ainda asim quizeram seguir os prejuizos e preocupasoens que mamáram, somente por-serem antigas. Isto certamente nam é emendar a Ortografia. O pior é, que o Bluteau conhecendo isto mesmo, como em algumas partes confesa, deixa-se guiar da-corrente. Asima mostrei, que Monarchia, deve-se escrever com ch, vistoque asim escrevem Archanjo os contrarios &c. e nam tem divesa razam, sem cairem em uma superfluidade. Devendo pois desterrar o ch, é melhor servir-se de k; mas nunca de q. O mais tambem ja fica advertido.
Certamente que o dizer o Bluteau, que nos-nomes se-deve observar, a Ortografia da-derivasam, como em Philosophia &c. porque de outra sorte nam se-saberám buscar nos-Dicionarios; é reflexam que merece rizo: porquanto as derivasoens, só as-procuram os doutos: e estes bem as-sabem. os ignorantes, nem asbuscam, nem necesitam de buscalas, aindaque queiram falar, e escrever puramente.
Até aqui tenho feito algumas reflexoens, principalmente sobre as coizas, que se-devem deixar: agora farei outras, sobre as que se-devem acrecentar. Nam cuide V. P. que estas sam de menor momento nesta materia: antes muitas vezes delas depende o aumento, a pureza, e elegancia da-lingua. Ponho em primeiro lugar os Acentos: que creio, sam indispensavelmente necesarios, para distinguir muitas palavras. Nam podemos sem eles saber, se Amara, é preterito, ou futuro: e damesma sorte em outras muitas palavras. Tambem para distinguir os Nomes, dos-Verbos, vg. Pronuncia nome, de Pronuncîa verbo. Asimque este deve ser todo o cuidado dos-mestres: que devem advertir aos discipulos, em que partes se-devem pòr, para bater com mais, ou menos forsa as vogais, e distinguir os tempos, e as vozes: vistoque os Portuguezes nam tem letras dobradas, que antigamente serviam a outros, para mostrar as diferentes pronuncias. Porque eles com as dobradas, pronunciavam diferentemente: e os Portuguezes, tirando em pouquisimas palavras, pronunciam como se estivese uma simplez letra.
Nam ignora V.P. que as virgulas, pontos, e dois pontos, foram inventados, para distinguir melhor o discurso. Este é um dos-defeitos da-antiga escritura, que tinha poucos sinais destes: e por-iso é às vezes bem embrulhada. Muitas vezes verá V.P. um ponto, despois de cada palavra: o que faz grandisima confuzam. Outras vezes, o lugar em que punham o ponto, mostrava a diversidade da-pontuasam: quero dizer, que o polo na cabesa, ou no-corpo, ou no-pé da-letra, mostrava que era virgola, dois pontos, e ponto. E como nam temos documentos bem claros, ainda oje vareiam muito os Gramaticos no-determinar, quando era ponto, e quando virgula &c. Com efeito eu vi uma lapide antiga, na qual os pontos todos estavam em um mesmo sitio, no-corpo das-letras: o que aumentava a confuzam. Os Modernos mais advertidos inventáram estes diversos sinais, para nam nos-enganar-mos nas pauzas, e no-sentido do-discurso. Mas ainda nisto procedèram devagar: e eu vi livros impresos nos-primeiros tempos, quero dizer, nos-fins do-seculo XV. e principios do-XVI. nos-quais nam avia mais que virgulas, e todas damesma figura: o que aumentava sensivelmente o embaraso: sendo necesario um grandisimo estudo, para distinguir os sentidos. E isto se-pratîca ainda oje nos-originais das-Bulas Romanas, escritos sem virgulas, nem pontos: os quais quem nam é pratico dos-estilos da-Dataria, nam pode ler; nam só polo carater Gotico, mas pola Pontuasam. Os Modernos evitáram isto, com a diferensa de figuras. Onde sendo os Acentos, os que tiram a confuzam à pronuncia, e ensinam, como se-devem distinguir as partes do-discurso; valem infinito preso, e devem praticar-se com cuidado. Nam digo, que escrupulozamente pratiquemos as trez sortes de acentos: pois nem os mesmos Romanos se-serviam muito do-circumflexo, que com o tempo perdèram. basta uzar do-agudo, que se-escreve asim (´) para bater mais as silabas: do-grave neste modo (`) para as particulas, que se-tocam menos: em algum cazo quem quizese podia pòr o circumflexo sobre o î, para dar lugar ao ponto desima. Ifto é o que basta.
Aos acentos seguem-se as linhas, que se-escrevem entre as disoens, para as-juntar, ou dividir na pronuncia. Os Ebreos tambem tinham estas linhas, e alguns Povos Europeos. Algum Portuguez a-uza. mas serîa justo que a-uzasem mais, e com regras determinadas: pois ajuda muito a pronuncia, e distingue muito as disoens, principalmente as compostas. Julgo, que se-deve uzar naquelas, que compoem duas palavras perfeitas, que costumam estar às vezes separadas. v.g. Fazemos-lhe, lhes-fazem, nos-dizem, dizem-no &c. Com isto se-mostra, quando os Pronomes unem com os Verbos, nam só no-sentido, mas na pronuncia: e finalmente, quando muitas disoens na pronuncia compoem uma. Deve-se tambem pòr entre a Particula se, quando é Pronome, e o Verbo. v.g. Se se-fizer. o primeiro se, é Conjunsam condicional: o segundo, é Pronome, e une com o Verbo. Onde a dita linha é de grande utilidade, para mostrar as palavras, que devem pronunciar-se unidas. v.g. o Nos, algumas vezes é Nominativo, Nós fazemos; e pronuncia-se separado, e com acento forte: outras vezes é Cazo, v.g. nos-fazem: o que se-distingue mui bem com a dita linha. Tambem às vezes serve, para distinguir os tempos. v.g. Amáse preterito, e Ama-se prezente, com esta linha se-distinguem: porque esta separasam de vozes mostra, que, quando chegamos ao a, deve correr a pronuncia, para apanhar o se: que é o mesmo que dizer, deve nam parar no-a, nem carregalo: no-que se-distingue o tempo. Sei, que com os acentos se-podem distinguir estas coizas, digo, este ultimo cazo; e por iso digo, que ou uma, ou outra coiza se-deve praticar: aindaque eu, por-intender que sam necesarias, pratîco ambas.
Quanto ao se, nam só deve ter linha, quando se-une imediatamente ao Verbo, mas tambem quando s’interrompe com a Particula negativa. v. g. se-nam-faz, quando vale o mesmo que, nam se-faz. porque aindaque a Particula paresa que separa; contudo no-dito cazo a negasam é unida ao Verbo, e faz com ele um só corpo, e sentido: damesma sorte que entre os Latinos, a particula in unida aos Verbos. Onde a separasam, é somente quanto à vista: e as duas linhas ensinam, que se-deve pronunciar tudo, como uma só palavra. Serve às vezes a dita linha nam só para unir as palavras, que ese é o seu principal fim; mas para evitar os equivocos. E asim poem-se na Particula Por, quando significa cauza &c. para distinguila do-Verbo Pôr. tambem nas Particulas no, do, da, para as-distinguir dos-Sustantivos nó, e dó, e do-Verbo dá, ou dás. Em todas estas, e outras semelhantes, milita a mesma razam. nas quais porem será justo pòr acento, quando deve ser.
Em outras partes tenho visto uzar estas linhas, que nam me-parecem de tanta necesidade. v.g. Fazemos: que algum douto escreve: Faze-mos: ou tambem quando uma consoante se-converte n’outra, para evitar o concurso de muitas vogais: v.g. Fazé-la, Amá-la, que vale o mesmo que, Fazer-a, Amar-a. Mas nestas primeiras pesoas do-plural parece escuzada, porque se-intendem muito bem, e estam muito em uzo. E o mesmo julgo, dos-segundos exemplos: muito mais porque nestas em que vai La, muitas nam se-acham separadas às vezes, v.g. Quere-la &c. Mas quem nestes segundos exemplos ateimáse a praticala, nam faria erro. O que porem me-parece afetasam é, querer separar esta voz Mente, dos-nomes com que faz Adverbio: Pia-mente, Antiga-mente &c. Na pronuncia destas disoens, nam pode aver engano: e quem as-separa, intende mal as coizas.
Podem opor-me uma dificuldade, vem aser, quando se-dividem as palavras no-fim das-regras, como á-de conhecer quem copeia, se na seguinte regra deve pòr a palavra inteira, ou com a dita linha. Mas a isto respondo, que se-conhece muito bem deste modo: se as palavras se-dividem por-necesidade da-regra, poem-se no-fim duas linhas asim =: quando se-dividem na divizam da-linha, basta pòr uma só linha. Primeiro exemplo asim: Fa=zia: segundo exemplo: Faz-me. Se no-fim da-regra se-acha o Fa= com duas linhas, é sinal que na imprensa, ou copia deve ser inteira a disam: se tem só uma linha, sucedendo ficar toda a disam na seguinte regra, deve ter tambem a linha: e isto é facil de praticar.
Creio que será mui justo, introduzir na lingua Portugueza, os Apostrofes: que sam umas virgulas, que se-escrevem no-alto de uma consoante antes da-vogal seguinte; para mostrar, que falta uma vogal, e que a consoante se-deve unir na pronuncia, com a vogal da-seguinte disam. Digo na proza, porque no-verso o Camoens, e outros ja os-introduzîram. Os nosos Italianos introduzîram os Apostrofes, para abreviarem as disoens: vistoque, comendo-se as ditas vogais na-pronuncia, é superfluo escrevelas: bastando ali pòr o sinal, de que deveriam estar. O mesmo fazem os Francezes: e cuido que, sem alguma censura, o-podem introduzir os Portuguezes. Onde será permetido escrever, Amor d’ Antonio: Cam d’agua &c. A razam disto é, porque ou na proza, ou no-verso nam se-faz cazo daquela primeira vogal: e asim podemo-nos dispensar de a-escrever. Em 2. lugar, porque nam se-perde com isto o sentido, nem se-faz equivoco. Em 3. porque faz a pronuncia mais doce. o que principalmente se-conhece, quando as vogais sam semelhantes: no-qual cazo pronunciar dois ee, ou dois aa, é aspero, e cansa. Asim cuido, que neste cazo, é necesario; nos-outros, mui agradavel o Apostrofe. Nem isto é tam novo em Portugal, que nam se-achem vestigios desta uniam na pronuncia: antes nam á coiza mais frequente. Considere V.P. estas palavras, Deste, Daquele, Damesma, e outras semelhantes; e verá nelas o que digo. Antigamente escrevia-se, De este, De aquela, De a mesma &c. o que facilmente alcansa quem considera, o que vale aquele d, e com que motivo se-introduzio. Mostrou a esperiencia, que, pronunciando estas particulas separadas, ficava aspera a pronuncia: e asim deitaram-nas fóra até da escritura. O que suposto, o que eu aconselho é, que pratiquem com as outras disoens, que se-unem na pronuncia, o mesmo que tem praticado com estas: e que em ambas as partes ponham o Apostrofe, para mostrar a vogal que falta; e com isto ensinar melhor a compozisam das-disoens, sabelas conhecer, e buscar. Apostarei eu, que de dezmil omens Portuguezes, a um só nam veio nunca à imaginasam, que Deste &c. é composta de De, e Este. Proguntei isto a alguns, e nam me-souberam responder: e contudo serviam-se indiferentemente destes termos. Eu teria uzado mais amiudo dos-Apostrofes: mas como ainda nam estam bem introduzidos, temo que me-nam-intendam. pouco a pouco devemos acostumalos a isto.
Outra coiza tenho que repreender, na maior parte dos-Portuguezes, e vem aser, que dividem muitas disoens, que deviam estar juntas. Vg. escrevem, Ainda que, Para que, Com que, Por que, e outras conjunsoens semelhantes. Mas erram, porque aquelas palavras quando se-seguem umas a outras, devem estar unidas, e fazem uma só palavra: e até isto pode ser necesario, para fugir de equivocasoens. Se eu diser: Para que omem me-manda! Com que razam me-persuade! neste cazo o que, é Relativo. e deve estar separado. Mas quando significa o mesmo, que etsi, ut, igitur, quia, como nas quatro asima apontadas; deve estar junto: o que servirá muito, para os-distinguir ambos. Isto mesmo praticáram os Romanos. Attamen, Etenim, sam compostos de At, tamen; Et, enim. Quamobrem é composto de trez disoens, nenhuma das-quais é Adverbio: e contudo juntas fazem de muitos nomes um. E isto mesmo devem fazer os Portuguezes nestas disoens indeclinaveis: e ainda algumas vezes nas declinaveis, que se-unem com o Articulo &c. o que o uzo ensinará; e a pratica dos-omens doutos confirmará.
Tambem sobre os Plurais serîa necesario, establecer um uzo constante. O P. Bento Pereira diz, que o plural de al, é ais, e nam aes. e parece que tem razam; porque a pronuncia mostra um i, e nam um e. Mas nisto á tanta variedade, que uns escrevem ais, outros aes: e o pior é, que o mesmo escritor serve-se às vezes, d’ambas as terminasoens. Um destes é o Bluteau: que, tendo aprovado na Proza Gramatonomica a opiniam do-Pereira, contudo escreve Misaes, e outros plurais semelhantes. Mas ja adverti, que o Bluteau é inconstante na Ortografia. Mais controversos sam, os que acabam em er, como Chanceler, cujo plural querem muitos que seja Chancereis: e nisto tropesa muita gente boa. Cuido, que é mais proprio, e mais chegado à analogia, Chanceleres: e asim todos os mais. Damesma sorte Almiscar, deve fazer, Almiscares. Tambem é mui duvidozo o plural de Simplez, como tambem Feliz. Muitos escrevem o primeiro com x, em ambos os numeros: o que aumenta a confuzam. Outros escrevem no-singular, Simplice: que parece afetasam vergonhoza. Ou acabe em s, ou z no-singular, o plural deve acrecentar somente um es: v.g. Simpleses, ou Simplezes. O mesmo digo, dos-que afetam dizer no-singular, Felice, e plural Felices. Digo, que no-singular deve-se dizer Feliz, ou com s, ou z; e no-plural Felizes: e asim dos-mais. as palavras Indice, e Index, ja oje se-recebem indiferentemente em Portugal. Que Brazil, fasa Brazis, está muito bem: mas que Malsim, Beleguim, fasam Malsis, Beleguis, como querem alguns; é contra a pronuncia boa, que mostra um n mui claro. E asim estes em im, devem acabar em ins, Malsins. Os outros plurais em aons, aens, e oens, é facil determinalos; advertindo as anomalias que se-acham nas tais regras, que nam sam poucas.
Mas nam pára a qui a reforma: deve-se dar um paso mais adiante, e acrecentar muita coiza, em que é defeitoza a lingua Portugueza. Consiste a primeira, em adotar algumas palavras Estrangeiras, para explicar melhor o que queremos. Nam acho em Portugal palavra, que explique a idea que formam os nosos Italianos, (e ainda os Francezes) quando proferem esta palavra, Penso: dizendo, Um omem que pensa bem: Que pensa mal &c. Dizer, Ajuizar, nam explica: porque ajuizar é uma especie de Pensar; mas nam compreende tudo quanto diz, Pensar. Nem menos serve, Considerar: porque considerar é o mesmo que Meditar, Examinar uma materia; e Pensar diz mais. Um meu amigo, para dezatar este nó, servio-se de Pensamentear: mas parece afetado. É mais proprio e natural, servir-se do-Verbo Pensar, que compreende todas as operasoens do-intendimento. Onde, diremos que um omem Pensa bem, quando se-serve de todas as qualidades da-mente ou intendimento, como deve ser.
A mesma dificuldade pode nacer em outras palavras. Aqui confundem Iuizo, e Intendimento: sendo coizas muito diferentes. porque cada nome destes distingue uma particular faculdade da-alma, esta de intender, aquela de julgar. A estas duas unem outras duas, Ingenho, e Talento: as quais nam só sam diferentes das-ditas, mas entre si. Ingenho, somente explica a facilidade que temos, para unir diferentes ideias, de um modo que eleve. Talento, significa a capacidade tanto de intender, como de julgar, e discorrer. Serîa bom, que se-distinguisem estes significados, e se-explicasem aos rapazes, para nam confundir as palavras. Parece-me, que para explicar aquilo, a que os Latinos chamam, Mens, Intelligentia, e algumas vezes Intellectus, se-podia adotar em Portugal a palavra Mente, como fazem os nosos: a qual explica melhor tudo. O uzo tem introduzido, que Intendimento seja sinonimo de Mente.
A estas se-podiam ajuntar outras muitas palavras Estrangeiras, que explicam melhor o que se-quer dizer; principalmente quando se-trata de Artes e Ciencias: cujos termos é necesario uzar, mas com cautela. Nam digo, que se-devam adotar cem mil termos Latinos, que no-Portuguez sam inutis: antes condeno isto muito em bastantes Portuguezes, que enchem os seus escritos, de mil palavras Latinas sem tom nem som, somente para parecerem eruditos. Este é aquele vicio dos-pedantes ou ignorantes, a que os nosos chamam, Pedanteria. O que digo é, que nam avendo termo proprio em Portuguez, se-pode, e deve buscar fóra: e muitas vezes pode-se buscar fóra, nam tanto por-preciza necesidade, quanto para maior ornato da-lingua: aqual é justo que nam seja tam pobre, que nam tenha algumas ocazioens dois ou trez sinonimos, para explicar as mesmas coizas: outras vezes para adosar a pronuncia aspera de algumas vozes antiquadas: e fazer seja mais bela, e mais suave a lingua materna. Mas aqui é que está o juízo, em sabelos adotar sem afetasam. Porei um, ou dois exemplos. Em Portugal nam á nome proprio, para nomiar aquele criado de libré, que acompanha seu amo a pé vizinho à carruagem, ou cavalo. Os nosos Italianos explicam isto com uma palavra, Staffiere, ou Palafreniere. Porque nam uzaremos destes termos em Portugal? Chamamos aqui Letrado, ao que advoga nas cauzas: chamamos aos omens doutos, Letrados. Mas isto é uma impropriedade. Letrado, Douto, Erudito, Sabio, sam sinonimos, mas de significasam mui generica. Aos que advogam, deviam chamar Advogados: que é o seu nome proprio, ainda na lingua Latina, como diz Quintiliano, e Asconio: Advocatus, i. e. Patronus, Caussidicus. Adotáram os Portuguezes estas palavras, Berlinda, Paquebote, Estufa, Sege &c. para distinguir as diferentes sortes de carruagens de que uzam: mas podiam adotar muitas mais: avendo aqui outras carruagens, que nam tem nome proprio, que em outras partes o-tem. As artes Liberais, Ciencias &c. tratando-se em Portuguez, devem ter os seus nomes Estrangeiros, mas aportuguezados. Finalmente, se eu ouvese de escrever tudo, o que me-ocorre nesta materia, faria um groso volume: e asim contento-me, de apontar estes exemplos. O que encomendo muito é, que com este pretexto, nam nos-encham a lingua de Latinismos, Francezismos, e Italianismos, como entre outros fez Inacio Garcez, nas Notas ao Camoens.
Serîa mui util, que os omens doutos introduzisem uma terminasam certa, em todos os Patronimicos de Provincias &c. no-que falta muito a lingua Portugueza. A um omem das-Provincias, chamam Algarvio, a outro Alemtejam, a outro Minhoto, Beiram &c. E ainda estes nomes nam sam geralmente, e benignamente recebidos; porque se-reputam injuria. Mas o pior é, quando pasamos aos Patronimicos de Cidades; comumente nam se-acham: mas dizem: Um omem d’Evora: Um d’Elvas &c. Neste cazo parece licito, fazer nomes novos, e dizer, Evorense, ou Eborense, Coimbrense, Portuense &c. E o mesmo dos-outros antecedentes: os quais podem terminar-se em duas maneiras: v.g. Algarviense, ou, com outra dezinencia Romana, Algarviano: Alemtejense, Alentejano: Beirense, Beirano &c. Nos-nomes de Provincias Ultramarinas, deve-se observar o mesmo. v. g. Brazileense &c. Insolense, Indiano &c.
Em todo o cazo porem, tanto na introdusam de nomes novos, como na pronuncia dos-antigos, sempre se-deve cuidar, em adosar a pronuncia, e fazela, quanto mais puder ser, facil. Nisto pois á muito que condenar em Portugal, principalmente nestes modernos eruditos; que, querendo parecer elegantes, e mui versados na sua lingua, e origens dela; dizem coizas, que é uma piedade ouvilos. V.g. Escrevem, Volumozo: sendo Voluminozo muito mais suave, e mais chegado à analogia Latina. Dizem, Exceptas: sendo mais natural Excetuadas, que vem do-Verbo Excetuar, que é mui Portuguez: quando polo contrario nam acho nela, o verbo Exceptar. Dizem, Eregia: que ofende os ouvidos com a pronuncia: sendo melhor Erezia, que é mais doce e nem por-iso menos conforme ao Latim. Dizem, Pesoa comum: que é uma verdadeira ridicularia: porque aindaque a palavra comum, signifique coiza de muitos; deve ter as suas duas terminasoens em Portuguez, asimcomo tem no-Latim, em que explica diferentemente o Neutro: e o superlativo Communissimus, tem trez mui redondas. Onde deve dizer-se, Coiza, ou pesoa comua &c. Finalmente, (deixando por-agora outras reformas destes escrupulozos) nóto que escrevem Pai, Mai, ou com y, ou com i. Quanto ao primeiro concordamos: mas nam no-segundo: porque na pronuncia ouve-se um e, e n mui redondo: e asim deve escrever-se Maen, porque asim pronunciam os omens de melhor doutrina. Nem vale o dizer, que com isto se-conformam mais, com outras semelhantes palavras Portuguezas: porque, como ja dise, o uzo, fundado sobre a pronuncia mais doce, faz lei neste particular[10]. Tambem eles dizem Catam, Varram &c. e no-mesmo tempo dizem Cicero, Pollio &c. e nam Ciceram, Polliam &c. sendo a mesma razam. No-mesmo Latim, ou Italiano vemos, que uma palavra se-pronuncîa de um modo, e outra, que vem damesma origem, diferentemente. o que V. P. pode ver nos-livros de Cicero, que apontei asima, que traz exemplos de tudo: por-nam citar agora exemplos vulgares, que sam muitos. Asim asento, que, com esta regra diante dos-olhos, é que se-deve emendar e reformar a lingua.
Mas o que me-dá mais vontade de rir é, ver as cautelas que praticam, para dizerem, Porco. Uns dizem, o Gado mais asqueroso: outros dizem, Carne suina: e louvam muito isto em alguns antigos escritores. Tudo puerilidades. Porco nam é palavra obcena: dizem-na os Latinos, e os nosos Italianos diante do-Papa. Antes creio que asquerozo, traz a memoria nam só coiza suja, como o porco, mas coiza que volta o estomago. Estas delicadas orelhas pronunciam, sugidade, escremento, lesmas, ratos, persevejos, piolhos, pulgas, e outras coizas imundisimas sem dificuldade: e acham-na grande em pronunciar, Porco. Que lhe-parce a V. P. a esquipasam?
Finalmente devo advertir a V. P. que estes seus nacionais, ainda falando, pronunciam mal muitas letras no-meio; mas principalmente nos-fins das-disoens. V.g. e final, pronunciam como i: como em De-me, Pos-me &c. todo o o final, acabam em u: v.g. em Tempo, Como, Buxo &c. cujos nomes quem quer pronunciar à Portugueza, deve acabar em u. todo o m final, e no-meio, como n. todo o e antes de a no-meio da-disam, pronunciam como se-fose um tritongo. v.g. Cea, Vea: que pronunciam Ceia, Veia: namobstanteque na escritura, comumente nam ponham o i. E nisto merecem rizo alguns Portuguezes, que nas suas Ortografias impresas ensinam, que na lingua Portugueza se-devem pronunciar algumas letras, aindaque nam estejam escritas: e que umas letras devem pronunciar-se por-outras; v.g. achando-se Outo Dous &c. se-deve pronunciar o u, como i. Isto, como digo, é querer confirmar os rapazes, nos-seus erros. Deveriam polo contrario dizer, que, pronunciando-se o i em Cea, se-deva escrever tambem com i, para se-conformar com a pronuncia: Muito mais porque eles escrevem Meio, Veio, Correio com i, e a mesma razam milita, nos-que apontamos, e semelhantes. Damesma sorte achando-se escrito Outo com u, deveriam ensinar aos rapazes, a conformar-se com a escritura, se intendem que é arrezoada: se porem intendem, como na verdade é, que parece aspera e dura; deviam dizer, que se-escrevèse com i; e nam enganar os rapazes na pronuncia.
E na verdade nam poso intender, por-que razam, pronunciando os omens doutos nos-seus discursos, Dois, Oito, Oitenta, Toiros, Coizas &c. devam na escritura mudalo em u; se nam é por-se-conformar com quatro velhos impertinentes, que intendem e julgam mal das-coizas. Este é o mesmo cazo de Optumus, Maxumus, Dividundo, Faciundo, e outros semelhantes dos-Latinos. Cicero, Cezar, Nepote, e outros omens cultos, nam puderam sofrer aquela pronuncia; e convertèram aquele u em i, para fazer suave a lingua: Salustio, que nos-ultimos tempos o-quiz conservar, foi criticado: e nem menos agradou Varram, que era o protetor das-antiguidades. Onde deve isto tambem ser permetido na lingua Portugueza, que filha damesma maen, tem as mesmas qualidades. Parece coiza galante, que estes omens, em vez de facilitar aos Estrangeiros, a pronuncia da-sua lingua; só busquem meios de aumentar, a aspereza dela. Certamente que o Camoens no-XVI. seculo, apurou muito a sua lingua, servindo-se da-Italiana &c. e isto devemos nós tambem fazer, emendando os erros de Camoens, nam só no-que digo; mas em outras coizas, em que ele pecou, e eu podia advertir. Concluo dizendo, que na lingua Portugueza, nam só se-devem tirar as letras superfluas, onde nam se-pronunciam; mas escrever outras, que se-pronunciam, e até aqui se-deixavam. Onde, todas as vezes que se-pronuncîa o i entre e, e a; deve-se escrever. V.g. Cadeia, Ideia, Ceia, Veia &c. vistoque os Portuguezes escrevem comumente, Meia de calsar, meia duzia &c. e a razam é a mesma em ambas as partes. Por-esta mesma razam se-deve escrever em todos os Verbos, como Leia, Paseia &c. porque se os-pronunciasem como Ceo, Plebeo, Chapeo &c. neste cazo era justo que lho-tirasem: mas levando o i na-pronuncia, tambem o-deve ter na escritura. Desta sorte somente, se-poderá introduzir uma Ortografia certa, e geral, que nam necesite dar diversas razoens em todas as palavras. Repare V. P. que eles escrevem Aia, Maia &c. com i, porque o som desta vogal é claro: e porque nam faram o mesmo com outros nomes, que sam puros Portuguezes?
Acho alem disto omens, que aconselham, se-tire de Arrecadar, Arrematar &c. o arre; e se-diga, recadar, rematar. Sam deste parecer o Bluteau, e algum outro. Mas estas orelhas tam delicadas e escrupulozas, que se-ofendem com tais minucias; nam tem dificuldade, de se-servirem em todas as paginas destes termos, Com noticia; &c. o que abunda no-Bluteau: ou, como diz o Vieira, Por razam, e outras tais. Parece-me, que estas cacafonias menos sofriveis, se-deveriam evitar; deixando as outras que nada ofendem. Este metodo de reformar a Ortografia, era melhor que se-nam-impremise.
Ora deste dano de pronunciar mal o Portuguez, de que até aqui fizemos mensam; rezulta outro, de conservar no-Latim os mesmos erros. onde serîa mui util, que se-emendasem quanto pudesem. Sei, que isto tem sua dificuldade, porque os ignorantes sam muitos, e pronunciam mal: mas Roma nam se-fez em um dia. Seja V. P. um dos-primeiros a dar exemplo: persuada isto mesmo aos seus amigos: que os outros os-imitarám. Deste modo introduzirám em Portugal uma Ortografia, quanto mais poder ser, constante; o que até aqui nam tem avido: e asim será mais bela, e facil a pronuncia; e mais armoniozos os versos Portuguezes.
Isto me-parece basta advertir, sobre a Ortografia Portugueza, visto nam fazer tratado dela. muito mais, porque com estas poucas regras, se-pode responder, às outras dificuldades que ocorrerám. Algumas observasoens de menor momento, podem-se ver, nas Ortografias Portuguezas: tendo a advertencia, de nam se-deixar enganar, das-regras que dam, porque comumente sam mui más. O P. Bento Pereira, que cuido foi dos-primeiros que escrevèram nesta materia, dá muito más regras; e só proprias para destruir, o que cada um sabe. O Barreto, o Leam, o Vera, tem algumas coizas boas, entre outras muito más. Na mesma clase ponho, o que diz o P. Argote, nas suas Regras Portuguezas; e algum outro. Tais autores copiaram-se fielmente uns a outros, sem examinarem a materia.
Sei que alguns, dam em razam do-que escrevem, acharem-no asim escrito, nos-antigos Portuguezes. Mas esta razam, é de caboesquadra. Porque tratando-se de linguas vivas, que nam estavam purgadas polo pasado, mas que na nosa idade, se-vam reduzindo à perfeisam; e desta, da-qual no-noso tempo, apareceo o primeiro Vocabulario; nam devemos estar, polo que diseram os Velhos: mas examinar, se á razam, para se-dizer asim. Observe V. P. que os que asim respondem, contrareiam-se na pratica: porque nam uzam daquelas palavras toscas, que ainda lemos nas leis antigas, nos-testamentos, doasoens, e outros documentos, que deixáram os Antigos. Serîa uma ignorancia manifesta, e afetasam indesculpavel, falar oje com muitas palavras, de que uzáram os antigos Portuguezes. E isto, nam por-outra razam, senam porque a lingua se-foi purgando, e os omens mais capazes intendèram, que se-devia falar de outra maneira. E se isto se-pratîca, com inteiras palavras, porque o-nam-praticaremos, com melhor pronuncia?
Alem disto, é ja coiza muito antiga, que o uzo e juizo dos-omens doutos, e de boa eleisam, decida neste particular. E como ajam muitos Portuguezes inteligentes, que escrevem polo contrario; e asinam boa razam do-que dizem; nam tem lugar nisto, uma prescrisam sem fundamento. No-tempo de Cicero, a lingua Romana tinha de idade, polo menos, uns setecentos anos; (contando somente da-fundasam de Roma: porque sabemos, que a lingua do-Latio é muito mais antiga) e contudo ele, e outros omens doutos, a-purgáram muito bem. Observe V. P. os fragmentos que temos, de Livio Andronico, Enio, Estacio Cecilio, Pacuvio &c. e as obras de Catam o velho, de Plauto; e achará, palavras dezuzadas, e mui toscas; e, em algumas obras, uma compozisam languida, e sem grasa. Prosiga mais para baixo, examine as obras de Terencio, Lucrecio, Varram, Catúlo, Salustio &c. achará neles a lingua mais mudada, e palavras mais polidas. Desa finalmente à ultima fineza da-idade de oiro da-Latinidade, quero dizer, aos que melhor faláram, no-seculo de Augusto; e sempre lhe-crecerá a admirasam, porque crece a mudansa. Pacuvio, e Estacio tem tanta semelhansa com Cicero, Cezar, Cornelio Nepote, Virgilio, Oracio &c. como o dia com a noite. naqueles, tudo é inculto: e nestes, tudo é polido, palavras, fraze, e metodo. E mais todos entram na idade de oiro! O mesmo Cicero, em alguns seus tratados, adverte, quanto trabalhára neste particular, para apurar a lingua. Oracio tambem adverte, que o bom uzo, é o que emenda as linguas. Finalmente advertiram os Gramaticos, e Oradores de melhor nome, que a Ortografia, está sugeita ao costume[11]: e um douto Latino, deixou escrito nesta materia: Antiquitatem posterior consuetudo vicit[12]. E nem somente encontrará V. P. palavras mudadas, mas novas. Os Romanos nam tinham palavras para tudo: e asim foi necesario tomalas prestadas: principalmente em materias de Ciencias, e Artes: as quais adotáram como Latinas. Este é o privilegio das linguas vivas. Mas certamente nam conhece este privilegio, quem se-escandaliza, como vi alguns, de que se-recebam palavras estrangeiras em Portugal. Se os Portuguezes as-nam-tem, que mal fazem, em pedilas aos outros? Nam aprovo porem, o que muitos fazem, servir-se sem tom nem som, de vozes estrangeiras, e palavras puramente Latinas, tendo outras Portuguezas tam boas. O que observo em muitos, que prezumem de Criticos, e Poetas: especialmente no-dito Inacio Garcez Ferreira. O que digo é, que nam se-achando proprias, nam é delito, procuralas em outras linguas; ou fazelas novas: e que, quando as proprias sam asperas, se-devem adosar.
Este mesmo uzo, de purgar as linguas, melhorando na boa pronuncia, e enriquecelas com palavras novas, quando á necesidade; está geralmente introduzido. Achei livros, ainda impresos, Inglezes, Francezes, Espanhoes, e Italianos, com infinitas palavras, que ja oje nam estam em uzo, e com um estilo de fraze pouco uzada. e lembro-me agora, ter visto á anos, um livro de Genealogias de Flandres, escrito polos anos de Cristo 1400., em um Francez tam embrulhado, que o-tinham imprimido, com a versam de Francez moderno a lado: sem o qual socorro, nam era facil intendelo. Os nosos antigos Poetas tem palavras, que oje se-nam-recebem. Em Dante, e Petrarca, acham-se coizas nam mui finas; e tambem em outros. Os Modernos de todas estas Nasoens, melhoráram sobre os Antigos, e serviram-se do-seu direito, para emendar a lingua. os mesmos Portuguezes o-fizeram. Finalmente isto é tam claro, que me-envergonho de o-provar. E com efeito, a estes que asim respondem, ou asim argumentam, seria mais acertado, nam-lhe-responder. É fazer-lhe muito favor mostrar, que tais argumentos tem resposta. Mas eu o-faso aqui, porque a amizade de V.P. me-obriga a obedecelo: e escrevo isto, mais para satisfazer ò seu dezejo, doque à materia.
A outra razam, que outros afinam, para se-desculparem dos-seus erros é, que umas vezes dobram as letras, para mostrarem donde se derivam: outras, para a significasam, quero dizer, os diversos tempos: E asim escrevem Escritto com dois tt, para mostrar, que vem de Scriptus: e Amasse com dois ss, para o-distinguir do-prezente Ama-se. Esta razam achará V. P. em alguns livros impresos. Mas, com todo o respeito que devo, a quem uza dela, digo, que nada vale. A maior parte das-palavras Portuguezas, tem origem Latina: o que até as criansas sabem: quizera pois que me-disesem, porque se-devem dobrar em vinte, ou trinta palavras, e nam nas mais? Alem diso se V. P. observa, muitas palavras Portuguezas, achará, que nam só tem origem, mas sam puras Latinas. V.g. Aplaudo, Aplico &c. e nestas será tambem necesario dobrar os pp, e escrever trez consoantes seguidas, como no-Latim. Será tambem necesario pòr o s, antes de Ciencia. e finalmente comesar muitas disoens, por-duas consoantes, mn, pn, sp, ps: porque tudo isto á no Latim. O c antes de t, tambem se-deve pòr, em muitas palavras, como em Benedicto, Doctor, &c. E nam sei, se, os que seguem o dito parecer, admitirám todos estes acrecimos: o que nem menos o Italiano, que se-preza de filho primogenito do-Latim, admite em tudo. Crece o argumento se observamos, que o Portuguez tem palavras Arabias, Goticas, Inglezas, Tudescas &c. o que suposto, será necesario em cadauma, pòr a sua diferensa original: ou ao menos nas Latinas, para as-nam-confundir com as outras. Finalmente se a tal razam valese, nam deveria quem uza dela; pòr h, em é verbo, e outros destes: porque na sua origem nam o-tem.
Mas, deixando outras observasoens, com que podia provar, a insufisiencia das-ditas razoens; darei só uma, que prova por-todas: e esta especialmente serve, contra aqueles Portuguezes que dizem, que se-devem dobrar muitas letras, porque se-pronunciam dobradas; e expresamente se-ouvem os dois mm, em comum, e outras semelhantes. Digo, que para responder a estes, basta citar-lhe o exemplo, da-lingua Italiana. Nam vi ainda Portuguez algum (nam falo dos-que pasáram a Italia até a idade de 7 ou 8 anos: porque estes perdèram a sua lîngua, e falam o Italiano, como lingua propria) por-mais estudiozo, e diligente que fose, que aprendèse a pronuncia, principalmente Toscana, ou Romana: em que expresamente se-pronunciam as duas letras consoantes: todos as-pronunciam como una simplez. V. g. Distinguem os nosos Capello, que significa Cabelo, de Cappello, que significa Chapeo; com pronunciar dois pp, e dois ll no-2. Nenhum Portuguez o-chega a distinguir: e por-iso sam logo conhecidos, por-Estrangeiros. O mesmo digo em todas as outras dobradas: O mais que vi foi, pronunciar os dois zz, v.g. em Palazzo, Ragazzo: mas isto com muito esforso, e pola razam, de que se-pronunciam diferentemente: quero dizer, que os dois zz, pronunciam-se como ds: que, se tivesem soido igual, nam os-pronunciariam. Esta experiencia constante mostra, que é falso dizer, que os Portuguezes, na-sua pronuncia natural, e sem fazer um grande esforso, pronunciem as dobradas. Do-que se-segue, que sam inutis as tais letras. E em tal cazo entra a minha regra, que as letras inutis, se-devem desterrar, da-lingua Portugueza.
Sobre a pontuasam, tenho pouco que advertir a V. P. É claro, que a Virgula foi inventada, para denotar a interrusam que se-faz, quando se-toma a respirasam: e para dar alguma distinsam ao discurso, e impedir a equivocasam nele. Tem seu proprio lugar, quando se fazem distinsoens de Nomes, ou de outras palavras, que dependem do-mesmo Verbo, e se-unem em uma propozisam. v. g. Pedro foi soldado, capitam, coronel, e chegou a ser general. Uza-se tambem dela, antes da-Conjunsam copulativa, e adversativa. v.g. Pedro, e Paulo partîram: Nem Pedro, nem Paulo partio. Mas nam se deve uzar, quando a conjunsam está entre sinonimos: v. g. Antonio tem eloquencia e facundia. Pedro tem grande animo e valor. Porem muito bem se-uza entre propozisoens, que signifiquem o mesmo; a que podemos chamar sinonimas. v.g. Cezar subjogou todo o imperio Romano, e com a serie das-suas vitorias conseguio, que os Governadores, o-reconhecesem soberano. aindaque entre estas, sendo longas, podese escrever ponto e virgula, ou dois pontos.
Utilmente se-uza da-virgula, para distinguir e fazer mais claro o discurso: o que se-faz em trez cazos. I. separando as propozisoens, regidas pola mesma pesoa, ou coiza. v.g. Umas vezes ri, outras chora. Tomou uma lansa, e lhe-atravesou o peito. II. interrompendo o sentido, com outras palavras. v. g. Deus, autor do-mundo, é pai de mizericordia; e tem providencia das-criaturas; mas quando a interrusam é comprida, é melhor pór-lhe ponto e virgula; como abaixo diremos. III. separando aquelas propozisoens, emque a segunda, é objeto da-primeira. v.g. Dezejo ver, como sucederá o negocio. Quererá Deus, que iso nam se-verifique.
Finalmente se às vezes nam se-poem virgula, pode nacer confuzam no-discurso. v. g. Cuidando na minha aflisam, e ocupado neste pensamento, confuzo saî de caza. se nam ouvése virgula, em pensamento, podia unir-se com confuzo, e cauzar nova confuzam. Mas nisto das-virgulas, é necesario ter muito cuidado, de nam ser excesivo: como fazem alguns, prezados de doutos, que em cada palavra poem virgula. o exceso, e a falta igualmente se-devem evitar.
Tambem a parentezis, é especie de virgula: e consiste neste sinal, () com o qual se-compreendem algumas palavras. Escreve-se, quando dentro de uma propozisam, se-inclue outra, separada do-sentido; ou para excesam, ou declarasam de alguma coiza. v.g. Deixo de dizer (aindaque poderia com razam) as atrocidades que cometeo. O Amor, (como achamos escrito na Sagrada escritura) é tam forte como a morte. Porem, se a interrusam é breve, bastam duas virgulas. v.g O Amor, como ja dise, é uma grande paixam.
Despois da-virgula, seguem-se os dois pontos. Estes se-poem, quando o sentido da-orasam é completo, quanto à sustancia; mas nam em quanto ao fato: quero dizer, quando o que se-escreveo, faz por si só sentido perfeito; desorteque podia-se terminar com um só ponto: mas quem escreve, ainda tem alguma coiza que acrecentar, para melhor declarar a coiza, ou expremir alguma circunstancia, com a qual se-acabe de todo o periodo. v.g. Recebi o doutisimo livro que v.m. me-mandou: para me-obrigar com isto ainda mais, doque estava. Neste periodo, despois de mandou, escrevem-se dois pontos: porque o sentido, ja está completo; mas ainda á que acrecentar. E estes dois pontos se-podem replicar, em um longuisimo discurso, tantas vezes, quantas o sentido da-orasam for suficientemente completo. Mas a melhor regra que nisto se-pode observar, é esta: Se a propozisam que se-segue, nam é muito independente da-antecedente, deve-se pòr dois pontos. v. g. Estudar varias ciencias, no mesmo tempo, antes confunde, que doutrina: como tambem o comer no-mesmo tempo comeres diferentes, tanto nam engorda, que ofende. Mas se eu comesáse a segunda, por-palavras menos dependentes, deveria pòr um ponto. v. g. Estudar varias ciencias, no-mesmo dia, antes confunde, que ensina. Damesma sorte, como dizem os Medicos, mui diferentes comeres no-estomago, impedem a digestam. neste cazo ponho ponto, porque o sentido é mais separado. Porem se as propozisoens sam breves, intendo mais acertado, separalas com uma virgula. v. g. O estudar muito junto faz confusam, como tambem o comer muito.
O ponto, costuma-se pòr, no-fim do-periodo, e quando o sentido é totalmente completo. Neste particular observo, que muitos em Portugal ensinam, que despois de ponto, sempre se-poem letra grande. O que é um engano manifesto; e contra a pratica dos-que melhor escrevem: que dizem, que quando os periodos sam breves, e em certo modo dependem uns dos-outros; basta despois de ponto, pòr letra pequena: e quando isto sucede no-fim do-verso, poem-se dois pontos: vistoque o verso seguinte deve sempre comesar, por-letra grande. Onde os omens doutos advertem, que nam só se-pode escrever letra pequena, despois de ponto final; mas tambem algumas vezes, despois de dois pontos, letra grande: quando o periodo é comprido, e se-tem posto muitas vezes dois pontos: ou tambem quando se-introduz alguma pesoa que fala, ou coiza semelhante.
E aqui incidentemente advirto, que nisto de escrever letra grande, á um grande abuzo: avendo escritores que a-escrevem, em mil coizas desnecesarias: o que ofende a vista. E asim, nam avendo razam forsoza, deve-se escrever letra pequena, que é mais natural. As regras que nisto dam, os omens mais advertidos, se-reduzem a estas. Poem-se letra grande. I. quando se-comesa o discurso. II. nos-nomes proprios, e sobrenomes tanto de Pesoas, como Provincias, Cidades, Ilhas, Montes, Mares, Rios, Ventos, e Animais. III. nos-nomes de dignidade, ou abstratos, como Bispado, Papado &c. ou concretos, como Papa, Rei, Abade, Conego, Senador &c. mas nam se-poem nos-de oficios inferiores, como soldado, pintor, sapateiro. IV. nos-nomes apelativos, quando se-tomam por-alguma coiza particular. v. g. O Orador Romano, por-Cicero: o Doutor Angelico, por-S. Tomaz: Religiam, pola vida Religioza &c. V. nos-nomes do-genero, ou especie, quando significam todo o genero, ou especie. v. g. A Terra é redonda.Os Rios correm para o mar. porque significando um individuo particular da-dita especie; v.g. um bocado de terra &c. basta letra pequena. VI. as coizas inanimadas tomadas como pesoas, ou polo genero. v. g. A Ira é uma grande paixam. O Amor cega os mais doutos &c. VII. os Adjetivos tomados como Sustantivos. v.g. O Amigo, é outro eu. O Forte, aumenta o animo nos-perigos. VIII. os nomes que significam multidam. v.g. Senado, Republica, Cabido, Turcos, Inglezes &c. IX. os nomes da-materia, de que principalmente se-trata. v.g. A Incarnasam, a Simonia. ou tambem os nomes das-principais partes, em que se-divide um todo. v.g. Neste cazo pecam alguns, por-Ignorancia, ou por-Malicia. Por-Ignorancia, pecam aqueles &c. X. quando no-discurso se-introduz alguma pesoa, que fala. v.g. Voltando-se entam para o ceo S. Paulo, dise, Senhor, que quereis que eu fasa? mas se o discurso que se introduz, fose mui longo, serîa mais acertado, separalo com um ponto sinal. E a palavra que se-segue, despois do-ponto interrogativo, nam deve ter letra grande; porque nam comesa um sentido novo.
Estas sam as regras, establecidas polo melhor uzo. Contudo á alguns, que ainda às vezes as-limitam, quando intendem, que nam sam necesarias. v. g. Vindo juntos dois nomes, um generico, e outro particular, como Seita Turquesca, Igreja Catolica, Senador Romano, Academia Real, Concilio Toletano, Concilio Geral, &c. deitam fóra a letra grande dos-primeiros, e somente a-conservam nos-segundos, que distinguem os primeiros. Porque ainda-que em outras ocazioens, achando-se somente a palavra, Igreja, oncilio, &c. tenha letra grande; neste cazo porem, parece ser escuzada: o que eu aprovo. Outros ainda fazem mais, que, achando muitas destas ultimas palavras, que aponto, como Senador, Consul, &c. escrevem-nas com letra pequena: principalmente se está unida a algum sustantivo Proprio. v. gr. Joannes rex. Cicero consul. E isto achamos mui praticado, em antigos manuscritos; e belisimas edisoens de livros modernos, emendadas por-omens mui doutos. Onde nam se-deve condenar, se algum o-praticar em alguma conjuntura, para evitar tanta letra grande.
Outros ainda limitam, o que se-diz nos-numeros V, e IX. porque intendem, que nem sempre é necesaria, a dita letra grande. E em tal cazo, ou escrevem letra grande, só na primeira vez: ou poem uma risca por-baixo, escrevendo; o-que na imprensa convertem em letra cursiva: ou nam a-poem: Nam parecendo muito bem um papel, em que repetidas vezes se-encontram as mesmas palavras, com letra grande: o que ofende a vista.
Tornando pois aos pontos: algumas vezes o periodo inteiro, é acompanhado de admirasam, ou interrogasam: e em tal cazo o ponto se-acompanha, com o final proporcionado. A admirasam, nota-se asim, (!) v.g. Morreo, cazo admiravel! dezesperado. ou em qualquer outra parte, em que entre a admirasam, ou simplez exclamasam. A interrogasam, ou progunta, distingue-se com este final, (?) v.g. E porque nam poderei eu fazer isto? qual de vos outros mo-pode impedir? Muitas vezes sucede, que a înterrogasam é acompanhada de exclamasam. v. g. Ó que grandes consequencias, seám-de seguir de um tal fato! ou tambem: E como é posivel, que te-occorrese fazer isto? e nestes cazos, é licito pòr um, ou outro final, como melhor lhe-parecer. É porem de advertir, que quando a progunta é mui comprida, e que na longueza, perde a forsa de progunta; os omens mais doutos, nam costumam pòr-lhe no-fim, o final de interrogasam: mas se lho-poem, é no-principio, ou no-fim do-primeiro periodo, ou nam lho-poem. V.g. Julgas tu, que á omens de tam pouca considerasam, que siguam um tal estilo, nem fasam cazo da-palavra, nem procurem ileza a sua onra, nem tenham diante dos-olhos estas circunstancias: as quais se eu nam tivese executado, totalmente me-faltaria aquela benevolencia, que certamente me-mostram, os que examinam as minhas asoens =. Neste periodo, ou se-deve pòr ponto de interrogasam, despois de tu: ou, despois de circunstancias: ou, em nenhuma parte: vistoque o contexto mostra bem, em que sentido se-fala.
Finalmente deve-se advertir, que á outra separasam de periodo, a que chamam Paragrafo: o qual se-comesa, quando a materia que se-trata, se-acabou; e se-pasa a outra materia. Muitas vezes se-comesa paragrafo, quando o discurso tem sido comprido, e, por-nam-fazer confuzam, é necesario varialo. o que sucede, quando sobre a mesma coiza, alego muitas razoens, e cada uma ocupa uma meia pagina. Em tal cazo, para evitar a confuzam, e dar mais gosto, e repoizo a quem le; é justo comesar paragrafo. O que porem se-deve regular, pola prudencia de quem escreve: pois tam enfadonho é, comesar paragrafo, despois de trez folhas, como despois de trez ou quatro regras. Caiem no-primeiro destes defeitos, alguns prezados de doutos: que, ouvindo dizer, que os Antigos nam uzavam das-separasoens de capitulos; sem mais outra reflexam, fazem um longuisimo discurso, sem divizam de paragrafos: em modo tal, que se-perde a respirasam lendo-os. No-segundo, caiem muitos Escolasticos, que de cada texto fazem um paragrafo. Uma, e outra coiza se-deve evitar.
Alem das-ditas pontuasoens; inventáram os escritores, principalmente modernos, outra, a que chamam, ponto e virgula. e isto para variar a pontuasam, e para evitar pòr tantas virgulas seguidas, antes dos-dois pontos, nos-periodos longos. Este ponto e virgula, é uma pauza, maior que a virgula, e menor que os dois pontos. Poem-se, quando a orasam ja faz algum sentido; mas nam o que basta para se-intender, de que se-fala: e ainda a primeira propozisam, espera pola segunda, para se-poder intender. v. g. Aindaque eu nam tenha, todo o dinheiro necesario, para a compra; farei o posivel, polo alcansar: para concluir de uma vez, este negocio. No-qual periodo, quando chegamos à palavra, compra; ja temos algum sentido: e quer dizer, que nam tem dinheiro para a compra. mas fica o sentido imperfeito, por-cauza da-palavra ainda: a qual faz que eu espere, pola seguinte propozisam até alcansar, onde faz suficiente sentido.
Daqui fica claro, que ponto e virgula tem o seu proprio lugar, despois das-prepozisoens, que comesam por-como, qual, quanto, se, aindaque &c. as quais introduzem aquela dependencia, que digo. Finalmente despois de qualquer prepozisam, em que aja palavras, que unam com as palavras seguintes. Especialmente se-poem, quando se-fala de coizas opostas: ou quando se-faz enumerasam de muitas partes, e se-especificam todas. v. g. Destruia cazas, e templos; o sagrado, e profano; o seu, e o alheio, &c. Adverte-se porem, que os periodos, os quais, sendo longos, podem receber ponto e virgula; em cazo que sejam curtos, basta que tenham virgula: por-nam fazer tam enfadonha a repetisam dos-pontos e virgulas. v. g. Neste particular à duas opinioens: uma é de Cujacio; a outra seguem Joam André, e Ostiense. parecerá a muitos, que em Cujacio, basta uma virgula, o que eu nam dezaprovo: outros quererám ponto e virgula. e asim é livre a cada um, fazer o que lhe-agradar. Polo contrario, se os periodos fosem mui compridos, se-deveria pòr ponto. v. g. se eu disese: Prova-se isto com duas razoens. A primeira é, porque &c. neste cazo se a explicasam desta primeira razam, se-estendèse até metade da-folha, ou ainda mais; no-fim, deve-se pòr ponto somente: e muitas vezes pode ser necesario, comesar a segunda razam, nam só com letra grande, mas ainda em novo paragrafo. Tambem quando se-tem posto algumas vezes, ponto e virgula; costumam os omens doutos, escrever dois pontos; aindaque o sentido nam seja completo quanto ao fato: para mostrar, que se-deve fazer maior interrusam; e descansar quem le, e quem ouve.
Isto é, o que me-ocorre advertir, neste particular da-pontuasam. Devo porem declarar a V. P. que esta materia, nam é ponto matematico, que nam admite mais, ou menos: antes, polo contrario, depende muito, da-vontade de quem escreve. Porque aindaque todos convenham, na-razam das-regras; quando porem decemos aos cazos particulares, e a examinar, se neste, ou naquele cazo, deve entrar virgula, ou ponto e virgula &c. acha-se muitas vezes diversidade, ainda entre os omens doutos. Eu neste particular, propuz o que vejo praticar, aos que melhor escrevem; e que se estriba, na razam das-regras: mas nam condenarei, quem se-afastar alguma vez destas advertencias, comtantoque nam se-desvie em modo, que fasa despropozitos. Eu mesmo sou o primeiro, que as-nam-sigo escrupulozamente: antes muitas vezes, em lugar de ponto e virgula, escrevo virgula: em vez de dois pontos, ponho virgula e ponto: e quando os periodos sam curtos, nam tenho às vezes dificuldade, de escrever virgula, em lugar de ponto: ou outra semelhante mudansa. O que faso quando me-parece, que com estes sinais, fica bastantemente separado o discurso, e livre de confuzam: e porque vejo, que muitos escrevem damesma sorte, e me-intenderám tambem. Esta é a principal regra, em materia de pontuasam: evitar as confuzoens, e procurar que os outros intendam, tudo quanto eu quero dizer. Devo porem dizer a V. P. que vejo muitos autores Portuguezes bem modernos, que fazem gala, de as-desprezar: e publicam obras, nas quais em uma pagina tudo sam virgulas, e apenas se-acha um ponto. Especialmente * * * e outros que V. P. bem conhece. O Conde da-Ericeira D. Francisco Xavier de Menezes tambem seguia esta doutrina: pois em algumas suas aprovasoens de livros, que tenho visto, tudo sam virgulas: desorteque ninguem o-pode ler seguidamente, porque cansa a respirasam. E se isto pode ser louvavel, eu o-deixo julgar aos dezapaixonados inteligentes.
Muitas outras miudezas, se-podiam advertir, tanto na materia de Pontuasam, como de Ortografia: mas estas ou se-acham, nas instrusoens impresas a este intento; ou, se nam se-acham, como na verdade as-nam-vemos; aprendem-se com o uzo: e quem percebe bem, as advertencias que temos dado, escreverá sem embaraso algum com perfeisam: e poderá rezolver, qualquer das-que ocorrerem. Eu nam determinei, escrever um tratado completo: mas unicamente, sugerir a V. P. o que se-acha mais bem notado, nesta materia: e o que deve ensinar um mestre, ao dicipulo, a quem explica a lingua Portugueza. Para V. P. é isto superfluo: e para os ignorantes, é ainda muito. mas eu tomo a liberdade de falar com V. P. como com um principiante, porque asim mo-tem ordenado. Somente acrecento, que isto que dise da-Pontuasam, se-deve intender, nam só no-Portuguez, mas no-Latim; e nas-mais linguas, que desta nacèram.
Concluirei esta carta lembrando a V. P., que, para facilitar este estudo à Mocidade, seria necesario, que algum omem douto, abreviáse o Dicionario do-P. Bluteau, e o-reduzise à grandeza, de um tomo em folha, ou dois em 4.o Ninguem pode olhar para a obra do-P. Bluteau, sem ficar esmurecido, pola quantitade de volumes. Este Religiozo era douto, e infatigavel: e fez à nasam Portugueza um grande serviso; compondo um Dicionario, que ela nam tinha: e quem diser mal dele neste particular, é invejozo, ou ignorante. Mas tem alguns defeitos, que serîa necesario emendar: Era mui medrozo: e nam tinha metodo. O medo, reconhece-se em cada pagina das-suas obras. Fora maltratado por-alguns Portuguezes injustamente; e a cada paso se-queixa, e dá uma satisfasam. Os Prologos, tanto na primeira Obra, como no-Suplemento, sam insoportaveis: e apostarei, que se-nam-acha omem, de tanta paciencia, e tam mao gosto, que os-posa ler todos seguidamente: porque a cada momento, repete as mesmas coizas. E o pior é, que com dizer tanto, nam explica o que deve: pois querendo um leitor saber, o que ele faz no-Dicionario, e que razam dá da-obra; nam sabe por-onde á-de comesar. Com um só titulo dirigido ao leitor * * * compreendia todos, os que ele poem no-seu Prologo: e com um Prologo mui breve, dava razam de toda a obra. Os omens doutos, intendem mui bem as coizas: e sabem desculpar um autor, que escreve uma voluminoza obra: especialmente um que escreva um Dicionario, que seja o primeiro que aparece naquela lingua. Nam á pior trabalho que este: e nam á algum que menos paresa grande, a quem o-nam-provou, doque este. Desorteque chegou a dizer o douto Escaligero[13], que era pior este trabalho, que ser condenado às minas, como faziam os Romanos. Comque a estes, bastam poucas palavras: a os ignorantes, nam se-devem dar satisfasoens, ou digam bem, ou mal. Nem menos me-agrada o titulo da-obra, que é mui afetado, e cheio de superfluidades. Ja se-sabe que um Dicionario, compreende todas as palavras, com que se-explicam na dita lingua, todas as coizas imaginaveis. E o exemplo que ele traz de Furetiere, Moreri, Hofman, que enchèram o titulo, de semelhantes coizas, nam desculpa os seus erros: porque se-caza muito bem, que errem dois omens de diferentes Nasoens, na mesma materia.
Avulta tambem muito a obra, porque as explicasoens sam longas, e o carater é mui grande. O que tudo se-podia reduzir, a menor extensam: bastando um exemplo de um bom autor, e deitando fora tantos Latins, e citasoens superfluas. E asim, todo aquele grande Vocabulario, se-pode reduzir nas segundas-impresoens, a trez ou quatro volumes, se lhe-tirasem o que tem de superfluo: e serîa tambem mais barato, e mais util à Republica. Mas, ainda despois de tudo iso, serîa necesario, fazer um Compendio, para uzo dos-rapazes. Que é o que os Nosos tem feito, compendiando o Vocabulario da-Crusca, quero dizer, da-lingua Toscana, (sam trez ou quatro volumes) em dois tomos de 4o. Mas neste Dicionario, se-deveria acautelar outra coiza, em que caio o P. Bluteau; que foi, nam distinguir as palavras boas, de algumas plebeias, e antigas. Ele ajuntou tudo: e ainda muitas palavras Latinas, que muitos Portuguezes modernos afetadamente aportuguezáram. E este é o maior defeito que eu acho, naquele Dicionario. porque nam ensina a falar bem Portuguez; como o da-nosa Crusca, que nam tem, senam o que é puro Toscano; e nota às vezes o que é antigo, ou poetico &c. Sei, que alguma diversidade se-acha: porque os nosos autores, que fazem texto, sam os que escrevèram, em um seculo determinado: e asim tudo o que é moderno, entre nós é barbaro. Polo contrario a lingua Portugueza, como á pouco tempo que comesou a aperfeisoar-se, nam pode excluir, tudo o que é moderno. Contudo, deveria o P. Bluteau, nam abrasar senam os autores, que faláram melhor. v. g. desde o fim do-seculo pasado para cá: ou encurtar mais o tempo. E ainda neses, que talvez nam seram iguais em tudo, escolher, o que é mais racionavel: e nam tudo o que aportuguezáram alguns destes, prezados de eruditos; que, por-forsa, querem introduzir, uma mixtura de Portuguez, com Latim. Temos o exemplo da-Academia Franceza, a qual no-seu Dicionario, nam poz as vozes plebeias, e antigas; mas as puras, e que oje falam os omens cultos. Aindaque, como diz o Senhor de Furetiere,[14] é justo, que se fasa um Dicionario à parte, das-vozes antigas, e baixas: paraque, por-meio dele, posamos intender, os antigos documentos. Isto fizeram muitos na lingua Latina, compondo somente Vocabularios da-inferior Latinidade, como Vossio, Izidoro, Spelman, Du Cange: o qual ultimo fez tambem outro, para o Grego inferior. E isto mesmo deveria ter feito Bluteau: pondo em um volume, as palavras boas; no-outro, as antigas &c. O certo é, que os Nosos no-Compendio da-Crusca, somente puzeram as puras: e advertîram as que sam poeticas, e nam tem lugar na proza. O mesmo Bluteau em certa parte[15], reconhece a necesidade deste distinto livro; e deu uma ideia dele, nos-Catalogos que traz, no-Suplemento. Mas se o dito P. o-nam-fez, porque quiz compreender, tudo o que se-acha em Portuguez, ou por-outro motivo; no-Compendio porem do-dito Dicionario, nam se-deviam escrever, senam palavras puras e boas, e segundo a pronuncia mais suave. E.g. nam escrever Devaçam, porque o dise o Vieira: mostrando a analogia, que se-deve dizer Devosam: muito mais, porque asim o-pronunciam os doutos, e é mais agradavel. O mesmo digo, de Outo &c. porque escrevendo muitos omens doutos comumente, Oitenta; nam acho que tenham boa disparidade, para, no-mesmo livro, escreverem, Outo: como V. P. verá em muitos livros modernos. E asim a pronuncia melhor, sendo apadrinhada por-omens doutos, deve ser preferida. Tambem se-devia no-dito cazo, emendar a Ortografia do-Bluteau, que é variante: e establecer uma certa, e sempre a melhor. Este Compendio seria mui necesario. os que quizesem majores noticias, podiam procurálas no-Vocabulario grande. Isto é o que me-ocorre. V. P. conserve-me a sua benevolencia, e rogue a Deus por-mim nos-seus sacrificios. Deus Guarde &c.
NOTAS DE RODAPÉ:
[3] Sueton. de Cl. Rhet. C. I.
[4] Auditis oratoribus Græcis, cognitisque eorum litteris, adhibitisque doctoribus, incredibili quodam nostri homines dicendi studio flagraverunt. Cicero l. I. de Orat. num. XIV.
[5] A. Gel. l. I. c. x.
[6] O Bluteau no-Prologo do-Suplemento, falando com o leitor Pseudo-critico, confesa, que muitos omens doutos, nam dobram as letras no-Portuguez: aindaque condena, que muitos nam observem, a analogia e derivasam do-Latim, e Grego. que é a costumada cantilena dos-Velhos. Reconhece porem, que seria necesario, reformar a Ortografia Portugueza. Mas, conhecendo isto, adotou no-seu Dicionario, todas as variasoens de Ortografia dos-autores; como confesa no-Prologo do-Suplemento. O que nam tem desculpa em um omem, que estudou trinta anos, o argumento do-seu livro.
[7] S. Aug. l. I. confess. C. XVIII. Catullus Carm. 85.
[8] No livro, Orator ad. M. Brutum.
[9] Na 6. conferencia literaria aos 18 de Maio de &c. em caza do-Conde da-Ericeira.
[10] Impetratum est a consuetudine, ut peccare suavitatis caussa liceret. & pomeridianas quadrigas, quam postmeridianas, libentius dixerim: & mehercule, quam mehercules. Non scire quidem, barbarum jam videtur: nescire dulcius. Ipsum meridiem cur non medidiem? Credo, quod erat insuavius. Cicero. Orator. ad M. B. num. 47. Et infra == Consule veritatem, reprehendet: refer ad aures, probabunt. quære, cur? ita se dicent juvari. voluptati autem aurium morigerari debet oratio.
[11] Quintil. l. I.c.I. Varro de lingua L. l.6. & alii.
[12] Marius Victorinus Aff. de Ortographia.
Si quem dira manet sententia Judicis olim
Damnatum aerumnis, suppliciisque caput:
Hunc neque fabrili lassent ergastula massa,
Nec rigidas vexent fossa metalla manus.
Lexica contexat, nam cetera quid morer? omnes
Pœnarum facies hic labor unus habet. Sylvarum Carm. 39.
[14] Pref. du Dicionaire Universel.
[15] Prozas Academic. fol. 26.
CARTA SEGUNDA.
SUMARIO.
Danos que resultam da-Gramatica Latina, que comumente se-ensina. Motivos porque nas-escolas de Portugal, nam se-melhora de metodo. Nova ideia de uma Gramatica Latina facilisima, com que, em um ano, se-pode aprender fundamentalmente Gramatica &c.
Despois do-estudo da-Gramatica Vulgar, segue-se o da-Latina. e desta direi a V.P. o meu parecer, na prezente carta. Quando entrei neste Reino, e vi a quantidade de Cartapacios, e Artes, que eram necesarias, para estudar somente a Gramatica; fiquei pasmado. Falando com V. P. algumas vezes, me-lembro, que lhe-toquei este ponto: e que nam lhe dezagradáram as minhas reflexoens, sobre esta materia. Sei, que em outras partes, onde se-explica a Gramatica de Manoel Alvares, tambem lhe-acrecentam algum livrinho: mas tantos como em Portugal, nunca vi. As declinasoens dos-Nomes, e Verbos estudam, pola Gramatica Latina. a esta se-segue um Cartapacio Portuguez, de Rudimentos. despois outro, para Generos, e Preteritos, muito bem comprido. a este um de Sintaxe, bem grande. despois um livro, a que chamam Chorro: e outro, a que chamam Promtuario: polo qual se-aprendem os escolios de Nomes e Verbos. e nam sei que mais livro á. E parece-lhe a V. P. pouca materia de admirasam, quando tudo aquilo se-pode compreender, em um livrinho em 12.o e nam mui grande? Despois diso ouvi dizer, que ocupavam seis, e sete anos estudando Gramatica: e que a maior parte destes dicipulos, despois de todo ese tempo, nam era capaz de explicar por-si só, as mais facis cartas de Cicero. Confeso a V. P. que nam intendi isto, nem donde proviese o dano. Alguns sugeitos, bem inteligentes de politica, me-deram algumas razoens, que nam pareciam inverosimeis. Mas eu, sem aprovar, ou reprovar alguma delas, e tambem sem me-demorar com esta materia; discorrerei sobre o merecimento da-Gramatica Latina; e sobre o modo, com que se-deve aprender.
Ora convem todos os omens de bom juizo, e que tem visto paizes Estrangeiros, e lido sobre isto alguma coiza; convem, digo, que qualquer Gramatica de uma lingua, que nam é nacional, se-deve explicar na lingua, que um omem sabe. Se V.P. quizese aprender Grego, e para este efeito lhe-desem uma Gramatica toda Grega, e um mestre que somente faláse Grego; poderia, à forsa de acenos, vir a intender alguma palavra; mas nam serîa posivel, que aprendese Grego: o mesmo sucederia, em qualquer outra lingua estrangeira. e se algum ateimase, que somente daquela sorte, se-podia aprender Grego, diriamos, que era louco. Pois suponha V.P. que estamos no-cazo. É coiza digna de admirasam, que muitos omens deste Reino, queiram aprender Francez, Tudesco, Italiano, de uma sorte, e o Latim de outra muito diferente. Aprendem aquelas linguas com um mestre, que as-fala ambas, e explica a lingua incognita, por-meio daquela que eles conhecem e falam: e com uma só Gramatica se-poem em estado, de intenderem os autores bem, e, junto com o exercicio, de falarem Francez correntemente. E tomára que me-disesem, porque nam se-deve praticar o mesmo, no-Latim: e porque razam se-aja de carregar, a memoria dos-pobres estudantes, com uma infinidade de versos Latinos, e outras coizas, que nam servem para nada neste mundo? Chega este prejuizo a tal extremo, que o P. Bento Pereira, escreveo uma Ortografia Portugueza, em Latim. Desorteque quem nam intende Latim, segundo o dito P., nam pode escrever corretamente Portuguez.
Os defensores deste metodo, nam alegam outra razam mais, que serem os versos, mais facis de se-conservarem na memoria: e que em todo o tempo, a eles se-pode recorrer, para ter prezentes as regras. Mas esta razam, é pueril, e ridicula. Primeiramente se alguma coiza valèse, deveria praticar-se com versos Portuguezes: porque só eses intendem os estudantes. E qual é o estudante que intende, os versos Latinos das-regras, principalmente sendo tam embrulhados, como os do-P. Manoel Alvares? O certo é, que proguntando eu a alguns rapazes, a explicasam deles, nenhum ma-soube dar. E eisaqui temos, que para os rapazes, nam servem os tais versos. Se pois falamos dos-omens adiantados, estes sabem Latim, polo exercicio de ler, escrever, e falar: comque nam tem necesidade, de recorrer a semelhantes regras. E se querem examinar, alguma dificuldade de Gramatica, vam consultar os Criticos, que as explicam: nam as simplezes Gramaticas, que nem menos as-tocam: e talvez establecem principios, contrarios à mesma solusam.
Finalmente a Gramatica Latina para os Portuguezes, deve ser em Portuguez. E isto parece quiz dizer o P. Manoel Alvares, na advertencia que faz aos mestres, no-fim das-declinasoens dos-Verbos[16]. aindaque ele praticase o contrario, do-que aconselha: pois deveria, nam ter dado o exemplo, introduzindo uma Gramatica puramente Latina. A outra coiza que se-deve reprovar é, que obriguem os rapazes, a aprender trez sortes de regras: em verso, em proza Latina, e em proza Vulgar: como adverte bem o dito Padre. Isto, quando nam lhe-queiramos dar outro nome, é perder tempo, sem utilidade, e com prejuizo grande: sem aver outra razam, que seguir um costume envelhecido, aindaque prejudicial. Mas o que mais me-admirou neste particular, e claramente me-mostrou, quanto pode nos-Omens a preoccupasam dos-primeiros estudos, foi, ver que o Sargentomór Manoel Coelho, que parecia ser mais alumiado nestas materias, pertendendo distinguir-se do-Comum, dando aos principiantes, uma facil explicasam das-oito partes da-orasam; ainda asim caie na simplicidade, de pòr primeiro a regra em Latim para um rapaz, que ainda nam tem noticia da-dita lingua; mas que aprende os primeiros elementos. Tal é a forsa de um mao costume, que cega ainda aqueles, que querem dezembrulhar-se dele! Esta reflexam é sustancial: mas ainda á outras de maior momento. Entremos bem dentro na Gramatica.
Toda a Gramatica Latina se-reduz a explicar, a natureza, e acidentes das-oito vozes, que podem entrar na orasam ou discurso: e o modo de as-unir, e compor os periodos. E isto deve-se fazer com a maior clareza, e mais breves regras, que se puderem excogitar. O que certamente nam se-consegue com a Gramatica uzual: porque nam á coiza mais confuza, nem mais cheia de excesoens, que a dita Gramatica, como todos vem.
O mundo estava mui falto de noticias, e de metodo, antes do-seculo pasado. Desde o restablecimento das-letras Umanas na Europa, direi melhor, no-Ocidente, que podemos fixar nos-principios do-seculo XV. melhor direi, desde a invensam da-Imprensa no-meio do-dito seculo; até o fim do-XVI. nam tiveram os omens tempo de cuidar, em dar metodo proprio às Letras, e Ciencias. Nam fizeram pouco aqueles primeiros doutos, em procurar manuscritos, e impremir os antigos autores, mais corretamente que pudese ser. Achamos alguns, no-fim do-XV. e no-XVI. seculo, que foram letrados à forsa de estudo, mas nam de metodo. Temos tambem alguns omens, que souberam bem Latim nese seculo, porque liam muito polos bons autores: nam porque tivesem achado a chave, de ir para diante com facilidade, e explanar as dificuldades de Gramatica, aos estudantes. Finalmente esa gloria estava rezervada, para o seculo XVII. Os pasados seguiam uns a outros, sem mais eleisam, que o costume. viam, e estudavam com os olhos, e juizo alheio. Mas no-principio do-seculo XVII. aparecèram alguns, que quizeram servir-se do-proprio: e foi-lhes facil, conhecer os erros dos-antecedentes, porque eram grandes. Asim se-abrîram os olhos ao mundo, em todo o sentido. um conhecimento facilitou outro. e eisaqui aberta a porta ao metodo. De-me V. P. omens, que queiram examinar as materias com razam; que nam inculquem um autor, porque seus mestres lho-diseram, mas porque é digno de seguir-se; que eu lhe-prometo, adiantamento nas Ciencias todas. A seu tempo discorrerei das-outras: agora continuemos com a Gramatica.
Tinha no-tempo do-Concilio de Trento o douto Julio Cezar Escaligero, comesado a examinar a Latinidade, seguindo o exemplo, e lumes do-famozo Agostinho Saturnio; o qual tinha ja notado varios erros, nos-outros Gramaticos. Escaligero, dando um paso adiante, publicou um livro, com o titulo = De Caussis Linguæ Latinæ: em que doutisimamente expoem o seu sentimento, sobre os elementos da-Gramatica: mas nam toca a construisam das-Partes. A leitura deste livro, abrio os olhos a Francisco Sanches, que era um profesor celebre de letras Umanas, na Universidade de Salamanca. Este douto empreendeu no-seguinte seculo, com o mesmo titulo, a explicasam da-construisam das-partes daorasam: e com tanta felicidade, que descobrio as verdadeiras cauzas, até àquele tempo ignoradas. Este livro incontrou em Salamanca, e trouxe para Roma,[17] nos-principios do-seculo pasado, o famozo Gaspar Scioppio, Conde de Claravale, de nasam Tudesca: aquele grande omem em letras Sagradas e Profanas; e que empregou toda a sua vida, em estudos gramaticos. O livro de Sanchez fez todo o efeito, que podia esperar-se. Scioppio (que nam costumava dizer bem, daquilo que o-nam-merecia; antes, polos seus inimigos, é tachado, como censor dezumano) cedendo à evidencia das-razoens, proseguio o mesmo metodo de Sanches: ilustrou, e reformou a sua doutrina: e compoz a primeira Gramatica, que apareceo segundo os tais principios. No-mesmo tempo o famozo Gerardo Joam Vossio em Olanda, tam benemerito das-letras Umanas, e Sagradas, explicou ainda melhor o dito metodo; seguindo em tudo Sanches, e Scioppio; os quais ou copeia, ou ilustra.
Esta é, e será sempre, a Epoca famoza da-Latinidade, e Gramatica. A estes trez grandes omens, seguîram em tudo e por-tudo os melhores Gramaticos, que despois ouveram: e devem seguir, os que tem juizo para conhecer, como se deve estudar a Latinidade. Por-Fransa, Alemanha, Olanda, Italia, e outras partes se-dilatou este metodo: e alguns escrevèram belisimas Gramaticas, segundo os tais principios. A razam porque nam se-propagou mais é, porque pola maior parte os estudos da-Mocidade, sam dirigidos por-alguns Religiozos, que seguem outras opinioens. Os doutisimos Jezuitas, ensinam grande parte da-Mocidade, em varias partes da-Europa: e nam querendo apartar-se, do-seu Manoel Alvares, rejeitáram todas as novas Gramaticas. Alguns destes Religiozos, que trato familiarmente, e estimo muito pola sua doutrina, e piedade; me-diseram claramente, que bem viam, que o Alvares era confuzo, e difuzo; e que as outras eram melhores: nem se-podia negar, que os principios de Scioppio fosem claros, e certos: mas que o P. Geral nam queria, se-apartasem do-P. Alvares, por-ser Religiozo da-Companhia. Este é o motivo, porque o P. Alvares se-conservou, nas escolas dos-tais Religiozos: e esta tambem a origem da-tenacidade, comque muitos seguem, aquilo mesmo que condenam.
Os outros Religiozos, aindaque nam sejam Jezuitas, tem as mesmas obrigasoens, e opinioens. A maior parte, cuida pouco niso: e vam vivendo, como seus mestres lhe-ensináram. Nam tem noticia dos-melhores autores, que á na materia: cuidam, que no-mundo nam á outra Gramatica, fóra que a do-P. Alvares. E todos estes, contentando-se de intender, um pouco de Latim bom, ou mao, nam cuidam em saber Gramatica. Os mestres Seculares, pola maior parte, sam ignorantisimos, e puros pedantes. e desta sorte de gente nunca esperou aumento, a republica Literaria. É necesario porem confesar, que fóra de Portugal, aindaque perzistam algumas destas razoens, muitisimos Religiozos, e Seculares ensinam, segundo os verdadeiros principios. Comque, considerado bem tudo isto, nam tem que se-maravilhar V. P. de que um metodo, que louvam tanto os omens doutos, tenha tido tam mao recebimento, em varias partes. Mas estas Gramaticas que tem saido, aindaque sigam os mesmos principios, nem todas se explicam com igual clareza. Eu direi o que achei nas melhores, e o como se-pode ordenar uma Gramatica, util para a Mocidade.
A Gramatica deve-se dividir, em dois volumes. No-primeiro, devem-se tratar aquelas coizas, que indispensavelmente devem estudar os principiantes. no-segundo, aquelas reflexoens, que sam mais proprias para os adiantados, e para os mestres: como sam as dificuldades de Gramatica, e as razoens daquelas regras, que parecem menos comuas. Explico agora a primeira parte. Esta primeira parte (podemos-lhe chamar pura Gramatica: porque a segunda, sam comentos sobre ela) divide-se naturalmente, em quatro partes: Etimologia, Sintaxe, Ortografia, e Prozodia. a primeira trata das-Vozes: a segunda da-Uniam delas: a terceira das-Letras: a quarta da-Quantidade das-silabas.
ETIMOLOGIA.
Na primeira parte, trata-se da-origem e diferensa das-vozes Latinas, que podem entrar na orasam, por-sua ordem. Primeiro, explica-se o Nome, e suas especies. O Nome, tem trez acidentes, que sam, Genero, Cazo, Terminasam. Os Generos, que tanta bulha fazem nas escolas, explicam-se com toda a brevidade. á regras gerais da-significasam, e particulares da-terminasam. Na primeira regra, poem-se todos os que pertencem ao Masculino. v.g. Sam do-Masculino, os nomes de Omens &c. 2. Sam do-Feminino, os nomes de Molheres, Naos &c. 3. Sam do-Neutro, os nomes de Letras, Frutas &c. Tambem as particulares, se-reduzem a trez. v. g. Sam do-Masculino os nomes em O, como Sermo: em il, como Mugil &c. Acabado isto, poem-se um escolio que diga: Nomes que sam do-Masculino, por-excesam das-outras regras. v.g. Cometa, Adria, Harpago, Splen &c. O mesmo metodo se-pode praticar no-Feminino, e Neutro. E com seis regras, se-explicam todos os Generos: e se-acaba esta grande barafunda de Cartapacios. Se pois o estudante quizer saber a razam, porque alguns nomes, que pareciam de um genero, se-atribuem a outro; pode ir ver, a segunda parte da-Gramatica.
Segue-se explicar, quantos Cazos tem o Nome. e em 3.o lugar a Declinasam: mostrando quantas á: e em cada uma delas, quais sam a Latinas, quais as Gregas. Tudo isto se-pode dizer, com muita clareza e brevidade; bastando alegar um exemplo, em cada especie de terminasoens, que podem entrar em cada declinasam. Com este metodo, em uma vista de olhos, percebe o estudante os nomes, que pertencem a cada declinasam. Despois, podem-se explicar os Nomes Compostos, os Anomalos de genero, de numero, de cazo, e de declinasam. A segunda especie de Nome, é o Adjetivo. E aqui tem lugar explicar, as diversas especies de Adjetivos: Pozitivos, Comparativos &c. as suas declinasoens, e anomalîas.
O Pronome, tem seu lugar despois do-Nome: porque tambem é, uma especie de Adjetivo. Onde deve explicar-se logo, a sua diversidade: e as declinasoens dos-Simplezes, e Compostos.
O Verbo, é a mais dificultoza parte, nas Gramaticas vulgares: e por-iso pede grande atensam. Explicadas as divizoens dos-Verbos; e apontado, que á quatro Declinasoens ou Conjugasoens: segue-se logo, explicar os Preteritos. v. g. A primeira, tem no-infinito a longo antes de re: no-Preterito faz, avi: no-Supino atum: ut amo, amavi, amatum, amâre. Tiram-se os Verbos em bo, ut Cubo: em co, ut Mico &c. E isto se-observará em todas as Conjugasoens. Desta sorte conclue-se em poucas palavras, toda aquela grande arenga de Preteritos, que nam tem fim nas escolas de Portugal. Se pois o estudante nam quer aprender, toda aquela enfiada de Verbos, nam emporta: basta que aprenda um exemplo, e saiba buscar os outros: porque a pratica ensina o demais.
Seguem-se as Declinasoens dos-Verbos, a que vulgarmente chamam, Linguagens. E aqui achamos bastantes erros, nas Gramaticas comuas, e tambem confuzoens: porque mandam aprender aos rapazes, coizas totalmente superfluas; e nam explicam as necesarias. Quanto ao Indicativo, concordamos com Manoel Alvares: só dizemos, que aquele Preterito plus quam perfeito, é uma arenga, que nenhum estudante intende; nem os mestres explicam. Deve-se explicar asim: Amavi, é Preterito perfeito proximo; que afirma uma coiza, simplezmente pasada: Amaveram, é Preterito perfeito remoto, que nam só se-intende de uma coiza pasada; mas que ja era pasada, antes de outra, de que eu falo como pasada. Dizemos mais, que aquele Futuro perfeito, nam o-á no mundo: pois esta voz, é o mesmo Futuro segundo, que ele poem no-Conjuntivo.
Alem dos-primeiros tempos do-Indicativo, tem o Verbo, segundo Prezente, que é Amem: segundo Imperfeito, que é Amarem: segundo Perfeito, que é Amaverim: segundo Preterito remoto, que é Amavissem: segundo Futuro, que é Amavero. Mas isto pode-se explicar em Portuguez, com diversas palavras. A estas segundas vozes, ou segundo modo, podemos chamar Conjuntivo: porque pola maior parte, une-se com outras partes. Daqui vem, que é erro, pòr nas Gramaticas: Modo Optativo, Conjuntivo, Potencial, Permisivo: porque por-este estilo, podem-se acrecentar muitos outros Modos: sendo certo, que, ajuntando-lhe novas particulas, nacem diferentes modos de se-explicar. Basta advertir ao estudante, que aquele Amem, pode-se tomar, em diversos sentidos: o que se-conhece, polo contexto da-orasam. tudo o mais é tempo perdido, e é ensinar uma falsidade: pois nam á tais modos separados: sendo que a linguagem, ou a voz sempre é a mesma. Amem, quando significa posibilidade, e quando significa permisam, nam se-distingue mais, que polo contexto. E isto bastava que brevemente se-advertise, apontando um exemplo: porque o mais ensina a lisam, e reflexam sobre os bons autores.
O terceiro Modo é o Imperativo: a que podemos chamar, por-distinsam, Prezente terceiro: Ama. Futuro terceiro: Amato.
O Infinito, é aquele; a que verdadeiramente devemos chamar, Impesoal: pois nam tem determinado numero, ou pesoa, ou tempo &c. Este tem uma voz: a que, aindaque impropriamente, podemos chamar, Prezente, e Imperfeito: que é Amare. a qual tem todas as significasoens do-Prezente, e Imperfeito primeiros. Para os outros Preteritos serve, Amavisse. Tem Futuro, que é Amaturum esse: e outro Futuro remoto, que é Amaturum fuisse. Gerundios, Supinos, e Participios. Isto posto, deve-se explicar, como se-formam os tempos. E nisto se-compreende, a primeira parte das-Linguagens.
Seguem-se os Verbos Anomalos, quero dizer, os que nam tem analogia, com as quatro Conjugasoens: sam Volo, Nolo, Malo, Fero, Eo, Edo, Fio, Memini &c. Aio, Inquam, Forem. E nisto se-encerra tudo, o que se-diz do-Verbo.
Os Gramaticos fazem aqui uma barafunda de explicasoens, e divizoens, em Neutros, Comuns, Depoentes, Diminutivos, Frequentativos, Denominativos, Imitativos &c. mas tudo isto é superfluo. Todos os Verbos, tirando dois, sam Ativos, ou Pasivos: porque ou significam asám, ou paixam: e a estas especies se-reduzem os apontados. Basta advertir, o que significam estas palavras, e a que conjugasam pertencem os ditos verbos: apontando um exemplo de cada um. o que porem melhor se-faz, no-exercicio da-leitura, e tradusam.
Ao Verbo, segue-se o Participio: que aqui se-deve explicar com as suas divizoens. notando quais sam os Verbos que os-tem: quais os em que faltam: quais deles formam Comparativos, e Superlativos.
No-Adverbio, deve-se explicar e apontar, os que sam de proguntar, os que significam tempo, lugar; e outras diferentes especies deles. Despois, a Prepozisam: mostrando as que sam separaveis, e as que se-nam-separam. Como tambem advertir, que coiza acrecentam ao Nome, e Verbo, estas Prepozisoens. Sobre a Interjeisam, deve mostrar, quais sam as que significam, os diferentes afetos do-animo, para o estudante poder servir-se na ocaziam. A Conjunsam, tambem tem suas especies: que sam Conjuntiva, e Disjuntiva, Condicional, Concesiva &c. e estas todas devemos apontar: alegando exemplos em cada uma.
Despois da-Etimologia das-vozes, tem lugar explicar o Metaplasmo: que vale o mesmo que dizer, certas figuras, polas quais se-acrecentam, ou diminuem as letras das-disoens: v. g. Gnavus pro Navus &c. Noticia é esta sumamente util para intender, as diferentes vozes Latinas. E nisto se-compreende, tudo o que deve saber-se sobre a Etimologia, com a maior clareza, e brevidade imaginavel.
SINTAXE.
Despois, segue-se a Sintaxe. E a qui é maior a dificuldade: porque se a Etimologia, nas Gramaticas ordinarias, é confuza; a Sintaxe delas é a mesma confuzam. é necesario variar muito do-comum, para ensinar verdadeira Sintaxe. Nam tenho tempo para provar o que digo: mas seguro a V. P. que o que escrevo, é ja provado evidentemente, polos autores que aponto, e outros que os-comentáram: e que, se a necesidade o pedise, com pouco trabalho mostraria tudo: porque tenho visto o que basta. E asim apontarei somente, as rezolusoens.
A Sintaxe ensina a unir as vozes, para fazer a orasam: e, por-meio desta, formar um bem regulado discurso. A construisam ou uniam ou é Regular, que segue as regras da-Arte: ou Figurada, que se-desvia delas, mas funda-se na autoridade dos-bons escritores. A construisam Regular funda-se na Concordancia, ou na Regencia. Chamo Concordancia, quando as partes concordam, em alguma coiza comua. v.g. o Sustantivo concorda com outro Sustantivo em cazo, que é comum a ambos. Nas Concordancias achamos alguns erros comuns, que em breve apontaremos.
Nam se-devem admetir mais concordancias, (nam falo daquela entre dois Sustantivos) que de Sustantivo com Adjetivo: Verbo com o Nome. O Adjetivo concorda com o Sustantivo em numero, e cazo, que sam comuns a ambos: nam em genero, porque o Adjetivo nam tem genero, mas somente o Sustantivo: poem-se porem o Adjetivo em uma terminasam, conrespondente ao genero do-Sustantivo. Alem disto o Adjetivo, nam concorda com o Sustantivo proprio, v.g. Petrus: mas com o Sustantivo comum, v.g. Homo: e vale o mesmo dizer: Petrus est bonus: que se disese-mos: Petrus est homo bonus: vel artifex, vel magister bonus &c. Quando nam á nome comum, recorre-se aos nomes, Res, Factum, Opus, Negotium, e outros semelhantes, que antigamente tinham, significasam mais extensa, que a que oje lhe-dam. Damesma sorte quando Ovidio dise: Nox, & Amor, & Vinum nil moderabile suadent; deve-se intender asim: non suadent factum, vel opus, vel negotium moderabile. Virgilio umas vezes dise: Præneste altum: intendendo Oppidum. outras vezes: Præneste sub ipsa: intendendo sub ipsa Civitate. podia tambem dizer: Præneste altus: intendendo Locus. Terencio dise: Eunuchum suam; intendendo Comoediam, ou Fabulam; porque Eunuchus é masculino. Deixo outros exemplos, com que se-mostra, que a concordancia sempre é com o Sustantivo comum.
Á infinitos exemplos que provam, que o Relativo concorda com o susequente expreso, ou supreso, em numero, cazo, e terminasam conrespondente ao genero: damesma sorte que outro Adjetivo. Temos exemplo bem claro em Cicero, do-expreso: Ego tibi illam Aciliam legem restituo, qua lege simul accusasti[18]: e em outra parte[19]: Sequitur enim caput, quo capite non permisit. Cezar abunda muito destes modos de falar, porque afetava clareza. Acham-se exemplos do-supreso: Populo ut placerent, quas fecisset fabulas[20]: i. e. Populo ut placerent fabulæ, quas fabulas fecisset. Do-que fica claro, que o Relativo concorda, em genero, numero, e cazo, como dizem comumente, com o seu susequente; que é o mesmo antecedente-repetido. Isto basta por-agora.
A segunda concordancia, é do-Verbo com o Nome: os quais concordam em numero, que é comum a ambos: nam em pesoa, porque esta é somente do-Verbo: mas poem-se o Verbo em uma terminasam, conrespondente à pesoa, que o Nome significa. Devem-se porem advertir algumas coizas. I. A primeira, e segunda pesoa do-Verbo, raras vezes se-construe com o Nome expreso, senam por-distinsam, ou emfaze. II. A terceira pesoa do-Verbo, construe-se tambem com um Verbo infinito. v.g. Scire tuum nihil est: pro, scientia tua. Tambem algumas vezes sem nome expreso: v.g. Aiunt, supple, homines. Tonat, sup. Deus. outras vezes com o Nominativo: Saxa pluunt. Tambem se-uza do-Nome, sem Verbo expreso: Rari quippe boni. i. e. sunt. III. No-Verbo com o Nome, tem lugar a Figura Sintesis, que parece, que discorda do-Nome expreso: mas a verdade é que concorda, com o sinonimo oculto. v. g. Pars epulis onerant mensas: onde o Verbo concorda, com o sinonimo oculto, Plurimi. Tem tambem lugar a figura Zeugma, em que o Verbo concorda, com o mais vizinho: Tu quid ego, & populus mecum desideret, audi. Tem tambem lugar a Silepsi, emque o Verbo concorda, com o mais digno: Si tu, & Tullia lux nostra valetis, ego, & suavissimus Cicero valemus.
IV. Porque o Adjetivo significa acidente, nam pode estar só sem sustantivo, que signifique a sustancia. o mesmo digo das-terminasoens do-Verbo que significa, movimento de alguma coiza: e asim sempre se-subintende a dita coiza. Nam á Orasam sem Verbo, e Nome. se o Verbo é finito, o suposto é Nominativo: se é infinito, é Acuzativo. A Letra, Silaba, Voz, e Orasam, pode ser suposto do-Verbo, e do-Adjetivo. V. Do-sobredito se-inferem varias coizas. É falso, que os Nomes de numero, come tres, & decem, concordem entre si. É falso, que os Adverbios, e Conjunsoens concordem com o Indicativo, Optativo &c. deve-se dizer, que se-construe um com outro. E nisto com pouca diferensa se-comprende, tudo o que se-diz da-Sintaxe de concordar.
A Regencia, é a que mostra o seu efeito, em outra coiza que rege. Quatro sam as vozes que regem outras: Nome, Verbo, Participio, e Prepozisam. É falso, o que se-ensina comumente, que o Adverbio, Conjunsam, Interjeisam, Verbo pasivo, Participio pasivo, Gerundio, Nome adjetivo, reja, e pesa cazo: porque o cazo que se-acha com eles, é regido de uma parte supresa, pola figura Ellipsis.
A regencia ou é Gramatical, que segue as regras da-arte: ou Figurada, que se-desvia delas. E porque a regencia se-exercita nos-Cazos do-Nome, daqui vem, que toda a Sintaxe de Regencia se reduz, à explicasam deses seis Cazos. v.g. no-Nominativo aponta-se, quando entra na orasam. despois, quais sam as partes da-orasam, que se-construem com ele, ou simplez, ou dobrado. O mesmo digo de todos os outros Cazos: na explicasam dos-quais deve-se muito advertir, de mostrar quais sam as partes, que verdadeiramente os-regem: e nam enganar os estudantes, com as doutrinas das-Gramaticas vulgares. V.g. o Genitivo é cazo somente regido, por-um Sustantivo expreso, ou supreso: ou por-uma parte, que esteja em lugar de Sustantivo. É pois necesario mostrar-lhe, que se-enganam os outros, que atribuem o tal Genitivo, a outras partes da-orasam. Com este metodo, explica-se mui brevemente a Sintaxe, e mui solidamente: porque se-reduzem todas as construisoens figuradas, ao modo de falar regular: e se-descobrem os verdadeiros principios da-Regencia: postos os quais, dezaparecem todos aqueles Apendices, e Limitasoens da-Gramatica uzual: as quais nam de outra coiza nacem, senam de establecer principios falsos. Despois, explica-se a Gramatica Figurada: e se-aponta o fundamento da-Figura, e como se-pode reduzir à construisam natural. porque sem esta inteligencia, nam se-pode ir para diante na Gramatica.
ORTOGRAFIA, E PROZODIA.
As outras duas partes da-Gramatica sam mais facis, porque menos contrariadas. A noticia das-Letras, e Ortografia, é sumamente necesaria, para escrever bem, e ler correntemente nam só a moderna, mas tambem a antiga escritura: em que vareiam muito as letras. O mesmo digo da-Prozodia, ou quantidade das-silabas. Tambem nisto é necesario, uzar melhor metodo, que o da-Gramatica comua: e conheso eu muito bem, que se podem dizer, com mais clareza.
Eisaqui tem V.P. uma idea do-que sinto, sobre a Gramatica. Parece-me bastante o que dise, paraque veja V. P. quanto trabalho encurtaria uma Gramatica, concebida nestes termos: e uns principios tam claros, como os em que se-funda. Nam poso dilatar-me mais nesta materia, porque serîa compor Gramatica; e o meu argumento nam é ese. Eu sei, quem tem composto uma Gramatica, pouco diferente da-ideia que propuzemos: e tem composto outro particular escrito, com que se-aprende Gramatica mais facilmente, e em menos tempo: os quais podia publicar, para utilidade deste Reino. Dois nosos amigos lhe-pediram instantemente, que a-impremise: mas ele desculpa-se sempre com dizer, que é mais facil, conquistar um novo mundo; doque despersuadir os Velhos, da-antiga Gramatica. Cita alguns exemplos com que mostra, que a paixam obra nestes particulares mais, que o juizo: e lamenta-se muito, que se-tenham reprovado tantas coizas, sem as-lerem, nem intenderem.
O que eu poso segurar a V. P. é, que com este metodo, aprende-se em um ano mais Gramatica, doque nam sabem muitos, que a ensinam trinta anos, ou pasáram nela toda a sua vida. É erro persuadir-se, que um omem ou deva, ou posa ter prezentes todas as regras, que se-acham na Gramatica do-P.Alvares. A experiencia deveria dezenganar, os que estudáram por ela; e mostrar-lhe, que aquele estudo morre com a escola. Um estudante, despois de seis ou sete anos de Manoel Alvares, se acazo nam le os antigos Latinos, e procura intendèlos; ou nam pasa para a Filozofia, onde a necesidade o-obriga a intendèlos, e falar a tal lingua; fica toda a sua vida ignorante de Latim, com toda a sua Gramatica. Porem se acazo segue o exercicio do-Latim, de tal sorte se-familiariza com a lingua, como se fora nacional; e comesa a falar por-uzo. Aqui nam é necesario mais prova, que proguntálo a eses mesmos leitores. apenas conservam umas ideias gerais, das-regras de Gramatica. Onde fica claro, que tudo aquilo é superfluo. O metodo porem que aponto, é mais facil de se-conservar na memoria, porque é natural: e chega à origem das-coizas. Mas em um e outro sistema é verdade, que preceitos sem uzo, nada valem. Onde deve o estudante, nam só aprender a Gramatica, mas exercitar esas regras no-discurso, na leitura, e na composizam: descobrindo em toda a leitura as regras, que na Gramatica lhe-insinuam: no-que deve ter igual cuidado o mestre, que o estudante. No-primeiro ano, deve ensinarlhe Gramatica: o que se-pode fazer com muita facilidade. No-segundo, traduzir os autores mais facis: como algumas Cartas de Cicero, as Fabulas de Fedro, Terencio, Cornelio Nepote. procurando que o estudante asine a regencia das-partes, e descubra neses livros, os principios que estudou: e intendendo as outras particularidades mais reconditas da-Gramatica: as quais nam sam para o primeiro ano.
Mas, para proceder nisto com utilidade, deve o mestre ordenar ao estudante, que ja vio uma vez a Sintaxe, que escreva em Portuguez, polas palavras que melhor lhe-parecer, mas sempre diferentes daquelas, que estam na regra, a razam de alguma regra; apontando um exemplo, e explicando as partes todas dese exemplo. Pode tambem o mestre tomar, um periodo de duas regras, em algum autor claro; e dalo ao rapaz, paraque o-explique em uma folha de papel: pondo nela toda a regencia gramatical, sem deixar nem menos uma virgula, por-explicar. E quando o rapaz aprezenta a sua carta, examinálo de tudo, o que nela se-contem; para ver se verdadeiramente o-intende. E isto mesmo se-pode praticar ao principio, quando traduzem os autores. Este modo de estudar, nam enfada os principiantes, visto darem-lhe tempo para considerar, o que ám-de escrever. Ao principio, deve ser em caza: quando sam adiantados, na escola. Alem diso o estudante, para escrever a sua explicasam, é necesario que leia, e intenda bem a regra: que busque no-Dicionario, o significado das-palavras: e desta sorte é que a-imprime bem na memoria. Quando o estudante for adiantado, entam é que se pode obrigar, a repetilo de memoria: mas nem sempre: pois algumas vezes é bom, dar-lhe o periodo, paraque fasa a explicasam por-papel: Com a diferensa porem, que se o periodo avia ser de quatro regras, seja de seis, ou oito. Explicando isto por-escrito, é incrivel, quanto se-intende melhor: principalmente se o mestre, quanto lhe-tomar conta, fizer as proguntas necesarias; emendar os erros, e explicar tudo como deve.
Mas esta carta ja é mais comprida, doque eu queria fazé-la: porem poso segurar a V. P. que ainda me-fica muito que dizer. Contudo do-que tenho escrito, fica bem claro, o que eu intendo: e para V. P. é mais que bastante. Fico às ordens de V. P. como seu criado.
NOTAS DE RODAPÉ:
[16] Patrio sermone tantum declaranda Rudimenta, Genera, Declinationes, Anomala, Præterita, Supina: ne simul & ligata & soluta oratione præcepta memoriter recitare cogantur. Quod etiam in Syntaxi, quando ea primum explicatur, observandum est.
[17] Veja-se a sua Gramatica da-edisam de Scavenio, na Prefasam.
[18] In Ver. act. 3.
[19] 2. Agrar.
[20] Terent. in Andria.
CARTA TERCEIRA.
SUMARIO.
Abuzos que se-introduzîram em Portugal, no-ensinar a lingua Latina. Mao modo que os mestres tem, para instruir a Mocidade. Propoem-se o metodo, que se-deve observar, para saber com fundamento, e facilidade o que é pura Latinidade. Necesidade da-Geografia, Cronologia, e Istoria, para poder intender os livros Latinos. Apontam-se os autores, de que os mestres se-devem servir na Latinidade: e como devem servir-se deles; e explicálos com utilidade: e as melhores edisoens. Aponta-se o modo de cultivar a Memoria, e exercitar o Latim nas escolas.
Meu amigo e senhor, Tardei em escrever a V.P. porque tive legitimas ocupasoens. Continuando pois o fio das-minhas reflexoens, da-Gramatica paso para a Latinidade: porque me-persuado, que este mesmo caminho deve seguir o estudante, que quer ter perfeita noticia, da-lingua Latina. Esta noticia certamente nam se-consegue, com a pura Gramatica: mas com a continua lisam de bons autores, e reflexam sobre as suas melhores obras. Aliud est grammatice, aliud latine loqui: advertio ja no-seu tempo Quintiliano. e com muita razam: porque a escrupuloza sugeisam às regras da-Gramatica impede, saber falar a lingua. A Gramatica é a porta, pola qual se-entra na Latinidade: e quem pára no-vestibulo, nam pode ver as singularidades do-Palacio. Quantos omens acha V. P. que, com terem sido mestres de Gramatica muitos anos, saibam pegar na pena, e escrever uma pagina em bom Latim? responder a uma carta com facilidade? e fazer qualquer outra coiza, em que seja necesario, uzar da-lingua Latina? Eu conheso infinitos sugeitos, que pasáram a sua vida neste exercicio, e quando ám-de escrever Latim, servem-se de expresoens em tudo barbaras, e indignas do-seu exercicio. Outros, aindaque tenham eleisam de palavras, nam se-despem dos-idiotismos da-sua lingua: que é o mesmo que falar Portuguez, com palavras Latinas. Uma vez que observam, aquela regencia gramatical que estudáram, parece-lhe que fazem a sua obrigasam. Os que se-querem apartar deste uzo, declinam para outro extremo viciozo, que é a afetasam: e nam buscam, senam palavras grandes e sonoras, sesquipedalia verba, com as quais atroem os ouvintes, ou leitores. E daqui entam nace, aquele estilo ridiculo, que tanto dominou nos-seculos da-ignorancia; e oje em Italia chamamos, estilo do-seculo XVI.
A estes ultimos chama o comum dos-Gramaticos, grandes Latinos. É um louvar a Deus, ver a prezunsam de uns, e a ignorancia de outros. Achei-me prezente em algumas orasoens Latinas, que se-recitáram sobre diversos asumtos; e nam podia asás admirar, a afetasam, e estilo dezigual, que reinava em toda a orasam. Despois diso, li muitas compozisoens, feitas por-eses mesmos: li muitas postilas de diversos leitores, que tinham pasado com louvor, por-aqueles bancos: e em tudo notei o mesmo defeito. E tudo isto provèm, de se-contentarem com a erudisam de quatro temas, que lhe-mandam compor: e de nam se-internarem na lisam dos-bons autores, e que escrevèram no-tempo da-mais pura Latinidade. É coiza imposivel, que um omem que tenha tomado o gosto, à verdadeira Latinidade, com facilidade o-perca. Ainda quando trata asumtos umildes, e argumentos em que è obrigado servir-se, de expresoens barbaras, v.g. na Filozofia, ou Teologia Peripatetica; ou ainda quando despreza o falar elegante; la mostra sempre, o conhecimento que posûe daquela lingua. Nos-seus escritos conhecem muito bem os omens inteligentes, o que ele podia fazer. caiem-lhe da-pena palavras proprias. um estilo facil e natural é o carater das-suas obras. Mostra a experiencia o que digo: e convem nisto os omens de alguma doutrina. Daqui vem, que os que querem fazer progreso na Latinidade, procuram logo um autor facil e elegante, como qualquer dos-que na minha ultima apontei; e desorte se-familiarizam com ele, que tomam e imitam a sua fraze, e modo de falar. Quem quer falar uma lingua, deve conversar com os omens que a-falam bem. ora os que oje falam bem Latim, sam eses quatro livros, que nos-deixou a Antiguidade: e com eles é necesario conversar tanto, que aprendamos o que se-pode aprender.
Pode tambem aver perigo, na lisam deses mesmos bons livros: e pode suceder, que com bons livros, se-saiba mal Latim: Digo isto, polo que tenho observado, em grande parte deste Reino. Omens á, que lem indiferentemente, todos os livros antigos; e pola vaidade de quererem saber tudo, nam sabem nada. Formam um estilo dezigual, que nam é de seculo algum: e com grande trabalho, nam conseguem o fim que queriam. Neste defeito, nam só caiem os pouco doutos; mas chegáram a cair, omens de grande doutrina. Erasmo, que foi um omem tam douto como V.P. sabe, é censurado neste ponto. A grande lisam que tinha, dos-antigos autores, e Padres, impedio-lhe formar um estilo determinado. Contudo iso, nam sei se achará V.P. muitos no-seu Reino, que escrevam como ele. O certo é, que Erasmo nam lia os Antigos por-vaidade, mas por-necesidade dos-seus estudos: mas estes de quem eu falo, nam se-livram deste pecado. Outros, furtam indiferentemente, de todos os autores que lem; para poderem encher as suas compozisoens: servido-se imprudentemente, destes livros de Fraseologia: sem advertirem, que sempre á-de ser capa de romendos: e que os diversos mantimentos primeiro se-ám-de digirir, para se-converterem em uma sustancia, que seja uniforme e simplez.
A outra razam que á, para que se-posam enganar, é a diversidade de estilo, e merecimento deses mesmos Antigos. Quanto ao estilo, é certo que os querem ser Istoricos, faram mal em ler as Filipicas de Cicero, as Comedias de Terencio, os Epigramas de Catúlo, e outras semelhantes compozisoens: porque nam conduzem ao seu fim; aindaque sejam escritas, no-seculo da-bela Latinidade. omesino digo das-outras proporcionadamente. Podem-se ler estes autores: mas cada um deve aplicar-se ao que é insigne, na materia que ele trata. Se bem ouso dizer, que Terencio serve-se das-expresoens, no-seu proprio significado: que Cezar falou melhor, que nenhum dos-Romanos: nem por-iso ei-de logo meter Cezar, e Terencio em toda a parte. para o conhecimento da-lingua, todos me-podem servir: nam asim para o exercicio particular, que eu quero. Quanto ao merecimento é certo, que nem todos os Antigos sam iguais. antes muitos que escrevèram no-seculo de Augusto, e em tempo de Tiberio, fizeram-no com tal negligencia, que mal tem lugar, na idade de prata da-lingua Latina: e sem injuria se-podem colocar, na idade de bronze.
Esta advertencia é mais necesaria em Portugal, que em outros Reinos: porque os mestres aqui, tem pouca noticia destas coizas. Nas escolas da-Latinidade, verá V.P. traduzir livros, de merecimento mui dezigual: e pasar de um para outro sem eleisam, nem advertencia, somente para encher tempo, e completar o ano. Na 3. e 4. em que os rapazes comesam a traduzir, explicam pola menhan, as Filipicas de Cicero &c. e de tarde, a Eneide, ou Ovidio de Trist. Na 2. e 3. pola menhan, Suetonio; de tarde Oracio. Mas eu vi mais: vi um mestre que explicava aos dicipulos, as Orasoens de Cicero, Marcial, e o Thesaurus Poeticus. E que coiza boa pode sair daqui? Nam ensinam aos estudantes, qual é o merecimento de cada autor, que lhe-mandam traduzir: e como pode o estudante advinhálo? Alem diso, aquilo de explicar no-mesmo tempo, proza, e verso, e isto a principiantes, nam pode menos, que produzir monstruozidades. O pobre estudante, com a memoria cheia de tam diferentes especies, nam pode distinguir o branco, do-negro: nem chegar a conhecer bem, qual é o estilo da-proza, e qual o do-verso. Muito pior ainda é, comesar por-tais livros: porque as Filipicas, e Eneide, nam é Latim para rapazes, mas para omens feitos. por-estes livros devem acabar o estudo, e nam principiálo. Tambem o Suetonio, nam é livro proprio da-Escola, porque nam escreve com a pureza dos-outros da-idade de oiro. era melhor Livio, Nepote &c. que, alem da-pureza de lingua, sam perfeitos modelos de eloquencia. Outros mandam traduzir lisoens do-Breviario, ou Concilio de Trento: dizendo que sam necesarias, para quem á-de seguir a Igreja. E isto tambem é uma solenisima loucura. Cada lisam do-Breviario é de seu autor, e de estilo diferente. Ainda das-que se-tiram da-Escritura, se-deve dizer o mesmo: umas sam oscuras, que sam as dos-livros profeticos; outras mais claras, que sam as dos-istoricos: e o Latim delas nam é bom, porque a fraze é barbara. E querer, que um estudante traduza isto, é querer, que nam saiba Latim. Tambem o Concilio nam é próprio, para dar boa doutrina: porque se-serve de um estilo Forense proprio de Roma, que nam é Latino. Se o-fazem para intender estes livros, é superfluo explicálos. Nam á omem nenhum tam decepado, que, se intende bem Latim, nam intenda as Bulas; aindaque nunca as-tenha lido. Estar o verbo vizinho ou distante, nam muda, ou dificulta o sentido, a quem le todo o periodo: e quem tem alguma pratica delas, intende-as maravilhozamente, aindaque seja mao Latino, como vi muitas vezes em Roma. O que suposto, é muito mao emprego, obrigar o estudante a traduzir Bulas, ou Constituisoens: e principalmente a traduzilas palavra por-palavra, como fazem estes mestres. O Ecleziastico, nam é necesario que traduza; basta que as-intenda. Antes é muito mal feito, obrigálos a traduzir asim: porque o tal Latim nam se-deve traduzir ad verbum, mas ad sensum. O que bastava que o mestre advertise, quando quizese dar-lhe alguma noticia diso: pois em tal cazo bastaria, que mandáse ler alguns periodos, e explicar o sentido. Isto basta: o mais é perder tempo.
Contudo iso sam poucos os que conhecem, que com isto se-perde o tempo: antes blazonam, quando procuram embrulhar os rapazes, com coizas oscuras. Achava-me eu em uma parte, em que certo M. de Filozofia, para examinar um rapaz, mandou-lhe traduzir aquelas palavras de S. Paulo ad Cor. Aemulor enim vos Dei æmulatione &c. que era o capitulo da-Ora, que estava rezando. O rapaz, que nam era mao estudante, traduzio literalmente: mas como nam fazia bom sentido, o mestre dito deu grandes rizadas, e fez escarneo do-rapaz. Eu calei-me por-prudencia: mas tive meus impetos de lhe-dizer, V.P. ri-se de um pobre rapaz, que nam é obrigado a saber, o sentido da-Escritura, nem os ebraismos, que se-acham na Vulgata: e eu apostarei, que V.P. é o primeiro que nam intende, o que nisto diz S. Paulo. Com efeito se eu apertava os negalhos, estava certo, que serîa mui mao interprete, da-dita Epistola. O certo é, que nam á maior parvoice, que mandar traduzir palavras oscuras: e que esta pedanteria se-devia desterrar de lugares, onde se-sabe falar. Alem disto, é obrigado o estudante, a compor varios periodos, a que chamam orasoens: repetir uma quantidade de regras Latinas, e Portuguezas: e se o pobre rapaz nam pode responder a tudo, em vez de lhe-aliviar o pezo, e mostrar-lhe a estrada, e animálo a proseguila; dam-lhe muita palmatoada; e obrigam-no a odiar, todo o genero de estudos. De que nace, aquela grande ignorancia, que se-observa nestes paizes.
Daqui fica claro, que com tal metodo, pouco se-pode saber de Latim. É lastima que os Profesores, nam cheguem a conhecer por-uma vez, o ridiculo deste costume. Todos os primeiros estudos naturalmente dezagradam, porque sam cansados: e paraque avemos enfastiar mais os pobres rapazes? Um omem consumado nos-estudos, quando estuda uma lingua estrangeira, v.g. Grego, Ebraico, ou Caldaico, nam pode menos que enfastiar-se, daqueles primeiros elementos. Tem grande dezejo de sabèla: conhece o metodo de aprender a dita lingua: reconhece a necesidade que tem dela, para intender as Escrituras Santas: contudo iso quando se-aplica a ela, mil vezes deita fóra os mesmos livros: e nam-se-acha com rezolusam, de tornar a servir-se deles. Falo pola experiencia propria, e pola de alguns amigos, que se-aplicáram às linguas estrangeiras. E nam acha V.P. que é uma crueldade, castigar rigorozamente um rapaz, porque nam intende logo a lingua Latina? que de si mesmo é dificultoza, e ainda o-parece mais, na confuzam comque lha-explicam. Isto é o mesmo, que meter um omem, em uma caza sem luz, e dar-lhe pancadas, porque nam acerta com a porta.
V. P. está em uma Universidade, onde é facil dezenganar-se com os seus olhos. Entre no-Colegio das-Artes, corra as escolas baixas; e verá as muitas palmatoadas, que se-mandam dar aos pobres principiantes. Penetre porem com a considerasam, o interior das-escolas: examine se o mestre lhe-ensina, o que deve ensinar: se lhe-facilita o caminho, para intendèla: se nam lhe-carrega a memoria, com coizas desnecesariisimas: e achará tudo o contrario. O que suposto, todo este pezo está fóra, da-esfera de um principiante. Ora nam á lei que obrigue um omem, a fazer mais do-que pode: e que castigue os defeitos, que se-nam-podem evitar. Nam nego, que deve aver castigo: mas deve ser proporcionado. Um estudante que impede, que os outros estudem: que faz rapaziadas pezadas &c. é justo que seja castigado: e, avendo reincidencia, que seja despedido. Serîa bom, que nesa sua Universidade, se-dese um rigorozo castigo, ainda de morte, aos que injustamente acometem os Novatos; e fazem outras insolencias. A brandura comque se-tem procedido neste particular, talvez foi cauza, do-que ao despois se-fez, e ainda se-faz. Nese particular serîa eu inexoravel: porque a paz publica, que o Principe promete, aos que concorrem para tais exercicios, pede-o asim: e em outros Reinos, executam-no com todo o rigor. Falo somente do-castigo que se dá, por-cauza de nam acertar com os estudos. a emulasam, a repreensam, e algum outro castigo deste genero faz mais, que os que se-praticam. É necesario ter muita paciencia com os rapazes, e ensinálos bem: nam seguindo a opiniam daquele Bispo de Vizeo D. Ricardo Rosel, que em um exame reprovou XVI. estudantes afio, porque pronunciáram Idolum, com a segunda breve. Isto só faz, quem nam conhece o que deve. Um omem pode ignorar, a quantidade de muitas silabas, e ser um grande Latino. Todos os dias se-oferecem duvidas na quantidade delas, aos omens doutos: principalmente naquelas palavras, que tem origem Grega: na qual lingua o O, e E sam de duas sortes, breves, e longos. Este rigor é censuravel. deve-se praticar outro estilo.
Acho ainda mais outro inconveniente, para saber Latim, praticado nas escolas: que é, compor muito naquela materia, que intendem mui pouco. Um pobre estudante ainda nam intende Latim, e ja lhe-dam varios temas, que sam certas orasoens vulgares, para traduzir na lingua Latina. ou dam a orasam Portugueza, com partes Latinas; ou uma sentensa Latina, para eles a-dilatarem, e provarem. Mas um e outro metodo, é um erro masicho. Que coiza boa á-de fazer um rapaz, que ainda nam sabe Latim? Dar as partes conrespondentes ao Portuguez, e obrigar o estudante, a que se-sirva delas em uma orasam longa; é o mesmo que querer, que ele siga os despropozitos do-seu mestre. Ainda quando o estudante acertáse com tudo, nam acertaria com os idiotismos, isto é, com os modos de falar, que sam proprios da-lingua Latina: e falaria Portuguez, com palavras Latinas. Pode-se permetir o dar as partes, em uma breve orasam; e isto a um rapaz que comesa: mas nam se-deve obrigar outro mais adiantado, a seguir tal metodo.
Devia o mestre ensinar ao dicipulo, compor bem uma orasam Portugueza breve, uma carta, um comprimento, ou coiza semelhante. Para isto tem o estudante, toda a facilidade posivel, porque o-faz em uma lingua que sabe; e na qual o mestre pode claramente mostrar-lhe os erros. Quando o estudante soubése fazer isto bem, entam lhe-aconselharia, que a-convertèse em Latim, deixando-lhe toda a liberdade da-compozisam. Emendados os erros de Gramatica, se os-ouvèse, emendaria os erros da-lingua: e lhe-mostraria, a diferensa que á, entre estas duas linguas: e a diversidade que aparece, entre escrever segundo as regras de Gramatica, e segundo o estilo da-boa Latinidade. Mas nisto procederia com advertencia. Primeiro, nam procuraria que escrevesem, senam em estilo familiar e facil. despois, segundo o adiantamento que tivesem, pasaria aos argumentes ou asumtos mais dificultozos; os quais explicaria muito bem. Desta sorte, acompanhando a tradusam com a compozisam, facilitaria muito o estudo, e conseguiria promtamente o intento.
Deste estilo rezultariam muitas utilidades. Primeiramente, sairiam os omens da-escola, nam só sabendo a lingua Latina, mas tambem a sua. É lastima, que omens que pasáram tantos anos, nas escolas pequenas, e grandes; omens que estam oje ensinando a outros, e ocupam cargos de Letras, e Politica; nam saibam escrever uma carta! Pois isto é coiza, que sucede todos os dias. Eu me lembro, que V.P. se-queixou ja disto: e me-dise, que achava muitos Religiozos, que tinham o mesmo defeito: e reconheceo comigo, que a origem destes danos era, a que aponto. Cometem-se mil erros de Gramatica, na propria lingua, e infinitos de Ortografia. Preparam-se muitos para escrever uma carta, como para fazer um ato publico. Procuram palavras bem dezuzadas, ou estrangeiras; e verbos que nam á no mundo. E com isto compoem uma carta, sumamente afetada, e de um estilo, que é mais declamatorio, que epistolar. Estes sam os que sabem mais: e os que sabem menos, pedem a estes, que lhas-componham. E tudo isto provèm, de nam terem uzo de compor na sua lingua: e de nam terem quem lhe-ensine, qual é o estilo de Carta, qual o de Orasam: e nam aver uma alma cristan, que lhe-persuada, que a afetasam deve-se evitar, em todos os generos de eloquencia, mas muito principalmente, no-estilo familiar.
A segunda utilidade é, sobre a inteligencia da-lingua Latina. Um rapaz que de sua cabesa escreve uma carta, ou comprimento, ou oferecimento Portuguez, com palavras proprias; ja sabe, o que á-de dizer em Latim: só lhe-falta, ter as palavras Latinas, para as-colocar. A isto pois deve suprir o mestre. Suponho, que lhe-tem ja ensinado a Gramatica: e tambem a traduzir de Latim, em Portuguez, para intender os termos: e supondo estes principios, facilmente o rapaz intenderá, quais sam as palavras, de que á-de uzar: ou ao menos será facil ao mestre, mostrar-lhas. Eu no principio seguiria esta regra. Comporia diante dele em Latim, parte da-dita carta, ou toda: e lhe-daria a razam do-que fazia: explicando-lhe, porque uzo daquele verbo, e nam de outro: porque uzo daquela fraze, mais doque outra. Capacitando-o, que a todas as palavras Portuguezas, nam pode conresponder uma Latina: mas é necesario uzar de perifraze, ou rodeio de palavras, para as-poder explicar. Este é o defeito que nós achamos, no-metodo de dar as partes: porque nam conrespondendo elas sempre umas a outras, por-forsa á-de sair uma embrulhada. Sabido tudo isto, darlheîa a incumbencia, de escrever a dita carta em Latim, sem lhe-mostrar, a que eu tinha composto: e pedirlheia a razam, de tudo o que tinha feito.
Alem disto, com este metodo aprende-se o que significa, escrever Latim com propriedade. Um mestre que se-contenta, com a Arte do-P.Alvares, e com a noticia do-Dicionario do-P.Bento Pereira, nam sabe distinguir entre muitos sinonimos, qual é o proprio, para o que quer explicar. Figuro um exemplo. Tenho necesidade de uzar, do-Verbo Pedir: para isto ocorrem logo mil Verbos: Postulo, Posco, Peto, Flagito, Efflagito, Oro, Rogo, Precor, Obsecro, e alguns outros. Quem sabe pouco, intende que sam rigorozos sinonimos; e nam tem dificuldade, de servir-de indiferentemente de todos: mas quem sabe mais, conhece que nem todos o-sam: porem que alguns daqueles Verbos, significam mais, ou menos. v.g. Postulo significa pedir aquilo, que se-me-deve: postulare jure. Flagito significa pedir com instancia, e injuriozamente. Efflagito pedir com grande instancia; e acrecenta sobre Flagito, alguma coiza. O mesmo dos-outros com sua proporsam. Do-que fica claro, que querendo eu explicar, que peso com instancia; direi muito mal: Vehementer postulo. cum clamore & magna instantia obsecro. basta que diga, Flagito. O mesmo digo, em diversas outras materias. Isto nam ensina o Alvares, nem o Pereira: mas isto deve ensinar o mestre, mostrando ao estudante, quais sam os vocabulos proprios, para explicar o que quer. Desta sorte acostuma-se o rapaz desde o principio, a servir-se de termos proprios, e frazes naturais à Lingua: E com isto insensivelmente toma o gosto da-boa Latinidade, e da-sua mesma lingua: e aprende as leis da-Tradusam, mui necesarias a quem á-de ler, e servir-se de autores estrangeiros.
Dirmeá V.P. que eu peso muito: e que isto nam é facil, praticálo nas escolas: porque nem todos os mestres, tem a erudisam que aponto; e nem todos os estudantes, sam capazes desa doutrina: E eu respondo, que nam á coiza mais facil de se-executar. Ponha-me V. P. nas escolas outra Arte: um bom Calepino dos-modernos, reduzidos à grandeza do-Dicionario do-P. Pereira; que tudo se-remedeia. Estas duas coizas sam sumamente necesarias. A Arte comua, ensina muita coiza má: e a Prozodia, tem muito erro. Nam distingue as idades dos-vocabulos: mas com uma simplez estrelinha quer, que nós suspeitemos mal, de tudo o que dezagradou ao corretor: o qual às vezes erra, como ouvi queixar os mesmos Jezuitas. Alem diso, desterra da-Latinidade muitos nomes, que sam Latinos; e introduz outros, puramente barbaros. Nam explica a forsa das-vozes: nem mostra com exemplos, os significados proprios, e figurados de cada palavra: alem de muitas outras coizas, que se-podem notar. E asim serîa necesario, compor um Dicionario pequeno para os rapazes; ou servir-se de algum estrangeiro. v.g. o de Danet, ou ainda melhor, o que ultimamente se-compoz em Turin, por-ordem d’El-Rei de Sardanha, para uzo das-escolas: que sam dois tomos in 4o. Italiano e Latim, Latim e Italiano: e traduzir as palavras Italianas em bom Portuguez. Establecido isto, conheso eu entre os doutisimos Jezuitas, mosos de toda a erudisam, e capacidade, proprios para executarem dignamente, este emprego. Comque, tire V.P. das-escolas, os que sabem pouco; e em seu lugar ponha estoutros: prescreva-lhe o metodo apontado: fasa com que o executem sem epikeas, (como fez ultimamente o dito Duque de Saboia aos seus suditos, determinando-lhe o metodo, de ensinar Latim, e Leis &c.) e verá, com que facilidade se-reformam as escolas. Todos os estudantes, asim como sam capazes de sofrerem, aquele mao metodo, com mais razam receberám outro, que seja mais claro e facil, e seguiloám com mais boa vontade. O dano desta era consiste em quererem, que um estudante, que sabe pouco, e a quem nam ensinam a saber mais, mostre que sabe muito; e, para o-mostrar, componha muito. Eu nam peso tanto. Suponho que tem ja, um bom ano de Gramatica, e que tem pasado parte do segundo ano, traduzindo de Latim em Portuguez: onde nam me parece que peso muito, se quero que no-resto do-ano, se-empreguem em compor Latim, polo metodo que asima digo. Este tal estudante nam è noviso, mas adiantado; e pode com fruto aplicar-se a este estudo. Falando-lhe em Portuguez, e compondo polo metodo que aponto; muda-se de sistema. Nas escolas comuas sabe-se pouco, quando os-obrigam a compor: v.g. na quarta, e terceira, em que comesam a traduzir de Latim, em Portuguez; nesa mesma clase, e no-mesmo tempo comesam a fazer tema. E isto nam pode produzir bom efeito. Mas neste sistema, quando se-compoem, ja o negocio está adiantado: e vai-se adiantando mais, com a dita compozisam.
Acha-se tambem outro inconveniente bem grande, nestas escolas, sobre isto da-compozisam; que é, obrigar os estudantes a fazerem, ou indireitarem versos rotos: e castigálos rigorozamente, se os-nam-fazem. desorteque ou sejam, ou nam aptos para a Poezia, todos ám-de fazer, o mesmo numero de versos. Mostra pouco intender de versos, quem pratîca isto: porque nam é facil, obrigar o entuziasmo a que venha, quando quer o mestre. Mas o que mais é para rir é, que fasam isto omens, que prezumem muito de ser Poetas, e matam gente com as suas poezias. Falando com alguns mestres neste particular, responderam-me que o-faziam, para que os estudantes tivesem alguma erudisam, dos-Poetas Latinos. Proguntei-lhe, que necesidade avia desa noticia: responderam-me: Que era necesaria, para a inteligencia da-lingua Latina. Poisque, continuei eu, quando V.V.P.P. intendesem bem Cicero, Cezar, Cornelio Nepote, Livio, Paterculo &c., e pudesem explicálos com facilidade, e escrever como eles; tinham medo de nam saber Latim; ou serîa necesario, recorrer a eses Poetas? Aqui nam souberam que responder mais, doque recorrer ao costume, das-Universidades da-Europa. Mas eu, que nam queria deixar fugir a preza, pedi-lhe, que me-provasem, que nesas Universidades, emque se-sabe ensinar, (avemos de concordar, que á algumas que seguem, o estilo de Portugal, aindaque mais moderado) explicavam os Poetas, só para intender a lingua: ou que obrigavam os estudantes, a que fizesem versos como eles. Aqui ficáram calados. E, na verdade, era dificil coiza, que quem nunca saîra de Portugal, ou nam tinha examinado com grande atensam, os estudos estrangeiros, discorrese fundadamente sobre eles.
Mas a verdade é, que nam á coiza mais contraria à boa razam, que esta pratica de fazer versos. Os omens nam tem capacidade igual; e nem todos sam capazes de tudo: antes às vezes acham-se mosos tam rudes, que dificultozamente podem intender o Latim. E como ám-de estes compor versos elegantes? Asentamos, que, para a inteligencia da-lingua Latina, é loucura, obrigar a fazer versos. O mais que podem fazer, e que eu nam reprovo, é, quando o estudante sabe bem a lingua Latina, mandar-lhe traduzir, alguns dos-Poetas antigos melhores, como Lucrecio, Virgilio, Ovidio, Oracio, Catûlo, e algum outro: mas raro; porque nisto se-compreende o melhor. E isto para mostrar, as frazes particulares dos-Poetas, e tambem o bom gosto da-lingua. sendo certo que alguns destes escrevèram, com purisima Latinidade, como Virgilio nas Georgicas, e Eglogas: Oracio nas Epistolas, e Satiras: Ovidio nas Epistolas às Damas ilustres.
Quanto ao Verso, é querer perder tempo, obrigar os omens a fazèlos: e serîa melhor, empregar aquele tempo, em coiza mais util. Ouveram omens doutisimos, e os-á prezentemente, que nam sabiam fazer versos. No-tempo de Cicero avia omens, que faziam versos, com grande facilidade, e insignes na dita profisam: e contudoiso estavam mui longe, do-merecimento de Cicero. Este grande omem nam ignorava, o como se-faziam os versos: e com efeito alguns fez, cujos fragmentos ainda oje existem: mas o seu talento, e a sua maior propensam era, para a Retorica. Nam que eu julgue, que os versos de Cicero sejam maos; como muitos ignorantes, e que querem falar do-que nam intendem, se-persuadem. Os versos de Cicero, principalmente os Fenomenos de Arato, sam tam elegantes e tam belos, como os de Lucrecio: nem eu acho diversidade sensivel entre uns, e outros: e igualmente admiro ambos, principalmente olhando para a materia, sobre que compuzeram. Pois se todos admiram em Lucrecio, explicar com tanta naturalidade, coizas tam dificultozas, conservando a elegancia, e o espirito de Poeta; o mesmo louvor, e polas mesmas razoens, compete a Cicero: o qual com a frequencia de ler, e emendar Lucrecio, tinha aquistado a mesma facilidade, e estilo. Para conhecer o que nisto podia Cicero, basta lelo nas partes, em que nam é violentado, pola esterilidade da-materia. Nam sei se se-podem achar na Antiguidade, versos mais armoniozos, que os que ainda oje lemos, do-livro segundo do-seu Consulado. Este bocado somente mostra bem, na minha estimasam, o que Cicero podia. Nem obsta, que Marcial, Juvenal, Quintiliano, zombasem de um certo verso de Cicero: isto, como nota bem o doutisimo Turnebo[21], nada prova. O que nam agradava a estes, agradava no-tempo de Augusto: e muitos omens grandes, (como advertio um grande critico daqueles tempos) estimavam mais os Antigos, que outros bem nomiados[22]. Se em muitas partes, Cicero nam se-asemelha a Virgilio, nem por-iso perde nada do-seu merecimento. Nem menos é semelhante Oracio nas suas Satiras, e Epistolas: nem em tudo Lucrecio; e com tudo sam famozos Poetas: e a naturalidade com que se-explicam, e acomodam o verso exametro, a tudo o que querem, é mais estimada, entre os criticos de bom gosto, doque a elevasam de Virgilio. O estilo daquele tempo pedia, grande naturalidade nas-compozisoens. E nam falta quem censure Virgilio, em ser tam elevado e artificiozo nos-versos: no-que alguma coiza se-desvia de Omero. Contudo ninguem nega, que, se na Eneide, e Georgica observou bem o decoro; e sustentou a dignidade do-argumento; nas Eglogas pecou muito, porque nam observa a simplicidade natural no-estilo pastoril: mas procura que falem os pastores, com toda a civilidade, e arrogancia de cidadoens: o que nam é verosimel. Mas, tornando a Cicero, ficaria prejudicada a Republica de tam grande talento, se, pola Poezia, deixáse a Oratoria. Conheceo aquele grande omem o seu talento: cultivou-o: e saio aquele oraculo, que entam venerou Roma, e oje admira o mundo. Esta, é uma grande lisam para os Modernos, consultar o talento; e nunca violentar a natureza. Onde neste particular, deve-se consultar, a inclinasam dos-rapazes: e avendo-a, explicar-lhe brevemente, as diferentes sortes de compozisoens metricas: nam os-ocupando senam em asumtos brevisimos: deixando-lhe toda a liberdade no-compor: mas emendando-os, e dando-lhe distintamente, a razam da-emenda.
Até aqui tenho falado a V.P. em alguns abuzos, das-escolas deste Reino, que impedem saber a lingua Latina. Agora falarei nos-requizitos, para a inteligencia da-dita lingua: a falta dos-quais, nam se-deve contar, entre os menores abuzos: e tambem apontarei o modo, comque se-deve regular, o estudo do Latim; e a eleisam de livros, para o-conseguir com brevidade. Parecerá um paradoxo, se eu diser a V.P. que, ainda observando tudo quanto asima digo, nam se-pode saber Latim, (nam digo com toda a perfeisam; porque uma lingua morta, nam se-chega a saber bem: mas sabèlo no-melhor modo posivel) sem alguma noticia da-Geografia, e Cronologia, e das-Antiguidades, em que entram os Costumes, a Fabula &c. e contudo, nam á coiza mais verdadeira doque esta. Eu nam quero sair do-livro mais uzual, que nas escolas se explica, que é Quinto Curcio. Nele ocorrem todos os momentos nomes, de Gentes, de Povos, Regioens, Cidades &c. fala-se de guerras entre Nasoens e Nasoens. E que conceito á-de formar do-escritor, aquele que o-explica, se ele nam sabe, se diz bem, ou mal? porque, ignorando a Geografia, nam sabe, nem chega a compreender, em que parte do-mundo, estejam as tais Gentes, se vizinhas, ou distantes. Como á-de o leitor intender, as conquistas de Alexandre, se ele nam sabe por-onde foi, que Nasoens venceo, que dificuldades superou? Alem diso, sucede muitas vezes, que ese escritor, que o estudante le, se-enganáse nos-lugares: e isto entam é erro sobre erro, que o leitor nam poderá decifrar. Nam è isto cazo metafizico, mas engano bem comum em muitos escritores. Q. Curcio enganou-se muitas vezes, por-ignorancia da Geografia: Plinio, e alguns outros: como admiravelmente mostra o douto Jozé Escaligero, nos-Prolegomenos de Manilio. O mesmo Manilio, Virgilio, Lucano, Floro erráram algumas vezes na Geografia, e podem cauzar o mesmo erro no-juizo, de quem for ignorante dela.
Dirmeá V. P. que este conhecimento, parece ser mais necesario, para nam se-enganar na leitura dos-autores, doque para intender a lingua: para a Critica, e nam para a Latinidade. Confeso, que para a Critica, é de indispensavel necesidade: mas o que digo é, que nam pode o estudante, intender com facilidade um autor, que trata a istoria de um conquistador, sem a noticia dos-paîzes de que fala: e nem menos o-poderá intender com gosto. Polo contrario, se é informado, aindaque superficialmente, desta noticia, percebe maravilhozamente o fato: facilita-se a inteligencia do-autor: e por-este meio a da-dita lingua. Um moso, que ignora totalmente a Geografia, toma limpamente um nome de Cidade, polo de um Reino, e polo de uma Pesoa: e outros destes enganos, que vam acompanhados, da-ignorancia da-lingua. Quem nam souber v.g. que Napoles, é nome de uma Cidade, e de um Reino juntamente; nam só confundirá os termos, mas tambem as coizas, que a ambas se-aplicam. E isto nam é somente dano da-Istoria, mas tambem impedimento, para a inteligencia da-lingua Latina. Acham-se alem diso muitas Cidades do-mesmo nome, em Regioens bem distantes. v. g. a antiga Geografia mostra-nos na Azia muitas, com o nome de Alexandria, de Seleucia, de Ecbatana, e bem longe umas de outras. O que quem nam sabe, persuade-se, que se-fala somente de uma: e nam intende a materia de que se-fala. E destes exemplos, de que abunda muito a Istoria antiga, se-colhe a necesidade da Geografia, ainda para a lingua. Serîa coiza ridicula, que um omem lese Q. Curcio, para intender as palavras, e nam para o sentido da-Istoria: ou que, sem a inteligencia desta, prezumise que poderia alcansar, a propriedade das-palavras. Muito mais sendo certo, que com o socorro da-Istoria, se-intendem muitas coizas, que sem ela é imposivel intender; e a inteligencia do-contexto abre a porta, para se-intenderem muitos nomes. É bem vulgar aquele lugar de Lucano,[23] em que, falando dos-Arabios, que sairam do-seu païz, diz = Umbras mirati nemorum non ire sinistras =: o que, sem Geografia, é imposivel intender. Virgilio diz lá em certa parte[24]: Gens inimica mihi Tyrrhenum navigat æquor =: Como se-pode saber sem Geografia, que coiza é aquele mar Tirreno? quem a-ignora, pode-o tomar polo mar Baltico, ou Etiopico, ou Pacifico. De que vimos a concluir, que, alem do-sentido istorico, a mesma propriedade das-palavras Latinas, nam se-alcansa em varias ocazioens, sem Geografia.
Parece-me pois, que uma breve noticia da-Geografia, deve ser o preludio, da-lisam dos-autores. A observasam das-principais Cidades, de que fala o autor, que se-á-de ler: das-viagens, que fizeram os conquistadores: os fins e limites dos-seus imperios: isto deve primeiro observar-se. Mas porque esta noticia serîa de-minuta, se a-nam-unisem com a noticia, da-Geografia de toda a terra; deve-se aprender esta noticia brevemente em um Mapamundo: ajuntando-lhe a noticia da-Esfera Armilar: das-divizoens do-Ceo, e da-Terra &c. O que com grande facilidade se-pode fazer: pois, como diz um omem douto, este estudo nam pede mais, doque olhos, e alguma memoria. Na Esfera Armilar conhece-se, a dispozisam do-Ceo, respetivamente à Terra: no-Globo, a dos-Reinos: e em uma carta particular, a da-Provincia, ou Reino de que se-trata. Advertindo, que quando se-falar em alguma Cidade, deve-se notar, de quais delas se-mudáram os nomes antigos, em alguns modernos. Acham-se cartas, que apontam os antigos nomes, das-Cidades da-Grecia, e Italia: e estas sam, as que principalmente se-deverám notar, para intender os escritores antigos, que faláram destas Regioens. Sophianus descreveo bem, a antiga Grecia: e Cluverius, a antiga Italia. E isto é precizo saber, comparando os nomes daquelas antigas Cidades, com os das-modernas; e procurando nas cartas modernas, os sitios das-antigas Cidades, muitas das-quais ja nam existem. Celario publicou um belisimo Compendio da-antiga Geografia, em 2. volumes de 4.o Tambem compuzeram Introdusoens Latinas Cluverio, principalmente para a antiga; e Luitz. Quem quizese maiores noticias deveria ler, o Petrus Bertius==Theatrum Geographiæ Veteris. fol. &c. e este mesmo autor compoz: Veteris Geographiæ Tabulæ. fol. &c. Este autor, que escreveo nos-principios do-seculo pasado, é famozo. Oje á muitos modernos que escrevèram bem, em Francez, ou Italiano. Duplessis, e Buffier escrevèram bons Compendios; que temos oje nas ditas duas linguas. Jacobo Ode fez tambem um belo compendio Latino: e é mais moderno. Os Senhores Sanson, e de l’Isle compuzeram cartas Geograficas, nam só de todas as partes do-mundo, mas especialmente, das-antigas divizoens do-Imperio Grego, e Romano &c. E isto é o que deve fazer o mestre, e ensinálo quando é necesario: porque desta sorte, acostumando os rapazes a buscar na carta, que deve ter na escola, a dita Cidade; imprime-se a Geografia na memoria, como quem brinca.
Em segundo lugar entra logo a Cronologia, que nam é menos necesaria, para intender os autores, e fugir os anacronismos, ou confuzam de tempos. Nam é necesario nestes principios entrar, nas disputas que á, sobre os principios dos-Reinos &c. isto é negocio, que pede grande estudo, e doutrina, e se-rezerva para outra idade. Basta apegar-se ao calculo mais recebido e comum, que poem a vinda de Cristo no-ano 4000. da-criasam do-Mundo: a que chamam o calculo de Usserius por-ser este autor, o que o explicou melhor. Aqui pois é necesario ler, em um breve compendio, a serie dos-tempos, desde o principio do-Mundo, até agora: notando os maiores sucesos, em que ano acontecèram: v.g. Diluvio de Noé, Vocasam de Abram, Saida dos-Ebreos do-Egito, Destruisam do-primeiro Templo de Jeruzalem, Vinda de Cristo, Paz da-Igreja &c. Especialmente deve notar o que emporta, para a inteligencia dos-autores, que quer explicar: e sempre que mudar de autor, deve notar, em que tempo escreveo, e de que tempo escreveo. para o que nam servem pouco, os Dicionarios Istoricos de Hofman, e Moreri &c.
Quanto aos Compendios de Istoria á tantos, que é superfluo, que eu aponte nenhum. Neste principio deve-se buscar, o mais breve. Por-iso me-parece, que o Petavio é mui longo. o Celario é bom, mas tambem nam é curto. Turselino, e alguns outros escrevem bem; mas em Latim. o Bossuet parece-me melhor para o principio; e acha-se em Italiano, ou Francez. Tambem o Valemont, no-primeiro tomo, traz uma carta Cronologica geral, que pode bastar para o intento. E como este volume está traduzido em Portuguez, parece-me, que por-ele deve ler o estudante: e o mestre pode servir-se, de quaisquer dos-apontados asima, que sam dos-melhores. Em quanto nam aparece alguma istoria Portugueza, proporcionada aos rapazes, que estudam nas escolas: aos quais basta dizer, o que é somente precizo, sem tantos rodeios: o que me dizem está atualmente fazendo, um omem douto meu conhecido.
É superfluo que eu mostre, a confuzam que nace, no juizo dos-pobres principiantes, por-falta de alguma noticia de Cronologia: e quanto podem errar, se derem credito a tudo, o que dizem os antigos escritores. Eles erráram em muitas partes, por-nam terem noticia dos-tempos: e para nós nam cairmos nos-mesmos erros, é que julgam todos os omens doutos, que sam necesarios, estes requizitos. Um omem que ouve falar em Alexandre Macedonio, e nam sabe, em que tempo ele floreceo; confundiloá com muita facilidade, com Alexandre Severo Imperador dos-Romanos. Filipe Macedonio, e Filipe Romano nam se-distinguem polo nome, mas polo diverso tempo em que florecèram. os dois Romanos tambem foram Reis de Macedonia: e a diversidade está, em que foram juntamente, Imperadores Romanos, e florecèram alguns seculos despois dos-primeiros. Esta confuzam se-aumenta, quando se-fala de omens do-mesmo nome, da-mesma Nasam, e talvez do-mesmo tempo. Ouveram alguns Marcos Catoens, Marcos Antonios, Marcos Brutos, Marcos Valerios, Marcos Ciceros, Apios Claudios &c. todos Romanos, e alguns contemporaneos. E quem nam distingue isto, nam pode formar conceito das-coizas. Isto suposto, alguma tintura de Cronologia é necesaria, para intender a Istoria, e, sem a inteligencia desta, nam se-pode intender o Latim, dos-que escrevèram nesta lingua.
Para facilitar este estudo é grande segredo, ter em caza uma carta Cronologica, de que se-tem feito algumas Latinas, em duas folhas grandes de papel. Acham-se umas tiradas das-obras do-P. Petavio, Latinas: estas, com a diferensa de poucos anos antes de Cristo, uniformam-se com as de Usserius. O Delfini fez umas em Roma, segundo a Cronologia do-Usserius, em 4 folhas grandes, que eu tenho, e sam boas. Lanceloti fez outras em Pariz, segundo a Vulgata, quero dizer, segundo o Usserius: e sam otimas, principalmente despois de Cristo. O P. Pedro de S.Catarina Religiozo Bernardo, fez outras em Fransa, seguindo o Usserius: sam boas, aindaque alguma coiza extensas. O Musanzio Jezuita Italiano fez umas, em quatro folhas grandes, se me-nam-engano, porque averá anos que as-vi; em que segue a Cronologia do-Labbé Jezuita, que poem a vinda de Cristo no-ano 4053. do-Mundo: mas nam sam más. Outro Jezuita, que é o P. Cassini, acrecentou-as por-ordem de Benedito XIII. O Sanson, e Perizonio &c. compendiáram tambem taboas boas. As do-Senhor Langloit sam otimas, mas cuido que nam sam para rapazes; porque unem os trez calculos Grego, Ebraico, Samaritano: o que carrega muito a memoria. O ponto está que o estudante abráse, uma Cronologia certa: e nam mude de cartas todos os dias; mas meta umas na memoria. Toda a diversidade está, antes da-vinda de Cristo: porque despois dele todos concordam, e é rarisima a disensam. Se algum curiozo traduzise, umas destas melhores taboas, em Portuguez, para uzo da-Mocidade, emendando-as em alguma parte, e acomodando-as à necesidade do-Reino; faria grande serviso à Republica. Eu comecei á tempos este trabalho, e tinha ideiado uma carta mui facil: mas impedido com outras ocupasoens, nam pude acabála. se V. P. tiver gosto, porlheei a ultima mam. Feito isto, deve-se ler um compendio de Istoria. Neste principio basta o Valemont, que já se-acha em Portuguez: e o mestre no-emtanto pode ler um compendio da-Istoria universal: v. g. o que fez o Cluverio em 4.o que é bom: e principalmente o que se-impremio em 1672. que é mais correto: E preparar-se para saber explicar, estas noticias aos dicipulos, quando falam na Cronologia. Mas disto falaremos em outra ocaziam.
Quanto pois às antiguidades Gregas, e Romanas, ou aos Uzos, e Costumes destas Nasoens; sam indispensaveis para perceber, os autores antigos. Um destes escritores nam escrevia para nós, mas para os seus: aos quais eram notorios os costumes, nam só publicos, mas tambem privados da-sua Nasam. onde aludindo aos ditos, nam se-cansa em os-explicar. Entam intendiam-no todos: mas oje nam. e é necesario para o-intender-mos, que procuremos esta noticia naqueles, que as-recolhèram. Um Istorico que na prezente era, contando as virtudes de um servo de Deus, disèse, que celebrava Misa todos os dias, tinha Extazis &c. como falava com gente, que o-intendia, nam tinha necesidade, de se-explicar. Se pudese suceder, que daqui a mil anos nam ouvese Misa, ou aquele livro caise em maons de outra Nasam, que nam tivese noticia de Misa; é certo, que nam intenderia, o que se-dizia; ainda que intendese a lingua: e serîa necesario, que primeiro intendèse, que coiza era Misa, e outros destes nomes; para dizer, que intendia bem a istoria, em que se-achavam estas expresoens.
Os antigos escritores em quazi todas as paginas, aludem aos seus costumes civis, e ecleziasticos. Falam de Flamines, Augures, Paterpatratos, Sacrificios, Apoteozes, Vestais &c. Encontram-se mil nomes pertencentes à guerra, Tribunus Militum, Tribunus Plebis, Centurio, Quinquagenarius, Decanus, Triarius, Primipilus &c. como tambem de machinas, e aparelhos belicos de muitas especies. A cada paso se-tropesa com o nome, de Consul, Proconsul, Prætor, Proprætor, Quæstor, Legatus, Edilis &c. cada emprego dos-quais tinha seu particular exercicio; sem a noticia do-qual, nam é posivel intender, a forsa da-expresam que o-significa. Quem nam sabe, que os Consules, que prezidiam aquele ano no-Senado, eram os mesmos aquem se-distribuîam as Provincias, onde se-fazia a guerra; e a quem se-entregava o governo do-exercito; nam poderá intender, como uma dignidade, que parece civil, se-introduza nas-materias militares. Quem nam sabe, que no-tempo dos-Consules, ouveram Tribunos Militares, os quais governáram a Republica em lugar dos-Consules, com imperio consular; e continuáram muitos anos com suas interrusoens; intenderá, que Tribunus Militaris nam era magistrado; mas valia o mesmo, que Tribunus Militum: que conrespondia aos Coroneis dos-nosos Regimentos. Quem nam tem lido, que no-mesmo ano se-elegiam muitos Consules, e Proconsules, ou muitos Tribunos Militares, para abrangerem a todas as necesidades da-Republica; justamente se-persuadirá, que, em se-falando de Consul, discorre-se damesma e unica pesoa. Quem nam souber, que os Pretores mandavam-se para as provincias pequenas, com imperio consular; intenderá, que se-fala somente do-Pretor Urbano, ou Peregrino, que administravam a justisa em Roma. Finalmente só os ignorantes, é que podem negar esta necesidade: os doutos todos a-reconhecem.
Nós nam temos Istoricos Latinos que escrevesem, os seus costumes patrios: sam os Gregos de quem recebemos, o que oje sabemos: porque como os Gregos escreviam, para os seus Gregos, aos quais nam eram notos, os estilos Romanos; tinham cuidado de lhe-advertir, tudo o que era necesario, para a inteligencia da-Istoria. Polibio deixou-nos uma particular descrisam, da-Diciplina militar, dos-Costumes domesticos, das-Leis publicas dos-Romanos. Dionizio de Halicarnasso, dos-Sacrificios, Magistrados, e toda a politica da-Religiam, e do-Estado. Plutarco tambem nos-ensina muita coiza. Mas como nem todos sam capazes, de lerem estes autores, por-iso será bom recorrer, aos Compendios. Joam Rossino fez uma boa colesam das-Antiguidades Romanas, em Latim: que oje se-acha acrecentada por-Dempsterus. Estima-se pola brevidade, a Republica Romana do-Cantelio: mas eu intendo que é melhor o Neuport=Rituum qui olim apud Romanos &c. Quem quizer maiores noticias pode-as ler, no-Corpus Antiquitatum Romanarum do-Grevio, em 12. tomos fol. que compreende todos, os que escrevèram nesta materia: e onde pode consultar-se alguma dificuldade, que ocorrer.
Tambem é bom, ter alguma noticia das-Religioens diversas dos-Antigos: e para isto pode servir, Alexander Sardi = de Moribus, & Ritibus Gentium. 12.o ou Joannes Bohemus Aubanus de eodem 16.o ou Van-Dalen = de Oraculis Ethnicorum. 4.o o mesmo de Idolatria 4.o obra moderna: ou o Barclai = Icon Animorum; para os costumes das-Nasoens: ou o P.Pomei = Pantheon Mythicum. Nam aponto outros livros, porque sam em linguas vulgares estrangeiras: aindaque estes, talvez sejam os melhores, porque expoem tudo com clareza, e brevidade. O mesmo digo da-Fabula, a que aludem todos os momentos, os Antigos. É necesario saber, esta mitologia dos-Antigos, para os-intender; e buscar autores que a-expliquem, sem a qual noticia, falarám muito, e nam saberám nada. Dos-Modernos é melhor, o Jovet = Istoria de todas as Religioens do-Mundo = 3. tomos de 4ᵒ que se-acha em Francez, ou Italiano.
Esta noticia é necesaria, senam aos rapazes, que se-divertem com outras coizas, ao menos aos mestres, que explicam os ditos autores: e, se a-nam-tiverem, por-forsa ám-de dizer muito des-propozito: e mostrarám ensinar, o que nam chegáram a intender. Ja sei, que chegando V.P. a este emportante ponto, me-proguntará, qual mestre conheso eu, que tenha toda esta erudisam: ou se me-persuado, que um rapaz, que saie das-escolas, e que nam tem no-corpo mais, que quatro anos de Filozofia, asim ou asado, quando entra a ensinar nas escolas baixas; seja capaz desta doutrina tam necesaria, para fazer bem a sua obrigasam? A isto respondo, que quanto à capacidade, ninguem lha-pode negar: pois este pezo nam é maior, que as suas forsas. Bastaria que o-obrigasem, e ensinasem a estudar isto que digo, mostrando-lhe a necesidade que á de o-intender, para poder fazer a sua obrigasam; que ele faria tudo, o que era necesario. E se acazo introduzisem, este metodo nas escolas, e o-protegese quem pode fazèlo, continuarseîa, damesma sorte que se-conserva, o metodo ordinario. Reconheso, que serîa alguma coiza dificultozo, persuadir a muitos omens mosos, que, aindaque ensinem o Latim, nam só tem pouca noticia dele, mas nem menos tem noticia, do-que é necesario, para o-saber: o que serîa facil provar-lhe, fazendo-lhe uma exata lista dos-requizitos; e proguntando-lhe, se os-posuiam. Mas emfim tudo se-vence, tratando-se com pesoas de juizo, piedade, e docilidade: e as razoens que apontamos, poderiam obrar muito, se tivesem a paciencia, de as-quererem ler, e intender.
Suponho pois que o estudante, tem alguma noticia, do-que asima apontamos, ou que polo menos a-tem o mestre, que seja capaz de lhe-explicar em poucas palavras; e apontar-lhe os livros, onde se-podem beber estas noticias: (as quais podem-se ir aprendendo no-mesmo tempo, que se-explicam os autores, explicando uma ora cada menham, alguma parte delas) Apontarei agora o modo, com que se-deve regular, no-estudo da-Latinidade. Em primeiro lugar, deve somente procurar de saber, a propriedade dos-vocabulos: para o que deve buscar autores, que falasem mui naturalmente, e com estilo familiar. Para isto nam á melhores autores que Plauto, e Terencio: porque ainda-que em alguns lugares sejam, ou paresam oscuros; falam porem com estilo familiar, e com fraze naturalisima, e longe de ornamentos: que é toda a dificuldade na inteligencia da-lingua. Certamente Terencio é um autor, que nam tem preso, pola pureza da-lingua: e tambem é certo, que estes Comicos parecem mais Prozadores, que Poetas. Onde nam poso asás rir-me, quando ouso a alguns mestres responder, que Terencio nam é para rapazes, porque é oscuro. Os que asim falam, nam leram Terencio, nem sabem Latim. Proguntára-lhe eu, se é mais oscuro Terencio, que Oracio: ou se prezumem eles, que este, e Virgilio sejam mais claros, e proprios para rapazes, doque um Comico. Se bem considerasem estes, quanto é necesario para dizer, que intendem Oracio, e a Eneide; certamente julgariam diferentemente. Mas com estes omens nam falamos. O certo é, que Cicero julgou,[25] que a poezia Comica, nam se-distinguia da-Proza, senam em ser escrita como verso: mas nam na dificuldade. e tambem ninguem duvîda, que a Proza é mais facil, que qualquer Poema.
Em todo o cazo devem-se ler estes autores, com os Comentarios: e o mestre deve suprir com a explicasam; nam traduzindo muito; mas ese pouco com tal clareza, que nam fique dificuldade alguma ao rapaz. Quem nam souber explicar bem Terencio, pode contentar-se com Fedro. Este autor tratou argumentos simplezes, que sam certas fabulas, com uma disam pura e natural: e, aindaque Poeta, parece Prozador; e para principiantes é famozo. É estimada a edisam, que o douto Gronovio nos-deu, de Plauto. Sobre Terencio muitos tem escrito, mas nem todos bem. Com razam se-dise, que Farnabio, e-Minelio, afetando brevidade, deixáram mil coizas emportantes. Madame le Fevre publicou a mais bela tradusam, e notas sobre Terencio, que até o seu tempo tinha aparecido: mas é em Francez, lingua que nem todos intendem: como tambem Monsieur le Fevre seu Pai, tinha ilustrado eruditamente Fedro. No-estado prezente servirmeîa da-edisam de qualquer deles, ad usum Delphini, &c. que parece ser a mais toleravel, das-modernas.
Estes primeiros autores nam se-devem ler correndo, como muitos fazem; mas devem-se ler, e reler atentisimamente. v.g. lendo Fedro deve o mestre, nam deixar de explicar coiza alguma, que seja necesaria, para intender a lingua. Onde deve notar e explicar, todas as dificuldades de Sintaxe: porque aindaque na Gramatica se-expliquem, somente lendo os autores se-intendem bem. E terá cuidado, de reduzir a construisam embarasada e figurada, ao modo de falar natural: explicando a Figura, em que se-funda. Despois, notará a propriedade das-palavras. E quando encontrar algumas, que paresam sinonimas, deve ensinar, se verdadeiramente o-sam, ou que coiza acrecentam. Em terceiro lugar deve ensinar-lhe, a pronunciar bem o Latim: que é o que comumente nam sabem em Portugal: pois ainda os mesmos mestres, pronunciam as palavras corrutamente. v. g. Em Omnis nam proferem o m: os tt finais pronunciam como dd: o m final pronunciam como n: e entre e, e a sempre pronunciam superfluamente um i. v. g. Meam, Deam &c. os ss finais como x. O que sem duvida é grande defeito da-pronuncia: deixando por-agora outros erros, que se-podem notar. Alem diso oferecendo-se-lhe algum termo, do-Latim antigo, deve ensinar, o modo antigo de pronunciar. v.g. Maxumus, Militiai &c. Estas noticias dam muita erudisam, a quem estuda o Latim: e como muitos nam fazem cazo delas, por-iso ignoram, o que é Latim, e todos os momentos encontram, dificuldades novas. Isto que digo de Fedro, deve-se intender de qualquer outro autor: Mas isto é o que muitos nam intendem: antes querem ler muito, intendendo poco; doque saber bem a lingua, com um só livro. De que vem, que a Mocidade nam aprende nada, com o seu metodo: pasam-se os anos nas escolas baixas, que se-deviam empregar, em coizas mais utis: pois na verdade quem nam reflete, como deve, no-que le, tanto emporta que leia Cicero, como os atos de Maria Parda.
O que emporta muito no-principio é, nam dar aos rapazes livros, que tenham periodos longos: mas breves, e com fraze natural. Por-esta razam alguns Italianos doutos, e despois deles os Francezes, aconselham, que no-principio devem-se fugir, as istorias difuzas, os Oradores, e coizas semelhantes: especialmente os Poetas Eroicos &c. e que é melhor, tirar de Cicero, e outros autores elegantes e claros; tirar, digo, alguns paragrafos melhores: indireitar as frazes, e transpozisoens dos-Verbos: e polas na ordem natural. Sendo breves, e elegantes, podem os rapazes intendè-las, e tirar daî grande utilidade. A experiencia mostrou-me, que diziam bem: pois vendo eu, que alguns rapazes nam intendiam, os discursos compridos, e as figuras da-orasam; feita esta experiencia, intendèram tudo facilmente.
Mas isto que a estes aconselho, acha-se feito ja por-omens doutos: os quais escolhèram entre os autores, as coizas mais facis, e melhores, e reduziram-nas a capitulos diferentes: v. g. às quatro virtudes principais: para que os rapazes, nam só aprendam a lingua, mas tambem o moral das-asoens. A maior parte sam de Cicero: mas tambem se-acham de outros autores. Sam trez livrinhos pequeninos, impresos em Pariz: e tambem se imprimîram em Italia na Cidade de Pezaro, em 1740. Estes livros valem um mundo, e tem aproveitado a infinitas pesoas: e quem ajudáse com eles os seus dicipulos, conheceria a verdade do-que dizemos. E por-esta mesma razam digo, que a leitura dos-Comicos, é infinitamente util aos rapazes: v. g. a de Terencio. todos os periodos sam breves: rarisima vez se-acha transpozisam mui oscura: e os modos de falar, sam tirados do-estilo comum: motivo polo qual, sem trabalho se-intendem. Plauto tambem serîa bom: mas como tem bastantes palavras antigas, ou escritas no-antigo modo, nam é tam proprio, para principiantes. Oracio nam o-aconselho: nem outros semelhantes, que pedem maior erudisam. Em lugar de Oracio nestes principios, aconselharia Catúlo, que é nam só purisimo Latinista, mas mui natural, e com infinitas grasas. Devem-se separar, os poemas impudicos, e explicar os outros, com todo o cuidado, e diligencia.
Mas, supondo que o mestre, nam tem os ditos livros, direi o que deve fazer, despois da-leitura de Fedro, e Terencio. Deverá pois explicar em outra clase, as cartas de Cicero, a que chamam Familiares, com os comentários de Manucio, ou ad usum Delphini, que sam otimas: nam todas juntas, mas saltiadas. Onde deverá preferir, as que escreve a sua molher Terencia, e a seu liberto Tiro: como tambem as de recemendasam. Estas sam as mais naturais, breves, e claras: desorteque nam enfadam o estudante: porque sam compostas naquele estilo familiar, que todos intendem. Vi nam á muito tempo uma pequena colesam, destas mais facis epistolas de Cicero, cuido que impresas em Padova; que eram otimas, para estes principios. Despois, na mesma clase pode ler, os Istoricos mais facis: como sam Caio Cezar, Cornelio Nepote, Veleio Paterculo. Estes trez escrevèram no-seculo da-mais pura Latinidade, e sam incomparaveis: principalmente os dois primeiros, que sam sumamente naturais, e claros. Mas estes autores nam se-devem ler seguidos: sim interrompidos, e tirando deles os lugares mais singulares. Se o estudante, tiver feito aproveitamento no-Terencio, e tiver ja lido alguns extratos, reduzidos à ordem natural; basta explicar-lhe estes autores, sem mudar a ordem das-palavras: paraque pouco a pouco das-coizas facis, vá intrando nas dificultozas. E terá o mestre a advertencia, de nam obrigar sempre os rapazes, a que traduzam de repente: mas em dias alternados. E comumente deve ordenar-lhe, que escrevam em caza a sua tradusam: e quando vierem à escola, fará que dem a razam, de tudo o que traduzîram. Este modo de ensinar, aproveita muito, e imprime as coizas na memoria. polo contrario o metodo comum, de dizer de cór, é falar como papagaio, e exposto a mil enganos. Onde deverá o mestre cuidar muito, em que escrevam as suas tradusoens; pois com o tempo serve isto, para ensinar a traduzir bem: que é o que muitos nam sabem.
Quando o estudante chega a este estado, pode-lhe ordenar, que componha alguma coiza: mas sempre asumtos breves: pola maior parte tirados das-obras, que traduz: o que pode fazer trez vezes na semana. Eu comecaria polas cartas: que é um modo de compor facil. Uma ou duas vezes darlheîa as partes: tendo cuidado de escrever primeiro, uma carta Portugueza pequena, e com ordem natural. Ou traduzir uma pequena de Cicero, que serîa o mais acertado: obrigando-os a que compuzesem outra semelhante, sem porem se-servir em tudo, das-mesmas palavras, e fraze. Despois, daria outra carta facil, sem partes: obrigando-o a que as-buscáse: e ensinando-lhe o modo. Em 3.o lugar daria uma carta mais elegante, sem a ordem natural: porque se acazo se-acostumam, a escrever o Latim conrespondente ao Vulgar, nunca saberám fazer outra coiza. Despois diso, pasaria a outro asumto mais dificultozo, e sempre breve. v.g. a discrisam, ou carater, de uma pesoa determinada: no-que é singular Velleio Paterculo. ou obrigalosîa a referir, algum pequeno suceso: dando-lhe primeiro o Portuguez; e deixando-lhe a incumbencia, de pòr o Latim. Isto é quanto pode fazer um rapaz, no-dito tempo: e se o-chega a fazer, nam faz pouco. Com o tempo, e quando for lendo outros autores mais dificultozos, é que lhe-podem dar outros asumtos: porque o rapaz, em quanto estiver na Latinidade, deve fazer duas coizas, compor, e traduzir. Deve porem o mestre fugir, de lhe-dar pensamentos e sentensas oscuras, por-tema; porque as-nam-intendem: e neste tempo nada mais se-procura, que ensinar-lhe que coiza é, pura Latinidade. Quando o mestre ler as compozisoens, deve emendálas, e dar-lhe a razam, de tudo o que faz. Ao principio somente cuidar, na propriedade: com o tempo ensinar-lhe tambem, o que é elegancia, e particular idiotismo da-lingua Latina: mostrando-lhe como se-deve traduzir, tanto de Latim em Portuguez, como de Portuguez em Latim. Serîa bom que o mestre algumas vezes, traduzise ele mesmo, algum paso de Cicero &c. e o-propuzese ao estudante por-tema: nam lhe-deixando ver o original, senam despois de feita a compozisam: paraque asim reconhecese o moso a diversidade, entre o que tinha feito, e devia fazer. Mas isto somente se-pode fazer, nas clases altas, e quando ja o rapaz tem noticia bastante, da-Latinidade: porque desta sorte, é que se-aprende, qual é o estilo dos-bons autores.
Pode, despois dos-ditos autores, explicar os Istoricos mais dificultozos: que sam Tito Livio, Salustio, ou tambem Quinto Curcio. O qual Curcio, aindaque se-suponha ter escrito, no-reinado de Vespaziano, que era a idade de prata; ou, como diz Scioppio, o principio da-idade de bronze da-lingua Latina; contudo, é escrito com a mais pura Latinidade do-seculo de Augusto: e o estilo é belisimo. Livio é mais copiozo, e magestozo, e digno da-grandeza do-Imperio Romano. Quanto a Salustio, convem todos, que as suas frequentes Ellipsis, e o demaziado laconismo, fazem-no duro, e oscuro: mas é escritor de sumo pezo, e singular eloquencia. Nam me-parece porem, proprio para rapazes, polas muitas e mui fortes metaforas, e bastante oscuridade. Onde o meu parecer serîa, que dos-dois primeiros, se-tirasem alguns lugares escolhidos, para se-explicarem aos principiantes. Na mesma ultima clase podem-se explicar, alguns extratos das-orasoens de Cicero, principalmente das-mais facis, que sam: Pro Archia Poeta: Pro lege Manilia: Pro Marcello: e as Catilinarias. Mas obrigar um rapaz, a que as-vá traduzindo seguidamente, e inteiramente, como costumam muitos, é intender mal o negocio. Nenhum omem pode ler com gosto, uma inteira orasam de Cicero, se nam é um grande Latino, e Retorico: e á orasoens de Cicero tam longas, v.g. as Verrinas, que ainda um omem douto, nam as-le, sem se-cansar. Ler uma pagina oje, e no-seguinte dia outra; é ainda pior: porque se-perde o sentido, e nam se-intende o que se-explica: de que nace o enfado, nam só nos-rapazes, mas nos-grandes. Onde o melhor é, procurar alguns pasos breves, e escolhidos: uma descrisam: um inteiro argumento: um inteiro periodo do-exordio. O mesmo digo, daqueles que explicam, o Somnium Scipionis, o livro de Senectute, Amicitia, &c. quem faz isto, nam intende o que faz. Os ditos livros nam se-podem intender, sem saber a istoria: da-antiga Filozofia: o que nam deve, nem pode um rapaz. Eu, tendo lido algumas vezes Cicero inteiramente, só o-cheguei a intender, (se é que o-intendo) quando li em Laercio, e Plutarco, a istoria das-setas dos-Filozofos. Os que introduziram o estilo comum, e que achamos no-livro a que chamam, Selecta, certamente ou nam refletîram, ou nam intendiam isto: porque dam aos rapazes, livros muito diferentes, e que só sam para omens adiantados. Salustio nam é para rapazes. Ouvîram dizer, que os livros pequenos de Cicero, eram perfeitisimos no-seu genero; e sem mais reflexam os-traduzem. Mas polo mesmo principio deviam explicar, os livros de Oratore ad Q. Fratrem: Orator ad M. Brutum: e os trez de Officiis: que sam a melhor coiza que ele fez, neste genero. Acho porem outras razoens, que se-devem atender, quando se-fala com principiantes.
Quando o rapaz traduz estes autores mais dificultozos, com a mesma ordem que se-acha neles, entam é precizo, que escreva a sua tradusam. A razam é, porque estes autores uzam de muitas transpozisoens, frazes, e figuras, as quais nem sempre se-podem traduzir literalmente: e asim querer que um rapaz, de repente ache o verbo, ou perifraze propria, é loucura: e vale o mesmo que ignorar, que coiza seja tradusam. Os mestres ao seu bofete, muitas vezes nam acham, a palavra propria, para a boa tradusam: como mostra bem o famozo Monsieur Huet, no-seu livro==de Claris Interpretibus==: em que, aponta os defeitos, em que caîram os omens grandes: E se isto sucede aos doutos; como é posivel, que o-fasa derepente um principiante? O que suposto, deve o mestre dar-lhe tempo, para escrever em caza a sua tradusam: ou ao menos na escola. E despois ensinar-lhe, como se-deve traduzir bem de Latim em Portuguez: porque intendido isto bem, conhece-se como se-devem converter as mesmas frazes Portuguezas, em outras Latinas: ao que chamamos, boa Latinidade. Por-esta razam digo, que o que fez aquele livro, a que chamam, Pai Velho; que poem a tradusam de Virgilio, ou o que quer que é, palavra por-palavra; merecia ser asoitado polas ruas publicas: e tambem os mestres, que se-servem dele: e o livro, queimado em prasa publica. Nam á coiza mais prejudicial para a Mocidade, que semelhantes livros: pois mostrando ensinar a traduzir, sam a cauza, de que se-nam-saiba. O pior é, que os mestres praticam o mesmo, que diz o livro, nas suas tradusoens. Cujo metodo é tal, que ou os rapazes estejam dez, ou vinte anos nas escolas, nunca intenderám Latim: como na-verdade sucede: pois traduzindo todos Virgilio, nenhum o-intende. Achei-me em certa parte, emque um celebre mestre traduzia, o principio do-quarto livro da-Eneida: At Regina gravi jamdudum saucia curæ &c. palavra por-palavra: e tam pago de si mesmo, como se fose, o melhor interprete do-mundo. Dise eu a um-discipulo, que escrevese a tradusam do-seu mestre, e despois lha-mostráse, proguntando-lhe, se era boa aquela tradusam. Asim o fez: e o mestre, cuidando que era coiza do-dicipulo, foi o primeiro que dise, que nam prestava para nada. Pois esta, replicou o discipulo, é a que V.P. ontem dise. Envergonhado o mestre, quiz saber, quem lhe-dera o conselho, e respondeo: Que uma coiza era, compor na banca, e outra, explicar na escola. Que parvoice! esta propozisam vale o mesmo que dizer: Que na banca se-deve compor bem: e na escola explicar mal. A falar a verdade quem explica a rapazes o dito livro, ou coiza semelhante, sabe mui pouco: porque pola maior parte aquelas palavras, nam se-devem tomar no-proprio sentido, mas metaforicamente: e explicálas segundo o sentido do-Poeta. E por-este motivo torno a dizer, que os Poetas, principalmente Eroicos, nam sam para rapazes, que estudam Latim. Confeso a V.P. que ainda nam ouvi um mestre, que na escola disese: Esta palavra, nam se-pode traduzir bem: é necesario explicála asim. mas todos seguem o comum estilo, que é muito mao. Onde a minha regra geral é esta: Quando ouso um mestre, que, explicando livros eloquentes, traduz asim: Petrus Pedro: Amat, ama: Joannem, a Joam: sem mais outro exame asento, que nam sabe Latim. Deve o mestre praticar outro estilo, se quer que aproveite aos estudantes: e o melhor é, o que aponto. Isto basta por-agora, sobre a tradusam.
Quando digo, que se-devem ler estes livros, nam quero dizer, que se-leiam todos: mas um, ou outro dos-que aponto; que sam os melhores, e mais proporcionados ao noso cazo. Mas tambem é certo, que, lendo-os como digo, quazi se-podem ler todos. O principal ponto está, em seguir a ordem que insinuo: porque sem ela, nacerá confuzam e impedimento, como todos os dias observamos no-metodo vulgar: sendo certo, que primeiro se-devem ler, os que faláram a lingua naturalmente, doque os que abundam muito de metaforas, e mil outros ornamentos dificultozos. Mas nem menos isto basta, se o mestre nam explicar o que deve. Onde o ponto de toda a consideram consiste, no-modo da-explicasam. Quando pois o estudante estiver adiantado, deve o mestre, alem das-coizas que asima apontei, explicar outras. v.g. a sintaxe dificultoza: a forsa das-palavras: o modo de pronunciar antigo: e notar outras coizas, que se-encontrarem. Porque os rapazes das-escolas maiores devem saber, nam só o que é Latim puro, mas tambem as outras particularidades, que constituem a elegancia. Acham-se autores, que se-servem de palavras Latinas, e contudo nam tem aquela particular grasa, a que chamam os inteligentes, boa Latinidade. Consiste esta às vezes, em uma fraze inteira: tambem em um diminutivo, ou frequentativo &c. coizas que dam infinita grasa ao estilo Latino; e frequentemente se-acham, nos-melhores autores Latinos, como Terencio, Cicero &c. Onde, este deve ser o cuidado do-mestre: mostrálas quando ocorrem: e notar a particular grasa que tem, naquele lugar. Deve tambem notar o modo, com que os bons autores comesam, ou acabam o discurso, ou os unem entre si, quando compoem uma orasam inteira. Esta uniam consiste às vezes, em uma conjunsam: às vezes, em outra particula. E este é o particular estilo da-boa Latinidade: que necesariamente se-deve ensinar aos rapazes, paraque o-executem, quando compoem. Alem disto, quando encontrar alguma expresam oscura, ou porque é fundada em uma fabula, ou coiza semelhante, deve explicála. Desta sorte se-intenderám os autores, e se-poderá tirar proveito da-sua leitura. E isto é o que um mestre douto faz, com muito gosto, porque conhece a utilidade, que daqui rezulta: e só entam pode repreender com justisa os rapazes, quando da-sua parte faz tudo o que deve, para os-ensinar.
Mas antes de concluir isto, quero dizer alguma coiza, sobre as edisoens deses mesmos autores, que tambem é noticia util. Em todo o cazo devem-se procurar, as melhores edisoens destas obras, as mais corretas, e com boas notas. Todos os livros comentados ad usum Delphini, aindaque uns sejam melhores que outros, comumente, e principalmente para o noso cazo, sam bons. mas devem ser da-edisam de Pariz, ou de Olanda: porque as de Italia modernas, nam prestam para nada. Emporta muito ter o texto correto, para se-nam-enganar, neste particular. Os Olandezes sam famozos. As edisoens de Grevio, e Gronovio, e outros omens doutos, aindaque nam tenham notas, (mas quazi todas as-tem) sam corretisimas. a edisam de Cicero por-Verburgio, cum notis variorum, em Olanda é exatisima. Em Inglaterra tambem fizeram algumas boas: e a imprensa de Inglaterra, e Pariz é mais negra, que a de Olanda: e por-iso agrada mais. Isto que digo das-edisoens, se-intenda, nam só dos-Prozadores, mas dos-Poetas. O que porem encomendo muito ao estudante é, que, nestes principios, se quer saber Latim, leia poucos livros: mas eses que escolher, leia-os tantas vezes, e com tanta atensam, como se ouvesem de ser eles, o seu unico estudo. na segunda vez achará menores dificuldades: e asim nas outras. Isto basta, para ser um grande Latino. Nem aconselharei a rapaz algum, que leia os Poetas. Para saber Latim, é escuzado, e serve de impedimento: na Retorica é melhor que se-leiam: mas é melhor quando sam grandes. Porem por-nam deixar de dar metodo, na leitura dos-autores, direi brevemente o modo: e servirá, para os que se-quizerem aplicar totalmente a isto.
Digo pois, que os que quizerem aplicar-se à leitura dos-Poetas, podem fazèlo, despois de ter feito estas preparasoens: procurando somente, os mais estimados polos doutos. Para intender estes é necesario, ler algum tratado, que explique a Mitologia dos Antigos: e que nos-de uma noticia breve das-fabulas, à que eles todos os momentos aludem. Isto posto, deve-se ler Ovidio nas Metamorfozes, e Fastos, em que explica toda a Mitologia: despois as Eroidas, que sam as suas melhores obras, e as mais facis. as outras podem-se rezervar para outro tempo. Despoîs, ler Virgilio todo atentisimamente: ao qual deve seguir Oracio, nas suas Odes; melhor direi, todo, porque é um autor inimitavel. Querem muitos, que com este se-leia, Gracio Falisco, Olimpio, e Nemesiano, Poetas Bucolicos: aindaque na verdade sejam muito inferiores, a Oracio. E finalmente, Estacio, e Lucano. Isto basta para ter, uma grande noticia de Poetas: principalmente lendo-se, com a devida atensam. E quem tiver bem estudado os ditos, pode, sem mais mestre, ler qualquer dos-outros, que se-oferecer: mas apontarei alguns. Quem pois quizer ler amores, veja Ovidio, de Arte amandi, Catûlo, Tibûlo, Propercio: que sam todos no-seu genero famozos. Os melhores satiricos sam, despois de Oracio, que é o mestre; Juvenal, e Persio. Marcial é um autor, que entre mil coizas insulsas, tem algumas boas. agradam mais aos omens inteligentes de Poezia, e Latinidade os Epigramas de Catûlo. Quanto a Lucrecio, e Manilio, sam juntamente Filozofos, e Poetas: e o primeiro sempre teve, e ainda conserva, muitos admiradores; e é um puro Latinista. Nisto se compreende, o melhor da-Antiguidade.
Sobre as edifoens á pouco que dizer. Todos estes autores foram comentados, para uzo do-Delfim de Fransa, por-ordem de Luiz XIV. Estas edisoens sam melhores que as antecedentes: e as concordancias que se-fizeram, de cada um destes autores, valem infinito, para a inteligencia dos-vocabulos da-lingua: pois mostram os diferentes uzos, e a forsa das-expresoens. Alem das-Delfinas, á outras edisoens anteriores, que tem seu merecimento. Por-pouco que um omem se-familiarize com os livros, e consulte os Bibliotecarios impresos, e trate os omens que sam verdadeiramente doutos; conseguirá todas as noticias necesarias, para se-regular na eleisam dos-livros, e edisoens. Mas quem quizer ler estes autores, advirto-lhe, que os-nam-leia seguidos, sim interrompidos: pois nem tudo neles é igualmente bom. Onde, devem-se colher as coizas melhores: porque esta sorte de leitura agrada: uma longa leitura enfastia, e só serve para um omem, que nam fasa outra coiza. Nam aconselho, que se-expliquem Poetas nestas escolas: mas que aja uma ou duas separadas, em que somente se-trate esta materia.
E ja che falamos de livros, necesarios para a inteligencia do-Latim, deve tambem o estudante saber, de quais se-deve servir, para compor &c. Nisto á muito abuzo; porque comumente alguns aconselham livros, que nam prestam. O Cardial Adriano = de Sermone Latino; Huberto Gifanio, nas suas Observasoens, Tomaz Linacer, sam autores famozos, para ensinar o modo, de escrever bem: principalmente o ultimo. Enrique Estevam, e o Vossio, escrevèram bem sobre as palavras, que nam sam Latinas, ou que o-parecem. O Ducange fez um belo Dicionario, de Infima Latinitate: que oje se-acha mui acrecentado, polos Beneditinos de S. Mauro, e cuido que sam, alguns seis tomos de folha. O Dicionario Etimologico de Vossio, pode dar grande e fundada noticia, da-Latinidade. Nizolio, e Carlos Estevam, compoz cadaum seu Dicionario, para as vozes que se-acham em Cicero: mas o ultimo é melhor, que o primeiro. Para ter noticia de toda a Latinidade, e ver o uzo dos-vocabulos, é necesario consultar, o Tezoiro da-Lingua Latina, de Roberto Estevam. 4. tom. para os rapazes, pode servir o Calepino de Facciolati, que é mais breve. Para ver as diferensas das-palavras, é utilisimo Anzonio Popma, e o P. Vavassor Jezuita, e tambem o Borrichio. Para saber o uzo, e forsa das-Particulas da-Latinidade, é famozo o Stevvechio, e despois dele o P. Turselino, da-edisam do-Facciolati. Os mestres podem ler o Tomasio, e Schvvartio, que sam amplisimos. As Fraseologias nam as-aconselho a ninguem: mas das-melhores, é a de Manucio, que compendiou as de Terencio, e Tullio: e melhor que este, o Pareo, que acrecentou as de Plauto: e fez mais outras obras utis, para a Latinidade. Acham-se mais alguns autores, como o Schorus, Cellarius &c. que escrevèram nestas materias: mas estes que apontamos, sam os melhores. E estas noticias bastam ao principiante: as outras aprenderá com o tempo.
Tenho dito o meu parecer, sobre o modo facil de aprender, a boa Latinidade. Mas antes que acabe, direi a V.P., que para conseguir este fim, e saber compor com facilidade, conduz muito, ter a memoria cheia de muitas especies. Sem ela nada vale a aplicasam: vistoque a nosa ciencia nada mais é, que a simplez memoria, do-que temos estudado. Ninguem duvîda, que a memoria com o exercicio se-aperfeisoa, principalmente nos-rapazes: e que todo o trabalho, que nisto se-poem na mocidade, serve muito, para quem á-de seguir os estudos. Mas a dificuldade está, em saber cultivar a memoria. Quem obriga os rapazes, a aprender muito verso, e muita arenga; faz-lhe mal, cuidando fazer-lhe bem. Eu comparo a memoria, cheia de semelhantes ideias, a uma livraria grande, cujos livros nam estam nas estantes, mas amontoados no-meio, e polos cantos: quem nela procura um livro determinado, nam o-encontra: mas ofrecem-se-lhe cem mil, que nada fazem ao cazo. Damesma sorte a memoria mal regulada: quando lhe-pedem uma ideia, ofrece tantas, e tam fóra do-propozito; que é o retrato da-confuzam: de que nace, que nunca se-aprendem bem, as outras Ciencias. Isto suposto, deve cuidar o mestre, em exercitar a memoria dos-principiantes, em algumas determinadas materias. Primeiro, acostumálos a dizerem em breves palavras a lisam, que ám-de explicar. Despois, explicará aos ditos, alguns pasos seletos de autores, principalmente Poetas: v.g. alguma das-fabulas de Fedro, ou Ovidio: mas curtas, e sempre agradaveis; pois só asim entram. Nestas, os rapazes devem dizer primeiro, o que contem: despois, poco a pouco ir repetindo, todas as palavras: com o tempo pode-se aumentar, o numero dos-versos. E este exercicio pode-se fazer dois, ou trez dias da-semana. Quando o rapaz tem algum exercicio; entam tem lugar, servir-se de metodo, nas coizas que decora. Onde tera cuidado de lhe-ensinar, algumas descrisoens, algumas exortasoens, ou-breves orasoens &c. mas primeiro explicar-lhas bem: pois sem iso é querer, que pronunciem como papagaios. Nisto nam devem molestar os rapazes, com pancadas: mas animálos com premios, a que decorem bem algumas coizas: remunerando ou louvando, os-que o-fazem melhor: sempre coizas utis, e que posam servir com o tempo. Mas deve cuidar muito o mestre, de nam permetir aos rapazes, a leitura destes livros de Fraseologia, antes banilos, como coiza mui prejudicial. Sam càpas de romendos, cadaum de sua cor, que nam podem fazer coiza boa. cauzam preguisa aos estudantes: e arruinam o bom gosto da-Latinidade. Devem-se escolher as descrisoens &c. nos-mesmos livros que estudam: e mandar-lhe aprender as frazes, nos-mesmos autores que traduzem. O mais é madrasaria, e ignorancia.
Tenho ainda outra reflexam que fazer: é esta, sobre o falar Latim nas escolas. Nisto á dois vicios: alguns falam sempre a sua lingua: de que vem, que saiem das-escolas, sem saber dizer, um comprimento Latino: e este é o defeito, que reina em Portugal. Outros, que pola maior parte sam Polacos, Ungaros, Alemaens, obrigam a falar sempre Latim: ainda antes de intenderem bem Latim. Tambem isto é um grande defeito: pois se os que sabemos bem Latim, nam podemos falar com dezembaraso; que fará um rapaz, que ainda o-nam-sabe! Esta é a razam, por-que vemos muitos destes Estrangeiros, (e eu vi tambem molheres) que falam Latim corrente. mas que Latim? um Latim tal, que é melhor nam intendèlo. Para falar Latim depresa, servem-se de frazes barbaras, e termos vulgares: e enchem a cabesa com aquilo, em modo tal, que em nenhum tempo podem deixar, o dito estilo. Nam sei que grasa tem cansar-se, para escrever Latim bem, e cansar-se tambem, para falar Latim mal: nem menos intendo, que necesidade aja, de falar semelhante Latim. Quem á-de fazer jornadas, por-paizes Estrangeiros, se sabe bem Latim, nunca tem dificuldade em se-explicar, se acazo tem algum uzo. que o-fale mais ou menos depresa, iso nada emporta. Nem menos aprovo, aquela afetasam de alguns Portuguezes, que, querendo falar Latim com algum Estrangeiro, estam meia ora a considerar, um periodo Ciceroniano: e desprezam as vozes vulgares. Este tambem é outro defeito consideravel. Se os que falam Portuguez afetado, nam se-podem suportar; que faram os que falam com afetasam, o Latim? O Latim das-conversasoens deve ser, o mais natural de todos. o ponto está ter palavras puras: a sintaxe delas deve ser natural, e clara. V.P. nam verá afetasoens em Terencio, ou Plauto, ou Fedro, porque falavam com estilo familiar. A lingua Latina tem isto de bom, que se-caza com a elevasam, e naturalidade. Onde, devemos saber aplicar o estilo, à materia; para conseguir o fim, de falar com muita naturalidade, e nam falar mal.
Isto supposto, parece-me que deve aver nas escolas, algum exercicio de Latim: mas requerem-se algumas cautelas. Primeiro, nam se-deve falar Latim, senam na ultima escola da-Latinidade, ou da-Retorica: quando ja os rapazes, intendem bem o Latim. Em segundo lugar, nam devem falar Latim sempre, mas em dias determinados. Primeiro, podem ensinar-lhe a dizer, alguns comprimentos de uma, e outra parte: despois, pode-se introduzir algum Dialogo, sobre a materia que se-estuda: em que de uma parte, um rapaz progunte alguma coiza: da-outra, responda outro, sempre em Latim. Mas primeiro deve o mestre explicar, como isto se-deve fazer: e ser ele o primeiro, a dar exemplo. E nam deve obrigar todos, a que falem no-mesmo dia: mas comesar polos melhores: despois por-turno os outros, em dias determinados: avizando-os primeiro, para que venham preparados. Desorteque cada estudante ousa falar muitas vezes, os outros: e asim vá aprendendo, para quando lhe-chegar a sua vez. Pode o mestre falar a miudo, algumas coizas Latinas, com algum dos-estudantes, que forem mais capazes, ainda fóra dos-dias asinados: tendo cuidado, de falar bem; e ensinar-lhe sempre, o como se-deve falar. Desta sorte pode ajudar muito, os estudantes: principalmente se souber excitar entre eles, a emulasam, louvando muito os que o-fazem bem, e remunerando-os. Este é o verdadeiro metodo, de ensinar a falar Latim. Comesando desta sorte, mais facilmente o falarám, nas escolas da-Filozofia: e deste modo aquistarám aquela facilidade, que é necesaria, a quem á-de seguir as letras.
Isto é o que me-ocorre dizer, sobre o estudo da-lingua Latina: poderia acrecentar muita coiza; mas estas bastam, para o que se-quer. Prouvera a Deus, que estas se-puzesem em execusam; entam me-diria V.P. se me-enganava eu no-meu conceito. Deixando para a vista outras razoens, com que podia persuadir, o que digo; insinuarei uma bem clara. Entre tantos que se-aplicam, ao estudo da-Lingua Latina, mostre-me V.P. quantos sam capazes de se-apontarem, como exemplo de boa Latinidade. Examine V.P. quantos autores tem cá, nos seus paîzes, que componham Latim, como milhares, que eu poso apontar, nos-Reinos estrangeiros; e ainda alguns em Espanha, que escrevéram asombrozamente. Se me-mostrar um ou dois, que nam ignoro que aja, asente que o-nam-trouxeram das-escolas; mas custou-lhe boas fadigas em caza: ou talvez porque saîram fóra do-Reino, e tratáram, com quem lhe-abrise os olhos, como o Bispo Ozorio &c. Quazi todos os outros falam Latim das-escolas. E tantas testemunhas, que todos os dias saiem das-escolas, provam bem, que esta ignorancia, é influencia do-mao metodo.
Disto podia eu citar muitos, e muitos exemplos, se mo-nam-impedise a modestia. * * * porque aindaque tenham doutrina, e talento, o mao metodo que bebéram na mocidade, impede o aproveitamento. Certo Religiozo douto, devendo dar conta de si, em um congreso erudito, queixando-se de lhe-nam-terem dado, certos papeis, concluia asim: Quæ ad nostram faciunt historiam monumenta omnia: sive scripta, sive transcripta, sive præscripta; sive congesta, sive digesta, sive indigesta; peto, expeto, repeto: posco exposco, reposco: quæro, exquiro, requiro: flagito, efflagito: oro, peroro. Todo o corpo do-discurso era semelhante. Nam sei se se-pode fazer, coiza pior: e apostarei eu, que os seus Religiozos doutos, seram os primeiros, a condenar este Latim. O pior é, que afetando tanto, saber a forsa dos-Verbos, enganou-se em alguns. Porque o flagito, e efflagito, nam só significam, pedir com istancia, mas pedir com injuria[26], e com pouca vergonha: o que suponho, ele nam quiz dizer. Tambem o peroro, nunca ouvi, nem achei em autor Latino, que significáse pedir. tambem Orare monumenta, é fraze que nunca achei nos-Latinos. Os primeiros trez nomes significam a mesma coiza, no-noso cazo: pois ele nam pedia cazas, nem estatuas; mas coizas escritas: e asim o sive, parece mal inserido. Damesma sorte o congesta, nam se-opoem, a digesta, e indigesta; pois a cadaum destes se-pode aplicar: sendoque é generica. As outras examinará V.P. com mais vagar, que eu nam tenho. E nam somente os que se aplicam, a diferentes materias, mas aqueles mesmos, que se-empregam na Latinidade, muitas vezes nam sam iguais. v. g. Antonio Rodriguez da-Costa, Conselheiro do-Vltramar, que escrevia Latim com muita facilidade, esquecido ás vezes de simesmo, escreve algumas cartas Latinas, fóra do-estilo familiar, que paresem orasoens academicas. Mas pior que este, o Marquez Manoel Teles da-Silva, e o Conde de Vilarmaior, os quais ambos tropesam terrivelmente nesta materia, de elevasam afetada. O primeiro, na carta com que aprova, os Epigramas do-P. Reis, que comesa Cum nullum &c. uza de um estilo, que ainda nam vi coiza mais impropria: O segundo, nas cartas que escreve, a Antonio Roïz da-Costa, é afetado por-um novo modo; e inclina muito para a declamasam, demora-se muito com os lugares comuns, e nam observa, o verdadeiro estilo epistolar &c. Confeso a V.P. que lendo, e examinando Cicero, nam achei nele nem orasoens, nem cartas afetadas. Somente na idade de prata é, que comeso a ver, a afetasam, porque ja degenerava a eloquencia. De que concluo, que os que lem bem polos Antigos, e sabem imitálos, escrevem com muita naturalidade, e no-mesmo tempo sublimidade. Quando porem nam se-lem os Antigos, ou, lendo-se, nam se-faz como se-deve; nam se-pode fazer coiza boa. o que, como asima dizia, nace do-mao metodo, de quem ensina.
Quando em um paîz, florecem com grande aplicasam as Artes, é coiza observavel, que saiem muitos excelentes. No-tempo de Cicero, nam só ele falava bem Latim; mas avia uma infinidade que o-falavam, com a mesma pureza, e grasa; e muitos Oradores, de grande merecimento. Se V.P. tira das-cartas de Cicero, os nomes de muitos, que lhas-escrevèram; entre elas, e as de Cicero, nam achará diferensa alguma. O bom gosto naquele tempo, era tam rafinado, que Cezar, e Atico, repreendèram alguma palavra de Cicero: e o modo de orar deste ultimo, nam agradava a Bruto, a Calvo, e Pollio, que eram omens doutisimos. Toda a magestade, e pureza da-lingua de Tito Livio, nam o-livrou, de ser censurado em Roma, por-aqueles delicados criticos. O grande Asinio Pollio achou neste escritor, certas palavras, e estilo do-paîz em que nacèra; que os omens cultos de Roma, nam lhe-queriam perdoar. tal era o delicado gosto daqueles Senadores, e Cortezoens! Os mesmos Romanos, tinham um demaziado escrupulo, neste ponto. Um Comico, que no-teatro errava uma silaba, e um acento, levava grandisimas surriadas[27]. tal era a fineza do-juizo daquela Republica!
Se damos um paso mais atraz, e entramos em Atenas, onde as Artes, e Ciencias tanto florecèram, que dali se-espalháram, polo resto da-Europa; acharemos, que nesta grande escola, até a gente plebeia, polo costume de ouvir orar, e falar bem em publico, aqueles grandes Oradores; tinha aquistado, um tam exquizito gosto da-lingua, que quando os Oradores subiam à tribuna, temiam ofender, com alguma menos boa expresam, orelhas tam delicadas. Avia muitos anos, que o Filozofo Teofrastro abitava em Atenas, e tinha feito um particularisimo estudo, de falar a sua lingua, segundo o dialeto de Atenas: comtudo iso diz a Istoria, que da-pronuncia de uma palavra, conheceo que era estrangeiro uma molher, que vendia legumes em Atenas[28]. Achamos na istoria Grega, mil outros exemplos, que confirmam, quam geral era, o bom gosto da-eloquencia, entre os Gregos. Nas asembleias publicas da-Grecia, em que se-recitavam Poemas, e Istorias ao Povo; sabemos, que muitas vezes regeitáram algumas, por-nam chegarem, à fineza de outras. Dionizio o velho, Rei de Saragosa nam era mao Poeta: vistoque com uma das-suas compozisoens, alcansou o premio, nos-jogos da-Grecia, digo, nos-jogos Olimpicos: mas porque mandára primeiro duas, que nam chegavam ao merecimento, da-terceira, foi escarnecido por toda a asembleia. Deixo outros Antigos.
E, se decemos a estes ultimos seculos, e ao prezente, poso mostrar a V. P. com toda a evidencia, que em Londres, Amsterdam, Leiden, Pariz, Roma, Napoles, Padoa, Bolonha, Piza, e outras muitas partes, onde se-cultivam os bons estudos; os que neles sam instruidos, por-pouco que saibam, aquistam um particular gosto, em todo o genero: e que neses mesmos empregos de Ciencias, e Artes, á infinitos omens excelentes. Do-que manifestamente se-prova, que onde se-ensina bem, sempre á omens grandes: e que onde os-nam-á, é uma prova manifesta, do-mao metodo, de quem ensina.
Tenho dito a V. P., quanto a brevidade de uma carta permite, o que me-parece deve fazer, quem quer saber Latim. Poderia acrecentar outras coizas; mas esas sam somente necesarias, aos que querem ser insignes, nas letras umanas. Para V. P. que é tam versado nelas, o que digo, parece ainda superfluo: e para os-outros, muito mais: vistoque nam acho muitos, que queiram esta gloria, e queiram conseguila, com estes meios. Comque páro aqui: E dezejando a V. P. felicisimas festas, e boas intradas de anos; com todo o corasam me-asino &c.
NOTAS DE RODAPÉ:
[21] Adversar. l. 7. c. 19.
[22] As palavras de Furio Albino citado por-Macrobio, sam estas. Nemo debet antiquiores Poetas ea ratione viliores putare, quod eorum versus nobis scabri videntur. Ille enim stilus maxime, tunc placebat: diuque laboravit ætas secuta, ut magis huic molliori stilo acquiesceret. Itaque minime defuerunt, imperantibus etiam Vespasianis, qui Lucretium pro Virgilio, & Lucilium pro Horatio legerent. Petrus Crinitus, de Poetis Latinis.
[23] L.3. v. 248.
[24] Aeneid. I. v. 67.
[25] Itaque video visum esse nonnullis, Platonis, & Democriti locutionem, etsi absit a versu, tamen, quod incitatius feratur, & clarissimis verborum luminibus utatur, potius poema putandum, quam comicorum poetarum: apud quos, nisi quod versiculi sunt, nihil est aliud quotidiani dissimile sermonis. Cicer. de Orat. ad M.B. num.20.
[26] Expectatione promissi tui moveor, ut admoneam te, non ut flagitem: misi autem ad te quatuor admonitores, non nimis verecundos: qui metuo, ne te forte flagitent: ego autem mandavi, ut rogarent. Cicero Epist. famil. l.9. ep. 8.
Quintil.—Efflagitasti quotidiano convitio, ut libros jam emittere inciperem &c.
[27] At in his (numeris) si paullum modo offensum est, ut aut contractione brevius fieret, aut productione longius; theatra tota reclamant. Cicero l.3. de Oratore n.50.
[28] Cicero,de Claris Orator.n.46.
CARTA QUARTA.
SUMARIO.
Necesidade das-linguas Orientais, principalmente Grega, e Ebraica, para intender as letras Umanas: mas muito principalmente, para a Teologia. Modo de as-aprender. Utilidade da-lingua Franceza, e Italiana, para ser erudito com facilidade, e sem despeza.
Meu amigo e senhor, Talvez esperava V. P. que eu nesta carta, pasáse direitamente à Retorica; e comesáse a discorrer sobre aquela materia, que nos-ocupou bastante tempo; e nos-deu ocaziam, para fazer muitas, e mui utis reflexoens. Tambem esa era a minha intensam; se me-nam ocorrese outra coiza, que julgo ser igualmente necesaria: e que nam nos-ocupará, senam uma carta, e nam mui longa. Falo do-estudo das-linguas Orientais: que muitos desprezam, porque nam tem juizo, para conhecer o bom, rezolusam para o-emprender, e metodo para o-conseguir. Eu nam falarei de todas: mas das-duas mais principais, e que todos os omens doutos reputam, que sam sumamente necesarias: e como tais se-ensinam, em quazi todos os estudos, da-Europa culta: tais sam a Grega, e Ebraica.
Sam estas duas linguas em Portugal, totalmente desconhecidas, ainda nas-Universidades: o que é mui observavel: porque Universidade deve compreender, todo o genero de estudos. Os Espanhoes conhecèram muito bem, esta necesidade: e vemos que nas principais das-suas Universidades ensinam, nam só estas, mas outras Orientais. Mas em Portugal observo, que nam á noticia delas. Nese colegio das-Artes, dizem que á uma cadeira de Grego: mas como se a-nam-ouvese, porque nam tem exercicio. Os Seculares, que algumas vezes entram na aula, é para se-divertirem. Os Jezuitas mosos, sam na verdade obrigados, a frequentar por-algum tempo, a dita escola; e nos-dias santos le-se um capitulo de S. Joam Crizostomo, ou coiza que o valha: mas como todos estes mosos, estam na opiniam, que aquilo para nada serve; nenhum se-aplica a ela. Despois de quatro anos de estudo, me-dise um, que nam sabia mais, que esta palavra: ό δεος. Achei outro, que sabia o Padre noso, e Ave Maria: e destes acham-se alguns: mas nenhum o sabia escrever derepente. Finalmente nam achei algum, que soubèse explicar, quatro regras de Grego, nam digo eu de algum Poeta, ou coiza dificultoza; mas nem menos do-Testamento Novo, ou algum S. Padre facil. E isto observei ainda naqueles, que tinham sido mestres de Grego: (nam por-falta de capacidade: mas de aplicasam) e fasa V. P. a experiencia, que achará, que nam minto. Os outros todos, ou sejam Regulares, ou Seculares, nam tem mais noticia do-Grego, que do-Kyrie Eleison: e do-Ebreo, só conhecem a palavra Aleluia, Amen, e alguns nomes proprios de omens, ou Cidades, que se acham na Vulgata, ainda-que transfigurados: e contentam-se com esta noticia: Antes rim-se muito, se acazo lhe-dizem, que é um estudo necesario. Mas a verdade é, que aos Teologos é indispensavelmente necesario, sabèlo; senam a todos, ao menos aos que se-internam na Teologia, e a-ensinam. Senam diga-me V. P. se nacèse uma dificuldade, sobre a inteligencia do-texto Ebreo, ou Grego, ou de algum S. Padre; como muitas vezes sucede, conversando com os Erejes, ou disputando entre os Catolicos; a quem se-á-de proguntar? será necesario escrever, a Fransa, Roma, Veneza, Napoles &c. para saber a resposta? que coiza mais vergonhoza! E que diriam aqueles Teologos, se ouvisem, que aqui nam avia, quem os-intendèse? Mas disto falaremos, em outra parte. Por-agora só digo, que asim como ao Teologo é necesario, intender Latim, para ler a Vulgata Latina; asim tambem é necesario, intender os textos Originais, de que esa Vulgata se-tirou.
Persuadem-se muitos, e alguns mo-confesáram, que só a Vulgata merece autoridade. isto é, porque nam estudáram a materia. Convem todos os Teologos de boa doutrina, que o Concilio Tridentino, quando declarou Autentica, a nosa Vulgata; só a-preferio, às outras Vulgatas Latinas: mas nam a-preferio, nem a-comparou com as Fontes, Grega, e Ebraica. De que vem, que estas conservam oje, toda a sua autoridade: e por-elas se-emendou a Vulgata, no-tempo de Sixto V., e Clemente VIII. e ainda oje se-pode emendar, em varias coizas, que nela advertem os omens doutos. E por-este principio fica claro, que pode aver grande utilidade, e necesidade, em consultar as ditas Fontes.
Alem da-Escritura, temos os SS.Padres da-Igreja Grega, que escrevèram na sua lingua. O Teologo todos os instantes tem necesidade, de consultar estes Originais: porque as Versoens nem sempre sam fieis. Muito mais porque nam se-ignoram as controversias, que todos os dias nacem, nas escolas Catolicas, sobre as palavras dos-Padres, e dos-Concilios. Alem diso, o Jurista tem necesidade do-Grego, para alcansar o verdadeiro sentido, de muitas constituisoens Imperiais; que foram escritas em Grego. O Canonista o mesmo: vistoque deve procurar, as fontes da-Diciplina Ecleziastica: a qual pola maior parte, determinou-se nos-Concilios: muitos dos-quais celebráram-se no-Oriente: e ainda algum no-Ocidente, em Grego; como o Florentino no-tempo de Eugenio IV. Tambem para intender, o Decreto de Graciano, que se-funda todo, sobre a antiga Diciplina: e os mesmos PP. Gregos. O Medico tem necesidade do-Grego, para intender as obras, de Ipocrates: para ver o que dise Galeno, e Areteo de Capadocia; que, despois de Ipocrates, foi o melhor Medico dos-seus tempos: e alguns outros. É tambem necesaria ao Medico, para intender a Anatomia, e suas partes, cujos nomes sam Gregos: nam avendo Ciencia, em que se-encontrem mais nomes Gregos: como tambem para intender os nomes, de muitas infermidades. Nisto cuido que convirám sem dificuldade, os mesmos Peripateticos, se quizerem examinar o cazo. Mas eu paso adiante, e digo, que as Letras Umanas, e ainda a mesma Latinidade, nam se-pode intender bem, sem alguma noticia do-Grego. Os Romanos adotáram infinitos termos Gregos: cuja propria significasam nam se-alcansa, sem saber o Grego. As mesmas declinasoens, a dezinencia de muitos Verbos, pedem alguma erudisam Grega. mas isto só o-intende, quem se-familiariza com o Latim.
Quanto pois ao estudo do-Grego, e Ebraico, nam é ele tam embarasado, como o-pintam. Os Mestres podiam brevemente dar, alguma noticia do-Grego: nam se-cansando em explicar, todos os preceitos de Gramatica (este é o defeito de muitos Profesores). Basta ao principio saber, as declinasoens, e conjugasoens, sem falar nos-dialetos. as anomalias podem-se deixar; e basta que com o tempo se-observem, quando se-vai lendo. As outras partes da-Gramatica basta velas uma vez, para as-saber procurar, quando será necesario. Despois, toma-se um autor, que tenha junto a versam Latina: e em cada voz se-deve observar, se é raiz, ou nam: e, quando duvidar, procurálo no-Dicionario. Em um mez, ou dois, pode conseguir, bastante noticia destes principios. Despois, com o socorro do-Dicionario, e da-versam, deve comesar a explicasam, de algum autor facil. Os Istoricos, e Prozadores devem ser preferidos, aos Poetas; como mais dificultozos. Um omem douto ensina, que se-deve seguir este metodo. 1.ᵒ Ler os Estratagemas de Polyeno, que sam mui claros: os Dialogos de Luciano, e principalmente os Characteres Ethici, de Teofrasto; que é elegantisimo. 2.ᵒ os dois famozos Istoricos, Xenofonte, e Erodoto: que encerram as delicadezas, e grasa, da-lingua Atica. 3.ᵒ a estes podem seguir-se Tucidides Istorico; Isocrates, e Demostenes Oradores; e Platam, Filozofo o mais eloquente, e culto da-Antiguidade. Quem chegar a intender bem estes, tenha a consolasam, que sabe bem Grego. Pode-se aprender alguma noticia, dos-costumes Gregos, nas obras de Ubbo Emmius, e Joannes Meursius, que sam os que melhor explicáram, as antiguidades Gregas. Outros querem, que se-comece polo Evangelho de S. Lucas, e Atos dos-Apostolos; ou polas fabulas de Esopo: despois Luciano, Erodoto, Xenofonte, Isocrates: e no-fim Omero, e Plutarco, e alguma coiza de Demostenes. Um, e outro destes metodos se-pode seguir: mas agrada-me mais o primeiro. O principal ponto está, que nestes principios, quando se-acham lugares dificultozos, deve-se pasar adiante: e ler os autores saltiados, por-nam enfastiar os rapazes.
Sobre os Poetas, nam me-canso em dizer muito: porque quem tem noticia da-lingua, tem ja bastante luz para ver, como se-á-de regular, na sua lisam. Concordam os omens da-profisam, que o melhor Poeta, e mais claro é, Aristofanes: mas é bastantemente obceno. Onde, quem nam souber ler tais coizas, sem perigo; deverá pasar a Omero, e Esiodo, que sam os mais facis entre os Eroicos, e que se-servem de expresoens, mais claras. Verdade é, que nestes Poetas, á uma dificuldade nam pequena, que consiste, na variedade de dialetos, e inflexoens, e mudansas de palavras, proprias-dos Poetas: mas a isto se-supre com o Dicionario, que explica distintamente, estas palavras. Aconselham os doutos, que, antes de ler Omero, leia-se o Everhardo Feithio==Antiquitates Homericæ: no-qual ele descreve a istoria, dos-tempos Eroicos, de que trata Omero. Dos-Poetas Eroicos pode-se pasar, aos Bucolicos, que sam Moscho, Bion, Theocrito; para aprender o dialeto Dorico, em que escrevem: servindo-se do-pequeno Dicionario, de Schrevelius. A melhor edisam destes autores é, a de Daniel Heinsio: em que, alem das-deste, se-acham tambem as notas, de Scaligero, e Casaubon. Despois pode ler, os Poetas Tragicos: entre os quais os mais facis, e judiciozos sam, Euripides, e Sophocles: porque os outros, só os-podem intender, os que sam bem praticos da-lingua. E como suponho, que o estudante neste tempo, (isto nam se-faz nas primeiras escolas: mas quando um é ja adiantado no-Latim) terá ja noticia, das-leis da-Poezia; pode, lendo estes autores, ir descobrindo, e bebendo na sua fonte pura, as grasas da-Poezia, em todos os generos.
Uma coiza porem é necesario advertir, nam só aos dicipulos, mas tambem aos mestres, porque neste defeito caiem muitos profesores publicos: e vem aser, que nam se-cansem em mandar compor, aos pobres rapazes: porque esta lingua, que oje é morta, nam é necesario falála, basta intendèla com facilidade. Encontram-se muitos, que explicam aos rapazes, trez, ou quatro regras de Grego, e obrigam-nos a compor, paginas inteiras. Onde vem a cair no-mesmo defeito, que em outra carta ja dise, (falando da lingua Latina) de quererem, que os rapazes sejam mestres, naquela materia, na qual nam chegáram ainda aser, dicipulos. Em uma palavra: a experiencia ensina, que é absolutamente necesario, intender Grego: e que é inutil, o escrevèlo; quando um omem nam está empregado em coizas, que o-pesam.
Sobre as Gramaticas, á oje tantas, que é superfluo, que eu diga coiza alguma. Muitos sam apaixonados, pola de Clenardo, com as notas de Antesignan: porque nela se-acha com facilidade, o que só com grande trabalho se-busca, em outros livros: e tambem ensina o uzo da-Gramatica, reduzindo-a aos preceitos gerais: o que ilustra muito o intendimento. Mas oje asentam todos, que a de Lanceloto, a que chamam de Porto real, é a mais facil, e as reflexoens mais solidas. mas é em Francez, ou Italiano, e nam é para o cazo. Alem destas, á infinitas mais modernas, que sam mui boas, e Latinas. Um amigo noso compoz a Gramatica Grega, e Ebraica, cada uma em duas folhas de papel grande, com uma clareza inimitavel, para um principiante. Procuro que a-imprima, para utilidade dos-Portuguezes. é sem duvida a mais facil, que tenho visto nesta materia. No-cazo que o estudante nam tenha, quem o-aconselhe, na eleisam de livros; deve sempre apegar-se a uma Gramatica, das-mais modernas, e mais breves: principalmente compostas por-alguns seculares, Inglezes, Olandezes, Alemaens, e alguns Francezes. Porque como estes nam seguem as leis, que obrigam alguns Regulares, a nam se-desviarem, dos-seus antigos metodos; procuram sempre, melhorar no-metodo, e na inteligencia: como a experiencia me-tem mostrado. E nestas letras Umanas é sem duvida, que os Seculares excedem muito, aos Regulares.
Sobre o Dicionario, parece-me que o estudante deve servir-se, do-Scapula, que costuma reduzir todos os derivados, à sua raiz. Isto ao principio cauza dificuldade, porque se-ignora, que coiza os derivados acrecentam, sobre a raiz; para os-poder separar, e procurar no-seu lugar. Mas neste cazo basta procurar, no-fim do-Lexicon, a voz como se-acha; que ali se-ensina, de que raiz vem, e aonde se-deve procurar. E desta sorte aprende um omem, o verdadeiro modo de separar os derivados das-suas raizes: e fica com a inteligencia, de uma quantidade de termos: coiza que vale infinitamente nesta lingua. Se o estudante pouco a pouco aprendèse de memoria, as raizes; facilitaria muito este estudo, e intenderia mais depresa os derivados. O ponto todo está em nam deixar totalmente este estudo, por-todo o decurso da Latinidade, e Retorica: porque aindaque sò expliquem, duas regras cada dia, no-cabo de um ano, adianta-se muito.
A Gramatica Ebraica é muito mais facil, que a Grega. Antigamente escreviam os Ebreos, sem vogais: e o verdadeiro modo de pronunciar, pasava de pais a filhos, por-tradisam: e ainda oje a Biblia, que se-conserva nas suas sinagogas ou escolas, costuma escrever-se sem vogais, como eu vi muitas vezes. Mas despoisque os Ebreos, tornáram do-cativeiro de Babilonia, e, com permisam de Artaxerxes Longimano, restablecèram, a Igreja Judaica, e todos os ritos da-sua antiga religiam: entam, segundo se-prezume, se-inventáram os ditos pontos, ou vogais. Certa coiza é, que nese tempo os Ebreos, tinham perdido a sua lingua, e só intendiam a Caldeia. Onde nas sinagogas, que entam se-introduzîram, era necesario, que um interprete explicáse em Caldeo, as palavras da-Biblia, que outro proferia e lia em Ebreo. E como uma lingua morta, nam se-pode aprender, nem ensinar, sem vogais; fica claro, que os doutores, que com Esdras publicáram, uma edisam correta da-lei, os-inventáram, para poderem ensinála, aos que ignoravam a lingua. É porem provavel, que entam somente inventasem, as cinco vogais: e nam tantas, como ao despois se-uzáram. Esta noticia conservou-se, nas escolas dos-Gramaticos, ou escolas de ler: (entre os Ebreos avia escolas de Gramatica; e outras de Teologia) mas nam nas escolas de Teologia: porque os omens doutos, que ja sabiam a lingua, nam necesitavam diso. Mas despois da-ultima destruisam de Jerusalem, no-ano 70. de Cristo, tendo-se espalhado os Ebreos, por-todo o imperio Romano; e muito principalmente, despois da-dispersam que tiveram, no-tempo de Adriano; acrecentando-se todos os dias as tradisoens, foi necesario escrevèlas, para se-poderem conservar na memoria, e chegarem a todos. Isto fizeram eles, polos anos de Cristo 150.: cujo libro chamam Misná; que é um corpo de toda a doutrina dos-Ebreos, ritos, ceremonias, e religiam. A esta fizeram dois comentarios: um em Babilonia, polos anos de Cristo 300.: outro em Jeruzalem 200. anos quazi despois. E deste Comento, e da-Misnà, se-compoem os dois Talmudes, que ainda oje temos.
Isto suposto, vendo os doutores, que os pontos dos-Gramaticos eram utis, para conservar a antiga maneira de ler; adotáram os ditos pontos, e comesáram a servir-se deles, pouco mais ou menos, no-seculo quinto de Cristo. Muitos suspeitam, que se-deve isto aos doutores, da-escola de Tiberiades. Seja como for, o que sabemos de certo é, que desde ese tempo, comesáram a escrever certos sinais, debaixo, e desima das-consoantes; paraque todos os Ebreos, pronunciasem as vozes Ebraicas, segundo a antiga tradisam. De entam para cá é, que á noticia expresa, das-vogais[29]. Mas como os Ebreos sempre foram misteriozos; para ocultar o verdadeiro sentido do-texto Ebreo, inventáram tanta vogal que nam se-le, entre outras que se-lem; que esta é oje a maior dificuldade, desta lingua. Umas vezes a mesma vogal le-se: outras, nam se-lé: umas vezes converte-se em outra; e talvez nam se-converte: e isto embarasa muito os principiantes.
Intendido isto, o metodo de aprender o Ebraico é, a prender a conhecer, e unir as letras, e proferir as disoens: porque a pronuncia diligente somente é necesaria, aos que querem falar, nam aos que somente a-querem intender. Deixando ao principio, aquela infinidade de excesoens, sobre a mudansa de pontos, &c. deixados os infinitos acentos, que para nada servem: basta ter noticia, das-regras gerais, para saber ler, e pronunciar facilmente. Daqui pasa-se às declinasoens dos-Nomes, e seus diversos estados. A maior dificuldade está, nos-Verbos: porque tem terminasam masculina, e feminina, o que ao principio parece imbarasado: aindaque com o tempo, ajude muito para intender, com quem, e de quem se-fala; se com omem, ou com molher. Deve pois saber distintamente, quais sam os verbos quiescentes, e defetivos. As anomalias deles podem-se deixar, porque se-aprendem com o uzo. Esta lingua nam tem sintaxe particular: e todos os idiotismos aprendem-se em meia ora. Daqui deve pasar a ler a Biblia, tendo sempre prezente um Dicionario, v.g. o Compendio Hebraico Chaldaico de Buxtorfio. É utilisimo servirse do-texto Ebreo, com a versam literal de Pagnino, correta por-Montano: porque alem-de que se-aprende, a propria significasam dos-vocabulos, tem à margem, boas notas de Gramatica, e aponta as raizes. O que ajuda muito um principiante, principalmente se a-quer buscar, no-Lexicon: e é muito necesario saber, quais sam as raizes, para ter suficiente noticia, da-lingua. Com o tempo observa-se a Sintaxe da-lingua, e os idiotismos, ou maneiras proprias de se-explicar, diferentemente das-outras linguas: o que se-reduz a poucos pontos, e se-aprende do-contexto.
Os livros que primeiro se-devem ler, sam os mais facis, como o Pentateuco, os livros dos-Juizes, e Reis, Paralipomenon. Os Profeticos, e Sapienciais podem rezervar-se, para outro tempo, por-serem mais oscuros. Mas para intender estes livros, é necesario preparar-se com a lisam, das-antiguidades Ebraicas. O Senhor de Fleury publicou um tratadinho, dos-costumes dos-Israelitas, em Francez, que tambem se-acha em Italiano: que me-parece proporcionado, para um principiante: e é escrito com grande atensam. Podem tambem servir, a Politia Judaica==de Bertramo: Respublica Hebræorum==de Sigonio, ou de Cuneo; que sam muito boas. Nam aponto livros de maior erudisam, porque nam servem, para estes principios. Se a isto que dizemos, ajuntar cada dia, a lisam de um capitulo da-Escritura, e consultar nas coizas em que duvidar, a versam Grega dos-LXX.; ou as Concordancias de Conrado Kirker; poderá conseguir facilmente, bastante noticia da-lingua Ebraica. Isto digo, para um principiante: porque para os Teologos de profisam, a seu tempo direi, que mais é necesario, nesta materia. Este estudo, como tambem o da-lingua Grega, uma vez que se-intendeo, pode continuar-se em dias alternados, por-todo o tempo dos-outros estudos, sem perturbasam alguma: porque a estas linguas basta consagrar, as oras menos preciozas do-dia.
Isto é, o que muita gente nam intende, ou nam quer intender, nestes paîzes: porque quando nam tem, outra razam que dar, alegam a dificuldade da-dita lingua, e a pouca utilidade, que dela se-tira: aqual nam basta, para compensar o trabalho, que se experimenta em aprendèla. Seguro a V. P. que com grande admirasam minha, ouvi isto a alguns, de quem formára bom conceito; e que totalmente se-desvaneceo, com este discurso. Nam acho que falasem asim, alguns antigos-Portuguezes, que cuido sabiam um pouco mais, do-que estes, que agora respondem asim: antes polo contrario acho, que alguns Religiozos antigos, aplicáram-se a estas linguas com cuidado, e por-iso sam mais conhecidos, no-mundo literario, do-que estes, com quem prezentemente conversamos. Eu atribûo isto, à maior comunicasam que entam avia, com os doutos das-Nasoens estrangeiras: pois só acho vestigios de maior erudisam, quando a este Reino vinham ensinar, os Estrangeiros: ou quando os Portuguezes îam aprender, e ensinar, fóra dele. Polo contrario despoisque se-deixou, este comercio literario, vejo as coizas mui mudadas.
Nam podem ser ocultos a V. P. os nomes de alguns deles: O P. Jeronimo Oleastro, Dominicano Lisboense, que cuido se-chamáse Jeronimo da-Zambuja, compoz um comentario Ebraico ao Pentateuco, e cuido que a outros livros mais, se-nam me-engano; poisque averá anos, que vi esta obra. Acho tambem citado um certo D.Pedro, Conego Regular, e um Fr.Eitor Pinto, Jeronimiano, ambos Portuguezes, por-omens mui versados, na lingua Ebraica: ainda-que eu nam poso, formar juizo das-tais obras, porque as-nam-vi. Mas tenho motivo para suspeitar, que fosem omens doutos, vistoque aprendiam as linguas originais, para comentarem a Escritura. Tambem achei um Religiozo meu, quero dizer Observante, chamado Fr.Francisco de S.Luiz, Lisboense, posterior aos ditos; que floreceo no-tempo do-Concilio de Trento, e alguns anos despois. Este tal compoz em Italia,uma Gramatica Ebreia, com o titulo = Globus Canonum & Arcanorum Linguæ Sanctæ, & Sacræ Scripturæ =: que é um livro bem voluminozo em 4.ᵒ e que dedicou ao Cardial de Medici, impreso em Roma 1586. Este tal autor, (que, segundo diz, fora no-seculo leitor de Leis em Coimbra, e Salamanca; e se-metèra Frade em Espanha) dá a intender, que compuzera o livro em Italia: declarando, que de cincoenta anos aprendèra o Ebraico, que ao despois foram as suas delicias. Onde persuade com muitas palavras, a necesidade da-dita lingua; e se-enfastia, contra os que a-regeitam. Com efeito o omem parece bem informado, da-dita lingua: aindaque caise no-defeito, dos-Gramaticos do-seu tempo; quero dizer, em fazer uma confuzisima e mui enfadonha Gramatica; na qual quiz epilogar, quanto achou em Elias Levita, e outros Rabinos: como tambem em vários autores, que o precedèram. Mas este era defeito daquele tempo, em que nam sabiam, que coiza era bom metodo. Contudo é verdade, que o dito P. fez um grande progreso, na dita lingua, em uma idade maior; naqual tambem estudou Teologia: e entre ocupasoens de predicas, e outras semelhantes, segundo diz, nunca deixou, este estudo tam util.
Esta noticia que dou do-tal autor, é porque ignoro, se V. P. tem noticia dele, visto escrever longe de Portugal. Acrecento a este, o P. Macedo, Portuguez, e da-mesma Religiam: omem de prodigioza memoria, (aindaque nam de igual juizo) segundo mostrou nas suas famozas concluzoens, que defendeo em Veneza, de que V. P. tem boa noticia: que sabia a lingua Grega, segundo me-diseram alguns dos-seus Religiozos, da-mesma Provincia.
Do-Grego tambem no-seculo 16.ᵒ avia mais noticia, que nam á oje, neste Reino. Polos tempos do-Concilio de Trento, um tal Joam Vaz, que foi mestre de Umanidades em Salamanca, sabia bem Latim, e Grego: e no-mesmo tempo Fernando Soares, (que compoz uma Gramatica Latina, para uzo do-Duque de Bragansa, impresa em Evora no-ano 1572.) era suficientemente informado, do-Grego. Ajunto a estes, o Bispo Jeronimo Ozorio, o qual nam só aprendeo fóra de Portugal Latim bem, mas teve bastante noticia do-Grego, e Ebreo: e podia nomiar alguns outros, que agora nam me-ocorrem. Doque se-segue, que naqueles tempos, os mestres Portuguezes, nam seguiam o parecer, que agora vejo tam comum, deque estas linguas Orientais devam desprezar-se. Onde, com estes exemplos, podiam muitos aplicar-se, a coizas mais utis à Republica. Eu apontei algum exemplo: pode ser que ajam muitos mais, e de linguas peregrinas: porque eu nam escrevo esta istoria.
Serîa tambem justo, que o estudante com o tempo, aprendèse Francez, ou Italiano, para poder ler as maravilhozas obras, que nestas linguas se-tem composto, em todas as Ciencias; de que nam temos, tradusoens Latinas. Antigamente intendiam os doutos, que era necesario saber Latim, para saber as Ciencias: mas no-seculo pasado, e neste prezente, dezenganou-se o mundo, e se-persuadio, que as Ciencias se-podem tratar, em todas as linguas. Parece-me que com muita razam: porque a maior dificuldade das-Ciencias consiste, em serem escritas em Latim, lingua que os rapazes nam intendem bem. Onde nam só sabem mal a materia, mas o tempo que deviam empregar, em a-estudar, ocupam em perceber a lingua. Com esta advertencia, os Inglezes, Olandezes, Francezes, Alemaens &c. comesáram a tratar todas as Ciencias, em Vulgar. Esta oje é a moda. Os melhores livros acham-se escritos, em Vulgar: e qualquer omem que saiba ler, pode intender na prezente era, todas as Ciencias. Nam que isto seja totalmente, ideia nova: porque me-lembro, ter lido uma carta de Paulo Manucio, escrita a Diogo Hurtado de Mendonsa Embaixador Cezareo, dedicando-lhe os livros Filozoficos de Cicero; emque se-diz, que o maior impedimento das-Ciencias é, serem tratadas em linguas estrangeiras, digo, Latina &c. O que o dito Manucio, com toda a paixam que tinha à lingua Latina, nam dezaprova. Desorteque ja no-seculo 16.ᵒ, emque o mundo comesou a abrir os olhos, em muitas coizas, pensavam asim: o que porem somente se-executou, nestes ultimos tempos. De certo tempo a esta parte, os nosos Italianos comesáram a seguir, o método dos-Transmontanos. Comesou isto, traduzindo os livros Inglezes, e Francezes: despois, pasáram a compor originalmente. Desorteque quem oje quer ter, muitas noticias boas com facilidade, deve intender Francez, ou Italiano. Este estudo nam pede grande tempo, podendo servir-se dos-livros Latinos, que tem a tradusam literal Franceza; como sam o Terencio, e Oracio, de Madame D’Acier, e de um Jezuita &c. E estes mesmos autores Latinos, se-acham traduzidos em verso Italiano, defronte do-Latim, por-dois omens mui doutos de-Italia. O Italiano é mais facil. Mas nam intenda V. P. que eu sou tam inexoravel, que queira carregar os pobres rapazes, com tanto pezo. nada aponto, que nam vise executar a muitos rapazes: e poso afirmar a V. P. que estes estudos, nam sam dificultozos em si mesmo: o mao metodo os-pinta dificultozos. Contudo nam obrigo: aponto somente a utilidade. Quando o estudante nam se-ache, com este dispozisam, pode rezerválo para tempo mais descansado. Fico às ordens de V. P. como seu criado &c.
NOTAS DE RODAPÉ:
[29] Veja-se Ludovicus Cappellus in Arcano punctuationis, contra J. Buxtorf. Filium.