MAGALHÃES LIMA

O
1.º de Maio

Marchez, l'humanité ne vit pas d'une idée,
Elle en allume une autre á l'eternel flambeau

CASA BERTRAND—JOSÉ BASTOS

CHIADO

LISBOA

O PRIMEIRO DE MAIO

O PRIMEIRO
DE MAIO

POR

S. DE MAGALHÃES LIMA

Marchez, l'humanité ne vit pas d'une idée,
Elle en allume une autre á l'eternel flambeau


LISBOA
TYP. DA COMPANHIA NACIONAL EDITORA
1894

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Á MEMORIA
DO
MEU QUERIDO MESTRE
E
SAUDOSISSIMO AMIGO

BENOIT MALON

Lisboa, 2 de dezembro de 1893.

Magalhães Lima.

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[SOLEMNIA VERBA...]

Recordo-me perfeitamente. Era uma manhã de agosto. Na vespera, Cipriani havia me dito: «amanhã, ás 11 horas, na gare de S. Lazare

Fomos ambos pontuaes. Tomámos os nossos bilhetes, e seguimos no trem de Asnières. Era ali, na rua de Colombes, que vivia, ou que agonisava, para melhor dizer, Benoit Malon. Subimos a longa escadaria que conduzia a um terceiro andar. O mestre dormia tranquillamente. Mas, presentindo-nos, afastou docemente o lenço branco que lhe encobria o rosto, e estendeu-nos a mão com carinho e alvoroço, abraçando-nos e beijando-nos, ao mesmo tempo.

A sua physionomia, abatida e amarellecida pelo uso da morphina, tinha o aspecto doentio, morbido,{8} de quem, havia muito, não dormira ou se achara dominado por terriveis convulsões. O quarto era pequeno, illuminado por uma janella que deitava para a rua. Sobre o leito em desalinho, alguns jornaes, dobrados uns, abertos outros—Le Rappel, La Petite Republique Française, La Justice... A atmosphera estava impregnada d'aquelle cheiro caracteristico das longas enfermidades dolorosas. A um lado do leito uma mesa, completamente coalhada de garrafas e frascos, uma pequena pharmacia, para assim o dizer; e a outro lado a figura luminosa, transparente e doce de Mademoiselle Estelle Husson, a enfermeira querida e dedicada, que teve a rara coragem e a excepcional perseverança de atravessar os seis longos mezes da doença, passando as noites em vigilia, ao lado do enfermo, sem se deitar...

—É uma heroina!—disse-me Amilcare Cipriani.

E era-o, com effeito.

Conservo ainda hoje a sua imagem, intensamente gravada no meu espirito saudosissimo. Uma bata branca envolvia o seu corpo flexivel e franzino, e uma pallidez marmorea se desenhava na sua figura delicada de madona, de olhos azues e de longas tranças louras. Dir-se-hia uma irmã do doente, pelo soffrimento e pela dôr que a caracterisavam.

Benoit Malon não podia fallar. Escrevia n'uma lousa que tinha sempre ao seu lado, e que elle mesmo limpava, de quando em quando, com uma pequena esponja.

Fez-me muitas perguntas. Felicitou-me pela publicação do meu livro—La Fédération Ibérique, que havia dado a Geisler, para que a elle se referisse{9} na Revue Socialiste.—Porque não publica V., em volume, as suas impressões, sobre o congresso operario de Zurich?—disse-me por fim.

Prometti-lhe solemnemente que o faria.

Venho hoje cumprir a minha promessa; e, á tua memoria sacratissima, consagro o fructo do meu labor, ó morto querido!{10}
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[O PRIMEIRO DE MAIO]

O congresso confirma a resolução do congresso de Bruxellas, assim concebida:

O congresso, afim de conservar ao 1.º de Maio o seu verdadeiro caracter de reivindicação do dia normal de 8 horas de trabalho e de affirmação de lucta de classes, resolve:

Que deve fazer-se uma manifestação unica em que tomem parte os trabalhadores de todos os paizes;

Que esta manifestação se realise no dia 1.º de maio, e se suspenda o trabalho, n'esse dia, em toda a parte onde seja possivel fazel-o.

Adopta tambem a emenda seguinte:

A democracia socialista de cada paiz tem o dever de empregar todos os seus esforços para conseguir a suspensão do trabalho no dia 1 de maio, encorajando todas as tentativas feitas, n'este sentido, pelas differentes organisações locaes.

O congresso resolve mais:

A manifestação do 1.º de maio, pelo dia normal de 8 horas de trabalho, deve, ao mesmo tempo, ser, nos diversos povos, a affirmação da energica vontade que anima o proletariado moderno de pôr um termo, por meio da revolução social, ás desegualdades de classes, devendo tambem manifestar o pensamento commum ao proletariado de alcançar, pelas reformas sociaes, a paz universal, como uma consequencia da paz obtida dentro de cada nação.

(Congresso de Zurich.—Resolução tomada na sessão de 11 de agosto de 1893).

A celebração do primeiro de maio, significa e representa, ao mesmo tempo, uma affirmação e um protesto: affirmação de direito e de justiça contra os privilegios e os preconceitos do mundo, e protesto da humanidade trabalhadora contra o despotismo e a servidão social. Affirmar esse direito e relembrar essa justiça é o dever dos que trabalham; protestar contra a iniquidade de que são victimas, é a obrigação dos que soffrem.{12}

Encontramos-nos em face de um velho mundo que desaba. Os reis e os dictadores esgotam os thesouros dos seus respectivos paizes em munições e armamentos, e preparam-se para o supremo combate. Por toda a parte a duvida e a incerteza. Alguma cousa de sombrio e de lugubre caracterisa este terrivel periodo, chamado de transição. De duas uma: ou a guerra irrompe, n'uma época mais ou menos proxima; ou a revolução rebentará, como a consequencia logica, inevitavel, da crise economica a que esta nova barbarie, denominada pomposamente exercito permanente, arrastou as sociedades modernas.

O capitalismo explora, e a guerra mata e aniquila. O operario encontra-se em frente d'estes dois inimigos; e elle, que representa o trabalho e a producção, combate os exploradores; e elle, que significa paz, amor e concordia, detesta e odeia a guerra.

Reivindicar para a collectividade os beneficios do trabalho e da paz—eis a aspiração do proletariado moderno. A essas aspirações, chamamos nós socialismo; e, por seu turno, a gloriosa commemoração do primeiro de maio, não é outra cousa senão a affirmação solemne e collectiva das reivindicações operarias.{13}

[I
O DESENVOLVIMENTO DAS IDEIAS SOCIALISTAS]

[BENOIT MALON, LUIZ RUCHONNET, RAMÓN CHÍES, VICTOR SCHOELCHER E VICTOR CONSIDÉRANT.—THEODORO HERTZKA E O SEU FREILAND.—NO CONGRESSO DE ZURICH:—A ALLEMANHA, A BELGICA, A FRANÇA E A INGLATERRA.—A ITALTA, A SUISSA, A HESPANHA E PORTUGAL.—NOTAS E COMMENTARIOS.]

No proximo anno preterito que acaba de desapparecer, arrastando na sua cauda varredora todo um mundo de lagrimas e de ficções, a humanidade perdeu cinco dos seus melhores amigos e a revolução cinco dos seus apostolos mais queridos e predilectos.

O primeiro de maio, que, antes de tudo, significa paz e solidariedade, presta homenagem aos mortos illustres. Façamos reviver os Mestres. O seu exemplo é o nosso ensinamento, e a sua memoria luminosa é a origem dos nossos esforços e dos nossos sacrificios. Por elles vivemos, e pela sua lição sacratissima nos abalançamos aos supremos heroismos e aos supremos martyrios. Bem hajam elles, os bons, os santos, os immortaes, os calumniados de todos os tempos e de todos os paizes; bem hajam{14} os simples, os eternamente ingenuos: foram elles que nos ensinaram; são elles ainda os que, atravez dos escolhos que as paixões semeiam na sociedade, nos guiam e conduzem ao ideal abençoado, á terra promettida da liberdade e da fraternidade humana!

*

* *

[BENOIT MALON]

O odio destróe e espalha a guerra. Só o amor póde construir e trazer a paz. Benoit Malon era a personificação do altruismo e da bondade humana. Era um santo e um virtuoso. Ninguem o excedeu em virtude. Ninguem o egualou em abnegação e desinteresse. Por isso a sua morte pôz o lucto nos corações e encheu de afflição todas as boas almas, candidas e generosas. Elle não foi só o mestre do socialismo: foi o exemplo vivo de quanto póde a vontade, quando levada e dirigida pelo amor e pela curiosidade{15} do saber. Elle foi a encarnação da alma moderna, em lucta com o presente e crente no futuro, pondo o ideal acima dos mesquinhos interesses do mundo e as ideias e os principios acima da ganancia sórdida dos homens e das sociedades.

Ah! sim!—dizia-me, pouco tempo depois da sua morte, Aurelien Scholl, o scintillante chronista parisiense—elle foi um dos raros e um dos privilegiados d'este fim de seculo! O meu pobre amigo vinha almoçar commigo de quando em quando. Um dia a minha creada perguntou-me, se poderia aproveitar a hora do almoço, para coser o sobretudo do sr. Malon, e se elle repararia... Respondi-lhe que cosesse o sobretudo, porque o sr. Malon nem sequer daria por tal... É que elle era tão bom, tão bom—rematou Scholl—que até as creadas de servir o amavam!

Eis aqui uma narrativa que vale bem por uma biographia! E tudo quanto podessemos accrescentar a estas palavras, ao mesmo tempo tão simples e tão pittorescas, seria superfluo e inutil. Nem mais ambicionaria, por certo, o chorado e saudosissimo author do Socialismo integral!

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* *

[LUIZ RUCHONNET]

Luiz Ruchonnet foi, por duas vezes, presidente do conselho federal da florescente e grandiosa republica suissa. Era um sincero amigo da paz, e,{16} como todos esses visionarios e sonhadores, que em Inglaterra se chamam Cobden, Hodgson Pratt, Henry Richard, Cremer, Darby, em França, Charles Lemmonier, Frederico Passy, Emile Arnaud, René Goblet, Edmond Thiaudière, A. Millerand, Camillo Pelletan, Augusto Vacquerie; na Italia, Bonghi, Siccardi, Mazzoleni, Theodoro Moneta; na Dinamarca, Frederico Bajer; na Belgica, Laveleye, Janson, Cesar de Paepe, La Fontaine; na Allemanha, Franz Wirth, Baumbach, Adolfo e Eugenio Richter; na Austria, a baroneza de Suttner e o dr. Adler; na Suissa, Angelo Umiltá, Carlos Menn, M.me Goegg; na America, Alfredo Love, dr. Trueblood, M.me Belva Lockwood—elle pertenceu a essa gloriosa raça de philantropos e humanitarios, que atravessam o mundo, deixando atraz de si um rasto de luz, e cujos nomes se perpetuam, atravez os tempos e as gerações, consagrados pela historia, pela sciencia e pelo trabalho.

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[RAMÓN CHÍES]

Na historia do livre pensamento, Ramón Chíes occupava um dos primeiros logares e era uma das personalidades mais em vista. Era um revolucionario por temperamento e por convicção. Não queria a republica simplesmente pela republica. Queria a republica sim! para elevar e engrandecer a sua patria aos olhos de nacionaes e estrangeiros. Para{17} elle a republica era uma phase transitoria; a phase organica e positiva estava no socialismo. Por isso foi, ao mesmo tempo, um socialista e um federalista. Tribuno, ninguem o excedeu em eloquencia, na defeza do luminoso principio da fraternidade e da solidariedade humana; publicista e jornalista de pulso, foi um apostolo constante, ardente, impetuoso e dedicado da federação iberica.

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[VICTOR SCHOELCHER]

Victor Schoelcher pertenceu a essa mocidade alegre e enthusiasta que forneceu ao author dos Miseraveis o seu typo d'Enjolras, o estudante de todas as sociedades secretas e de todas as conspirações. Franco-mação e conspirador, filiou-se na loja franceza dos Amis de la verité e na Sociedade Aide-toi, le ciel t'aidera.{18}

Estas eram, com algumas outras, as associações dos malfeitores d'aquelles tempos, no dizer picante e ironico de um distincto jornalista parisiense.

A grande e gloriosa figura de Schoelcher destaca-se na sua brilhantissima campanha contra a escravidão. Quiz vêr de perto e observar pelos seus proprios olhos a triste situação dos negros. E, para poder denunciar ao mundo a ignominia e a barbarie dos homens, partiu para a America, d'onde regressou, com o coração angustiado pela dôr e o espirito horrorisado por tudo o que havia presenceado e visto. Sendo sub-secretario d'Estado, no ministerio da marinha, por occasião da revolução de 1848, o seu primeiro cuidado foi apresentar um decreto para a libertação immediata dos negros.

Schoelcher encontrava-se ao lado de Baudin, na celebre e já hoje historica barricada da Bastilha.

A tropa marchava sobre a barricada, sem dar um tiro.

«—Amigos! gritou Schoelcher, voltando-se para o povo, nem um tiro até que a tropa abra o fogo.{19} Avancemos; se ella atirar, a primeira descarga será nossa; se nos matar, vós nos vingareis.»

E dirigindo-se depois aos soldados:

«—Nós somos os representantes do povo, exclamou. Em nome da constituição, reclamamos o vosso concurso, para fazer respeitar as leis do paiz. Vinde a nós; será vossa a gloria.»

E avançou para os soldados, commandados por um official. Seis dos seus collegas seguiram-n'o. A tropa parou indecisa.

—Cumpro as ordens, respondeu o official. Retire-se, se não quer que dê a voz de fogo.

—Mate-nos, se quizer, replicou Schoelcher.

E, dando o exemplo que foi seguido pelos companheiros, gritou: «Viva a Republica!»

O official mandou carregar.—«Avançar!»—ordenou.

Ouviu-se o ruido sêcco das baterias. Alguns representantes descobriram-se e quedaram-se com o chapéu na mão, esperando serenamente a morte. N'esse instante, um soldado atacou Schoelcher á baioneta. Os defensores da barricada, suppondo que se attentava contra a sua vida, desfecharam e mataram o soldado. A tropa respondeu por uma descarga geral. Foi então que Baudin subiu á barricada para exhortar os soldados. Uma bala feriu-o na fronte, cahindo logo fulminado.

Schoelcher, n'esse dia memoravel da sua vida, esteve á altura dos grandes heroes; e, á semelhança dos antigos paladinos, só abandonou o campo, quando nada mais restava a fazer. A barricada da Bastilha fôra improvisada de um momento para o outro; {20} construida no ar, para assim o dizer, sem elementos de resistencia, desfez-se e cahiu como um castello de cartas. Mas o patriotismo opera milagres. E só patriotas sinceros e devotados seriam capazes de semelhante audacia e de semelhante arrojo!

Chamaram-lhe idealista—um puro e nobre idealista!—a elle, que todos os seis mezes, na camara franceza, apresentava um projecto de lei para a abolição da pena de morte. Para o mundo, egoista e utilitario, são idealistas e são sentimentalistas, todos os que lhe não acceitam as falsas convenções e o tôrpe e vilissimo mercantilismo. E é precisamente de idealistas e de sentimentalistas que carecem e precisam as sociedades modernas! As grandes commoções da historia foram um producto do ideal e do sentimento humano. Assim como é preciso pensar para obrar, na phrase de Augusto Comte, é tambem preciso sentir para querer. Nem d'outro modo se comprehende o patriotismo, nem d'outro modo se poderiam comprehender as revoluções e os grandes dramas sociaes.

Perdida a causa em que pozéra todo o seu heroismo e todos os seus esforços, Schoelcher emigrou para Inglaterra, onde permaneceu durante o imperio, regressando a Paris em 1870. Estava no Hotel-de-Ville, a 4 de setembro, e tomou parte na defeza de Paris, na sua qualidade de chefe d'Estado-maior da guarda nacional.{21}

*

* *

[VICTOR CONSIDÉRANT]

Um dia Victor Consideram dirigia-se á Escola Polytechnica, e atravessava os caes de Paris, bouquinant, como dizem os francezes, isto é, entretendo-se a vêr as curiosas livrarias, de livros raros e antigos, que guarnecem as varandas dos caes, na margem esquerda do Sena, e que constituem uma das primeiras curiosidades da grande capital da França, quando, subito, se lhe deparou uma obra que lhe despertou a attenção e a curiosidade. Era o Nouveau monde commercial de Fourier. Abriu-o, leu-o e estudou o minuciosamente.

No fim do livro, Fourier dizia, pouco mais ou menos, o seguinte:

«Precisa-se um capitalista, para realisar um novo mundo. Carta para minha casa.»

E designava a sua morada.{22}

Considérant apresentou-se em sua casa.—«Não sou o seu homem, disse. Não tenho dinheiro, mas comprehendi-o».

Fourier havia encontrado o seu primeiro discipulo, que lhe levava a mais que os capitaes pedidos—o genio para vulgarisar as suas theorias.

Fourier nutrira, desde creança, um horror invencivel pelo commercio. Filho de commerciante, e tendo apenas sete annos de edade, ouviu um dia o pae gabar-se á mãe de haver enganado um cliente. Vexado por este proceder que qualificou de villão, procurou o freguez, afim de participar-lhe o occorrido. Valeu-lhe a indiscrição um bom par de bofetadas; mas, desde esse momento, votou ao commercio esse odio que transparece nos seus primeiros livros.

«Possuo o segredo da felicidade, para todos os homens—dizia».—Intimaram-n'o a provar praticamente a sua asserção.—«Escrevel-o-hei—respondeu».

«O genero sahe das mãos do productor, custando 3, por exemplo, e chega ás mãos do consumidor valendo 9. O intermediario, isto é o commerciante, ganhou, portanto, 6, na sua commissão, o que não succederia evidentemente, supprimindo-se o intermediario, e estabelecendo-se, pura e simplesmente, a troca entre productores e consumidores.

O seu systema baseava-se sobre o principio da felicidade humana, e o ideal do mosteiro de Théléme não foi estranho ás suas concepções. «A felicidade consiste em cada um fazer o que quizer.» Mas, fazendo cada um aquillo que quer, corre tambem o{23} risco de fazer o que os outros não querem. A esta objecção respondia elle que na natureza tudo se equilibra—o mal e o bem.

Fourier era um poeta, mas tinha-se por homem pratico. Uma occasião, terminando uma conferencia sobre o futuro da humanidade: «E agora, concluiu, preparemos o cosido.»

Ninguem contesta o grande alcance philosophico, da theoria phalansteriana; mas a sua parte organica e sociologica, observou muito bem Anthero de Quental, é quasi a negação do verdadeiro socialismo, positivo, liberal e moral.

Victor Considérant pretendeu primeiro fundar um phalansterio em Conde-sur-Végre que não passou de uma tentativa infructuosa. A ideia, porêm, fructificou mais tarde, embora de modo differente, por occasião da fundação de uma colonia de velhos, n'aquelle mesmo paiz, que se denominou—«o phalansterio.»

Em Texas estabeleceu Considérant, não um phalansterio, mas uma colonia agricola. Uma sedição, organisada por Cantagrel, desapossou-o do territorio e obrigou-o a retirar-se com sua esposa. A colonia prosperou a principio; depois desaggregou-se. Era mal vista pelos naturaes por causa da sua falta de religião—diziam.

Um pintor de Paris, Capy, ensinava a musica. «Todos os domingos, respondia elle a um inspector americano, fazemos musica.» Ah! n'esse caso, é differente, exclamaram os bons Yankees, sempre ali ha um pouco de religião, uma vez que se canta.»{24}

E a verdade é que as censuras cessaram. Os membros da colonia, tambem, por seu turno, deixaram de ser phalansterianos.

É mister ir a Iowa, para encontrar uma colonia communista—a Icaria. Tudo ali é commum, sem mesmo exceptuar as mulheres. Podem-se estabelecer uniões temporarias, mas de curta duração; se as uniões se prolongam, a authoridade intervêm, porque, nesse caso, affirmam os estatutos, a cousa torna-se immoral.

Vejamos, porêm, como Victor Considérant considerava a organisação da nova ordem social.

O primeiro feudalismo que sahiu da conquista militar, havia feito concessão do sólo aos chefes militares e aos nobres, subordinando as populações conquistadas á pessoa dos conquistadores pela servidão da gleba.

A guerra industrial e commercial, succedendo é guerra militar, sob a fórma de concorrencia, em que o capital e a especulação ficam forçosamente senhores do trabalho pobre, tende a constituir, pelas suas conquistas, uma nova servidão—não a servidão pessoal e directa, mas a servidão indirecta e collectiva, o dominio, em massa, da classe dos possuidores de capitaes, das machinas e dos instrumentos de trabalho, sobre a classe dos desherdados.

E, com effeito, os proletarios das cidades e dos campos, considerados collectivamente, estão sob a dependencia absoluta d'aquelles que monopolisam os instrumentos de trabalho.

Este grande facto economico e politico póde traduzir-se, pela seguinte formula, na vida pratica:{25} «Para ter que comer todo o proletario é obrigado a subjeitar-se a um patrão.»

A revolução não se completou, pela simples emancipação politica, isto é pelo dogma metaphysico da egualdade perante a lei, ou da liberdade pura e simples.

A antiga sociedade havia sido organisada, pela guerra e para a guerra. A nova sociedade terá de ser organisada pelo trabalho e pela paz e para o trabalho e para a paz.

O problema dos nossos dias não póde pois, visar senão á libertação dos servos da industria, dando a todo o homem que queira trabalhar o direito aos instrumentos do trabalho, tornando-o assim proprietario dos fructos do seu labor, e creando a ordem, a cooperação e a convergencia no campo industrial.

A solução d'este problema, que não é outra cousa senão a transformação do salariado, a moderna fórma de escravidão, constitue o complemento da revolução, e póde e deve intitular-se o problema social.

Tal era, em rapidos traços, a doutrina d'essa altissima personalidade e d'esse bello caracter que se chamou Victor Considérant, e que tantas vezes vimos atravessar o boulevard S.t Michel, no bairro latino, consagrado pela mocidade das escolas e venerado por todos os que, acima dos materialismos do mundo, põem o supremo ideal da bondade e da felicidade humana.{26}

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* *

[THEODORO HERTZKA E O SEU FREILAND]

Freiland! (terra livre, paiz livre)—tal é o titulo do livro de Theodoro Hertzka, um austriaco e um sociologo eminente.

Pelos meados de julho de 18...—assim principia a narrativa de Hertzka—lia-se o seguinte nos principaes jornaes da Europa e da America:

«Sociedade livre internacional

«Acaba de constituir-se um grupo de individuos de todas as partes do mundo civilisado, com o fim de emprehender e tentar a resolução do problema social.

«Ao cabo de muitas e pacientes investigações, opinou-se pela creação de uma communidade, estabelecida sobre as bases, ao mesmo tempo, da liberdade mais ampla e da justiça economica, a qual, mantendo de uma maneira absoluta a independencia pessoal de cada trabalhador, lhe assegure o{27} gôso completo e integral do producto do seu trabalho. Para fundar a mencionada communidade, occupar-se-ha uma vasta região, n'um local que não tenha possuidor, mas que seja fertil e proprio para a colonisação.

«N'esta região, a sociedade livre não reconhecerá nenhum direito de propriedade sobre o sólo, quer a favor de um individuo quer a favor da communidade.

«Para cultivar o sólo, como, de resto, para realisar toda a especie de producção, constituir-se-hão associações, sendo cada uma administrada como melhor o entender, e distribuindo, entre os seus membros, o resultado da producção, consoante o trabalho de cada um. É facultativo a cada membro o filiar-se na associação que escolher e de a abandonar tambem a seu bel-prazer. A communidade encarrega-se de fornecer gratuitamente os capitaes aos productores, com a condição d'estes os restituirem. Os individuos incapazes de trabalhar, assim como as mulheres, teem direito aos meios de subsistencia, á custa da sociedade. A receita indispensavel para a acquisição dos objectos, acima mencionados, assim como para as despezas de interesse geral, será assegurada por uma quota tirada do rendimento bruto de cada producção. A sociedade livre internacional possue já o numero de membros e de capitaes sufficientes para a realisação do seu plano. Sendo, porém, de opinião, por um lado, que o resultado d'esta tentativa ha de ser tanto mais seguro e efficaz, quanto maiores e mais importantes forem os meios de que disposer, e desejando, por outro lado, offerecer a todos o ensejo de poderem participar da empreza, a sociedade, pelo presente aviso, faz saber ao publico que os pedidos e offertas de qualquer natureza que sejam, devem ser dirigidos para Haya, Bochstraat, 57.

«A sociedade livre internacional celebrará em Haya, no dia 20 do proximo mez de outubro, uma assembléa politica em que serão apreciadas as ultimas resoluções, afim de realisar praticamente a sua obra.

Haya,... de julho, 18..

Pelo comité da sociedade livre internacional.

Karl Strahl{28}

Este annuncio produziu uma profunda emoção na imprensa e no publico. O nome do signatario, que era conhecido não só pela sua posição social, senão ainda por ser um dos primeiros escriptores da Allemanha em sciencia economica, afastava todo e qualquer pensamento de mystificação ou de equivoco.

Realisou-se um congresso que foi aberto pelo seguinte discurso de Strahl:

«A convicção de que a communidade, á fundação da qual vamos proceder, é destinada a extinguir a pobreza e a miseria pela base e a destruir com ella todos os desgostos e todos os crimes que devem ser considerados como uma consequencia forçada da miseria e da pobreza, essa convicção, apercebe-se não só nas palavras, senão tambem na maneira de obrar da maioria dos nossos consocios e no profundo e desinteressado enthusiasmo, segundo o qual cada um—na medida das suas forças—se tem applicado ao fim commum. Quando publicámos o nosso appêlo, eramos apenas 84; os recursos de que podiamos dispôr orçavam por 11.400 libras sterlinas; presentemente a sociedade compõe-se de 5.650 membros e o seu fundo monta a 205.620 libras sterlinas. Convêm notar que esta somma, não nos foi fornecida simplesmente pelas classes pobres que habitualmente se consideram como as unicas interessadas no problema social. E isto torna-se ainda mais evidente percorrendo a lista dos socios. Irresistivelmente, chega-se á conclusão de que a aversão e o horror, inspirados pelas actuaes condições sociaes, attingiram tambem as classes que, á primeira vista,{29} parecem aproveitar com as privações dos desherdados da fortuna. A resolução do problema social impõe-se hoje, por tal fórma, que até os ricos e os favorecidos da sorte não duvidam concorrer com alguns milhões de libras, para a fundação da nova communidade, auxiliando-nos e participando da nossa empreza. N'este facto, mais do que em qualquer outro, repousa a convicção de que a nossa obra não poderá deixar de fructificar.

«Trata-se de escolher a região onde poderemos realisar o nosso projecto. Toda e qualquer localidade europeia está naturalmente posta de parte, por rasões faceis de comprehender; a Asia, egualmente; e, em particular, devemos assignalar os pontos onde sóem acclimatar-se os emigrantes de raça caucasica, sendo facil que se estabelecessem conflictos com as organisações juridicas e sociaes de outros tempos. Na America e na Australia, os governos conceder-nos-hiam, com prazer, um territorio espaçoso, bem como a liberdade dos nossos movimentos; mas ainda ahi difficilmente poderia a nossa communidade encontrar garantia contra os ataques hostis e assegurar o repouso e a segurança, indispensaveis a um successo rapido e certo. Resta-nos a Africa, o continente mais antigo, e, sem embargo, aquelle cuja descoberta foi a mais recente. A parte central interior encontra-se ainda sem possuidor. Podemos encontrar ali, não só um espaço sem limite e um repouso assegurado, senão tambem as condições mais favoraveis, quanto ao clima e á fertilidade do sólo, desde que a escolha seja acertada. Ha paizes, a uma grande altitude, reunindo as vantagens dos tropicos{30} e dos Alpes, que aguardam uma immigração. As communicações com esses paizes montanhosos, situados no coração do continente negro, são certamente muito penosas, mas é precisamente isso de que havemos mister para principiar. Propômos pois, que se procure a nova patria, no interior da Africa equatorial. E pensamos, principalmente, no paiz das altas montanhas do Kenia. Concorda a assembléa com a escolha?»

Foi unanime o assentimento. Ouviram-se vozes que exclamavam:

«Para deante, e antes hoje do que amanhã!»

Era evidente que a maioria estava disposta a pôr-se a caminho sem mais delongas.

De novo o presidente toma a palavra para declarar que as cousas nem sempre podem marchar tão depressa, como muitas vezes se deseja. A nova patria terá primeiro de ser escolhida e conquistada, o que representa uma empresa arriscada e difficil. O caminho tem que fazer-se por entre desertos e florestas inhospitas. Não poderemos evitar os combates com as tribus selvagens e hostis, e, por isso, só nos poderão convir homens fortes e validos, e não mulheres, creanças ou velhos. Alêm d'isso, teremos que apurar os milhares de immigrantes que deverão acompanhar-nos, atravez d'aquellas regiões, e de os organisar devidamente; 200 emigrantes, entre os quaes 4 naturalistas, 3 medicos, 8 engenheiros e 4 representantes de outros ramos technicos, ricamente providos de armas, de machinas, de sementes, de mercadorias e de utensilios de viagem, formarão a vanguarda da expedição.{31}

A narração d'esta marcha até ao Kenia, constitue uma das partes mais interessantes do livro, devendo accrescentar-se que a descripção das grandiosas montanhas africanas não é obra de pura phantasia, mas é, ao contrario, extrahida das narrativas dos exploradores africanos que visitaram aquellas regiões. A expedição faz a sua primeira paragem em um valle delicioso, situado a 1:700 metros de altitude, ao sopé de um formidavel massiço do Kenia e das suas magnificas geleiras, e que se appellidará, por causa da sua belleza e da sua fertilidade, o valle do Eden. Com as provisões e os utensilios de que vão providos, podem os valentes porta-bandeiras da gloriosa caravana fazer os preparativos necessarios, para receber o principal grupo dos associados, se bem que só alguns mezes mais tarde, por occasião da chegada do comité director á base do Kenia, é que o paiz, onde refulgirá a liberdade, será baptisado com o nome de Freiland, pondo-se então, em pratica a nova organisação do trabalho, consoante os principios freilandezes.

Para todos os que se interessam pelo estudo das questões sociaes, e ainda para todos os que pensam que as modernas sociedades, desorganisadas como estão e lançadas em bases falsas, devem ser reconstruidas, segundo um principio de justiça e de moralidade, o livro do escriptor allemão é de um interesse palpitante[[1]]. Digamos tambem que o author{32} do Freiland teve a rara felicidade de despertar em muitos espiritos, pela sua maravilhosa obra, escripta em fórma de romance, o desejo ardente de fundar uma sociedade em tudo semelhante áquella que tão brilhantemente concebeu e descreveu.

Para vulgarisar e fazer a propaganda da ideia, creou e fundou a sociedade uma revista mensal, orgão dos associados:—«Freiland, organ der Freilandvereine».

Temos á vista uma carta de Theodoro Hertzka em que nos communica a partida de Hamburgo da primeira expedição, por todo o mez de janeiro do corrente anno, dirigindo-se ao Kenia, que fica a 600 milhas da costa de Este, exactamente sob o Equador.

E eis aqui está o motivo por que, depois de ter prestado homenagem á memoria dos mortos queridos, eu entendi que não devia continuar o meu trabalho, sem d'aqui saudar enthusiasticamente o honrado e illustre apostolo de uma nova organisação social, fazendo votos ardentes pelo completo triumpho dos seus ideaes.{33}

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* *

[NO CONGRESSO DE ZURICH]

[AMILCARE CIPRIANI]

Ao chegarmos a Zurich, na tarde de 6 de agosto de 1893—Amilcare Cipriani e eu—um soberbo e imponentissimo espectaculo se nos offereceu logo á vista, como só a Suissa seria capaz de offerecer e realisar. As sociedades do Grütli desfilavam pelas ruas da cidade, com os seus estandartes e philarmonicas á frente, no meio do enthusiasmo e das acclamações da multidão. Estas associações constituem uma das grandes e uma das primeiras forças da poderosa republica. A sua origem é lendaria, e deriva do local, onde se reuniram os amigos de Guilherme Tell, quando decidiram conspirar contra Gessler.

As sociedades do Grütli constituiram-se e organisaram-se, a principio, com um caracter puramente patriotico; mas teem-se transformado, pouco a pouco, e hoje são, na sua maioria, socialistas.

Nada mais bello e magestoso do que o desfilar d'esses 9:000 trabalhadores, todos pittorescamente vestidos com os trajos das suas profissões e os distinctivos correlativos, e precedidos por 150 bandeiras, quatro das quaes eram vermelhas.

São estas as procissões da republica, e ninguem que as presenceie póde deixar de se descobrir reverente{34} e solemnemente. O homem livre, associado e independente substituia o soldado escravo, tyrannisado e ás ordens de um senhor; ao principio da guerra contrapunha-se o principio da solidariedade humana; ao militarismo, o socialismo; ás armas e aos petrechos de guerra, os instrumentos do trabalho e os symbolos da paz.

O cortejo havia sido organisado em honra dos congressistas. Na rua, o povo formava alas á passagem dos seus representantes. Calculava-se em mais de 40:000 o numero dos cidadãos que accorreram ao chamamento dos iniciadores do congresso. Nas janellas os espectadores applaudiam phreneticamente e lançavam flôres á passagem dos manifestantes. A recepção era digna e estava em tudo e por tudo á altura das ideias que se glorificavam. Celebrava-se a abertura do congresso operario socialista e não havia, com effeito, melhor meio para solemnisar a gloriosa data.

Fallemos, porém, de Amilcare Cipriani.

Tenho deante de mim o seu retrato. Na sua physionomia transparece a bondade do seu coração, e nos seus olhos a candura e a gentileza da sua alma. Guardo d'elle a recordação saudosissima de um homem que põe a sua dignidade e o seu brio pessoal acima dos seus interesses e das suas conveniencias; do apostolo que colloca as ideias e os principios acima das paixões humanas; do revolucionario, emfim, que ao amor da humanidade sacrifica a vida, a familia, o bem estar e a tranquillidade. D'elle poderia dizer que é um exemplo a seguir e a imitar, e d'elle afirmarei, sem receio de contestação, que{35} é unico e excepcional, no meio de uma sociedade mercantil, gananciosa e covarde.

Amilcare Cipriani tem hoje 47 annos de edade, dos quaes 22 foram passados no carcere. Honrado, valente e desinteressado, nunca hesitou, sempre que a causa da liberdade careceu do seu braço para a defender. Bateu-se, como um heróe, no Egypto; bateu-se na Grecia: bateu-se pela Italia, a sua patria querida e bateu-se pela França, a sua patria de adopção.

Na parte inferior do seu retrato, e escriptas pelo seu proprio punho, lêem-se as seguintes phrases que synthetisam perfeitamente as suas aspirações e o seu credo social:

«Il proletariato, per essere libero ed emancipato, deve assingersi a rovisciare, colla forza, tutto l'ordine sociale existente.

Contre l'oppressione la ribellione é un diritto.»

Está aqui o homem politico. Fallemos agora no homem particular, no amigo e no companheiro queridissimo.

Soffreu sempre, com a maior resignação, todas{36} as crueldades e todas as privações da existencia, sem um queixume, sem uma magoa, sem uma palavra de odio ou de rancor. Muitas vezes o seu almoço é um copo de agua e um pequeno pão de 15 centimos.

Tendo amigos sinceros e dedicados, nunca pediu, para si, um real a nenhum d'elles. Se tem apenas 20 centimos no bolso, come com esses 20 centimos: se não tem dinheiro não come. Estando em Londres exilado, nem sequer tinha um quarto onde dormir. Por noites geladas e frias, com as botas rotas, sem abrigo, sem dinheiro no bolso, era obrigado a andar horas seguidas pelas ruas da enorme cidade, para não ser preso por vagabundo.

Quando falleceu o nosso querido e lealissimo amigo Benoit Malon, foi elle quem se conservou ao lado d'elle, durante quatro dias consecutivos; foi elle quem o vestiu e quem velou o cadaver, sem se deitar, sem sentir a menor fadiga, não pensando senão na amisade e no carinho que lhe consagrara durante a vida, e que tão bem retribuido foi pelo glorioso mestre. Mas no dia do enterro, apossou-se d'elle o desalento, no cemiterio do Pére Lachaise. Passavamos ao lado do tumulo do grande cidadão Anatole de la Forge.

—«Eis aqui um que foi candidato á presidencia da republica, que se bateu heroicamente pela sua amada França, e que teve de recorrer ao suicidio para não morrer de fome!—disse.—Eis a sorte que naturalmente me está tambem reservada—continuou.—Mas eu, se um dia me suicidar, hei de escolher o muro dos federaes para o fazer, e, quando,{37} junto d'elle, encontrarem o meu cadaver—que o transportem para onde muito bem quizerem, sem pompas nem discursos... Detesto as comedias e as representações theatraes deante de um cadaver.»

Ah! bom e querido amigo! n'essa hora angustiosa, tu pensaste na ingratidão dos homens, e, em frente do camarada morto, avaliaste a torpeza do mundo e a inanidade das suas palavras hypocritas e fementidas!

Os longos soffrimentos produzem, ás vezes, estes desanimos crueis. São momentaneos, é certo, mas são dolorosos.

Sahimos do cemiterio e fomos almoçar juntos. Duas horas depois, Amilcare Cipriani havia recobrado animo, e fallava-me em ir bater-se na Sicilia, ao lado dos seus compatriotas, victimas da miseria e do despotismo.

Que honradissimo caracter! e que gloriosa e brilhante personalidade!

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[O CONGRESSO]

As sessões do congresso realisaram-se n'um vasto salão de concertos, um dos mais espaçosos da cidade, o Tonhalle, rodeado por uma enorme galeria, onde podiam accommodar-se muitas centenas de pessoas. Ao fundo, n'uma especie de palco, coberto de verdura e ornado com os estandartes das associações, destacava-se um magnifico retrato em{38} busto de Karl Marx. Em redor e collada á galeria, a inscripção do chefe, impressa em grandes caracteres, e traduzida em vinte e duas linguas: «Proletarios de todo o mundo, uni-vos!»

Grandes mesas, collocadas parallelamente umas ás outras, enchiam o vastissimo salão, sendo cada uma d'ellas occupada pelos representantes de uma dada nacionalidade.

A representação da Allemanha não augmentara. Era quasi a mesma do congresso de Bruxellas. Á frente d'ella encontravam-se Liebknecht, Bebel e Singer. A novidade foi a representação dos novos, hostis ao velho grupo; e d'entre esses, chamados os independentes, devemos destacar Werner e Körner.

Da Belgica, estavam Hector Denis, Jean Volders e Emile de Vanderwelde; da Hollanda, Domela Nieuwenhuis; da Hespanha, Pablo Iglesias; da Roumania, Mille; da Inglaterra, Max Avelling: da França, Allemane, Argyriadés, Jaclard, Veber, Degay, Borlioz; da Austria, Adler, Fankel.

Augmentára consideravelmente a representação da Italia.

Além de Madame Anna Koulischoff e Turati, um sociologo eminente e director da Critica social, de Milão, assistiam ao congresso Antonio Labriola, lente cathedratico da Universidade de Roma; Prampolini, deputado, etc.

Entre as senhoras que tomaram assento na assembléa, notavam-se, como acima deixamos dito, Anna Koulischoff, russa, antiga nihilista, que fez o seu curso na Universidade de Milão, onde hoje exerce a clinica; Madame Mendelssohn, da Varsovia, casada{39} com Mendelssohn, que fôra expulso de Paris, por nihilista; Madame Vera Sassulich, a notavel heroina que, em 1878, desfechou o seu rewolver sobre o general Trepoff, o miseravel chefe de policia de S. Petersburgo, inimigo dos nihilistas e que tantas victimas arremessou para a Siberia. Trepoff morreu e Vera Sassulich, a grande libertadora, emigrou, sob um nome supposto, escapando ao furor das auctoridades russas, e vivendo ora na Italia, ora na Suissa. É uma mulher de armas, no bom sentido da palavra, honesta, intransigente e sincera e devotada amiga da liberdade e da humanidade.

O congresso foi encerrado com a grata e inesperada apparição do velho companheiro e continuador de Marx—Frederico Engels. Quando o presidente annunciou que se achava na sala um dos illustres precursores do socialismo, todos se pozeram de pé, e no palco surgiu, então, a figura gloriosa de Engels. O enthusiasmo foi indescriptivel. Uma estrondosa salva de palmas coroou esta agradavel surpresa. Viva a Communa!—gritou a delegação francesa. Viva Engels!—exclamaram todos numa voz unisona, formidavel e estridente.{40}

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[A ALLEMANHA, A BELGICA E A INGLATERRA]

Os paizes onde o socialismo está hoje, incontestavelmente, mais bem organisado e desenvolvido, são a Allemanha e a Belgica. Na França dividem-se e subdividem-se os grupos, chocam-se as personalidades, e os odios e as desintelligencias evidenceiam-se a cado passo. Na Inglaterra, apesar dos progressos realisados, n'estes ultimos tempos, principalmente pela adhesão das Trades—Unions, ainda o socialismo não representa o que póde chamar-se um partido politico.

Na Allemanha, os mesmos pruridos militaristas que se observam nas altas regiões, reflectem-se, com maior ou menor intensidade, no partido socialista. Nota-se, principalmente, este facto nos congressos, onde, a um simples aceno do deputado Singer, todos os delegados approvam ou reprovam, consoante as instrucções de ante-mão estabelecidas. A mesma disciplina do exercito estende-se aos partidos e aos agrupamentos politicos. E ai! d'aquelle que se desviar destas normas: corre o risco de ser expulso, sem mais appêlo nem aggravo.

O partido socialista está pois, organisado, na Allemanha, como um verdadeiro partido politico, um partido de governo, poderiamos, talvez, dizer, com uma caixa de resistencia, os seus jornaes, as suas{41} associações e os seus milhares de filiados, em todas as cidades, em todas as villas e em todas as aldeias do vasto imperio. Todos, sem excepção, são obrigados a concorrer para as despesas do partido, e, n'este facto, reside a base do direito de cada um, como partidario ou membro da associação. Não se concebe um partido, sem os recursos indispensaveis, para fazer face ás eventualidades de momento e para combater o adversario, com vantagem. Os allemães sabem isto, e eis ahi está o motivo porque o numero dos partidarios do socialismo sobe de dia para dia na Allemanha, e por que os socialistas contam, presentemente, com quarenta e sete deputados no Reichstag, tendo augmentado, a representação partidaria, nas ultimas eleições.

Liebknecht, um dos chefes consagrados pela opinião, e o director do Vorwöerths, o orgão do partido na imprensa, tem ácerca da politica a mesma opinião que poderia ter, em campanha, um general ácerca da guerra. Deante do inimigo, o dever é unir fileiras; e, todo aquelle que abandonar ou se arredar{42} do seu posto, tem de ser considerado como desertor. E aqui está o motivo porque, no partido operario socialista allemão, nem se admittem os dissidentes nem os independentes. Todos por um e um por todos!—eis a maxima dos chefes. E n'este simples facto, muito digno aliás de ser imitado, por todos os partidos avançados, está a origem da força, do desenvolvimento e dos progressos do socialismo na Allemanha.

Na Belgica acabam os socialistas de alcançar um enorme triumpho, pela conquista do suffragio universal que até aqui não possuiam. O belga é homem essencialmente pratico. O partido socialista, tendo reconhecido a necessidade de organisar as suas forças, estabeleceu as grandes cooperativas de consumo, principalmente de pão e de carvão, e logrou attrahir a si o elemento trabalhador, disciplinando-o, pelo interesse, e pela conveniencia, que da associação economica poderia advir á sua futura existencia. E as cooperativas belgas tornaram-se assim, não só valiosos elementos de cooperação, senão poderosas e temiveis armas de combate, pois que, dos lucros a destribuir, ficam sempre em caixa uns tantos por cento, para as despesas da propaganda. Não raro tem succedido fazerem as cooperativas face a uma gréve, distribuindo, diariamente, aos grevistas, alguns milhares de pães.

Não póde contestar-se o enorme progresso, feito pelo socialismo em França que acaba de eleger quarenta e nove deputados, tendo, principalmente, alcançado, em Paris, um assignalado triumpho. Mas é para lastimar que não seja completa a união entre{43} os differentes grupos que representam as ideias socialistas. A franca adhesão de René Goblet, A. Millerand, J. Jaurés, Camille Pelletan e outros notaveis politicos e publicistas, deu ao partido um grande e decisivo impulso, e creou-lhe, na camara, uma situação politica innegavel.

A Petite Republique Française é hoje, na imprensa, o orgão do novo grupo. O seu redactor principal—A. Millerand—é um escriptor de raça e um dos mais brilhantes e eloquentes oradores da camara franceza. O programma por elle exposto na sessão de 16 de fevereiro de 1893, foi adoptado por quasi todos os candidatos socialistas, nas ultimas eleições: «Revisão democratica da Constituição de 1875; modificação radical e profunda, no interesse dos trabalhadores dos campos e das cidades, da nossa legislação economica e do nosso systema de imposto; acquisição para o Estado do Banco de França, das minas e dos caminhos de ferro, arrancando-os das mãos da alta finança.»

O primeiro acto politico de Millerand, foi a defesa dos mineiros de Monceau les Mines, em 1882. Desde então, nunca mais houve gréve em França, em que elle não tenha posto o seu talento e as suas grandes faculdades de orador ao serviço das victimas dos patrões gananciosos e usurarios. E assim o vêmos na brecha, defendendo successivamente os mineiros de Decazeville, os grevistas de Vierzon, e os mineiros de Carmaux que o haviam escolhido como arbitro.

Foi elle o defensor de Duc-Quercy e Roche, em Villefranche, de Lafargue e Culine, perseguido por{44} causa dos fusilamentos de Fourmies, de Baudin, em Bourges, e de muitos outros.

Adversario implacavel da alta finança, Millerand pronunciou, contra a renovação do privilegio do Banco de França, um dos seus mais bellos discursos, «atacando essa realeza do ouro que trata de egual para egual com a Republica, e que, mercê da fraqueza e da cumplicidade dos regimens anteriores, chegou á situação em que actualmente se encontra.»

E, melhor que todas as periphrases, uma citação poderá dar-nos uma ideia da sua eloquencia. A peroração do seu discurso, relativo ao privilegio do Banco de França, em que convida a burguezia a unir-se ao movimento de transformação universal que se opera no mundo economico, é notabilissima:

«A massa dos trabalhadores, libertada por tres revoluções, poz-se a caminho; quer que o suffragio universal tenha por complemento necessario o bem estar universal. Pensa que ha contradicção{45} em que um povo seja, ao mesmo tempo, miseravel e soberano.

«A nação quer entrar na posse e no gozo de instituições, que até hoje teem sido exploradas, apenas em proveito de um pequeno numero de favorecidos. Vós não retardareis, nem a sua marcha, nem as suas conquistas. É mister saber fazer a tempo os sacrificios necessarios.

«Responder-me-hão, talvez, os defensores do privilegio, que o sacrificio, que lhes pedimos poderá sahir caro ao paiz. Assim o pensam, estou convencido. Não ponho em duvida nem a sua sinceridade nem a sua boa fé. A illusão não é nova. É velha como a humanidade...

«Assim como outr'ora succedeu com a nobreza, a burguezia invoca os serviços já prestados, e os que, por ventura, ainda poderá prestar. Não nego os seus serviços. É, sem duvida, bella e grande a parte que, ha cem annos, tem tomado no desenvolvimento do commercio e da industria e no aperfeiçoamento das sciencias. Se pretende invocar os seus serviços, como outros tantos titulos ao reconhecimento publico, está no seu papel e no seu direito. Mas se pensa poder abusar da sua antiga supremacia, para manter, na sombra e no esquecimento, a multidão dos desherdados que, por sua vez, pedem lhes seja reconhecido o direito que teem á luz, á acção, ao desenvolvimento integral da sua personalidade; a participação, n'uma palavra, á vida e á felicidade; n'esse caso, está irremediavelmente perdida. Eu quereria apenas que a sua teimosia e a sua obstinada resistencia não custassem muito caro ao paiz.{46}

«O progresso é cego, ingrato e brutal: os interesses particulares valem pouco deante d'elle. N'esta grave questão do credito, como em todas as outras, o que devemos fazer é aplanar-lhe o caminho, facilitando a sua marcha, e poupando assim ao paiz de que somos servidores algumas d'essas luctas violentas, d'essas convulsões dolorosas, d'essas supremas crises de sangue e de lagrimas, que até aqui teem assignalado cada uma das étapes, cada um dos progressos da historia e da evolução humana.»

A Petite République, collaborada por alguns dos principaes socialistas francezes, entre os quaes convêm assignalar René Goblet, Jules Guesde, Marcel Sembat, J. Jaurés, Ed. Vaillant, Eugène Fournière, Hovelacque, E. Baudin, Gustave Rouanet, Dumas, Pierre Baudin, René Viviani, Clovis Hugues, Paul Lafargue, Camelinat, Duc-Quercy, Gérault-Richard, Madame Paule Mink, etc., é, por sem duvida, o grande reducto do socialismo parisiense, e em volta d'elle, teem os adversarios e conservadores de todas as côres e matizes estabelecido um verdadeiro estado de sitio, atacando-o, formulando accusações e inventando calumnias, que não servem para outra cousa senão para exaltar ainda mais a ideia, se é possivel, elevando e glorificando aquelles que a defendem.

Tambem o socialismo agrario se tem desenvolvido, em França, de uma maneira espantosa. Acaba de o provar o ultimo congresso dos socialistas agrarios, realisado em Auxerre, em que tomaram parte quasi todos os deputados do partido operario socialista. A maior parte dos congressistas estavam{47} de blusa de trabalho e de tamancos, com as mãos calejadas da enxada.

Os socialistas agrarios francezes possuem hoje mais de 150 secções, organisadas no Este e no Norte. O deputado Thivrier representa na camara o elemento socialista da população rural do Allier.

Thivrier assiste de blusa azul ás sessões parlamentares. Fóra do parlamento tambem a não despe nunca. Conheci-o no Coq d'Or da rua Montmartre. Apresentou-m'o Cipriani. O Coq d'Or é o rendez-vous de todos os socialistas militantes. Pelas 6 horas da tarde, são certos, n'aquella cervejaria, Eugene Fournière, Gustave Rouanet, Gérault Richard, Camélinat, Baudin, Degay e muitos outros.

Thivrier é dotado de caracter energico; homem de poucas palavras, mas firme e resoluto; e isso explica a attitude por elle tomada na camara franceza, por occasião da sua expulsão.

O camponez é, em geral, refractario á propaganda socialista. Os socialistas da cidade variam inteiramente de processo, quando se trata da população rural. A propaganda, em vez de ser humanitaria,{48} transforma-se em socialismo pessoal, baseado no communismo liberatorio—a união dos pequenos proprietarios e caseiros communaes, em opposição aos syndicatos patronaes e aos grandes agricultores.

O congresso de Auxerre elaborou já o programma das reivindicações dos socialistas agrarios.

Na Gran-Bretanha e Irlanda, o movimento socialista tem feito grandes progressos. Pela primeira vez, foram nomeados para assistir a um congresso, em Zurich, os membros do parlamento, como delegados de organisações operarias.

Coube a John Burns, o heroe de 1887, e o eloquentissimo deputado de hoje, essa suprema honra e essa suprema gloria.

Os trabalhadores agricolas começam tambem a despertar n'aquelle paiz, e o partido operario acaba de se constituir, como partido independente, sem ligações com os antigos partidos, o que demonstra evidentemente que o movimento socialista tem ali augmentado em poder e extensão.{49}

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[A ITALIA, A SUISSA, A HESPANHA E PORTUGAL]

O partido socialista italiano divide-se em duas grandes escolas: a escola evolucionista e a escola revolucionaria. A primeira tem recrutado os seus numerosos adherentes na alta Italia e na Italia central, ao passo que a segunda tem recrutado especialmente os seus adherentes na Italia meridional.

Mas, áparte a questão de methodo, as duas escolas caminham conjunctamente, tornando-se muitas vezes difficil delimitar os dois campos.

Os evolucionistas consideram a revolução como uma fórma violenta da evolução, e pensam que, sem haver necessidade de a provocar, a revolução ha de produzir-se violentamente no dia em que todos os trabalhadores tiverem adherido ao socialismo.

Os revolucionarios, admittindo as grandes vantagens que resultam de um paciente e demorado trabalho de preparação, sustentam que o operario italiano é já bastante socialista, para que seja necessario ainda esperar. Segundo a opinião d'estes ultimos, uma longa espera poderia levar os trabalhadores a duvidarem do triumpho da sua causa.

Á organisação dos fasci dei lavoratori se deve o enorme desenvolvimento que ultimamente tem adquirido o movimento socialista na Italia.

Os fasci (fachos) são associações operarias, tendo{50} por base a cooperação e por fim o triumpho do collectivismo, segundo as theorias de Karl Marx. As mulheres tambem são admittidas.

O primeiro fascio foi fundado em Catanea, ao sopé de Etna, no dia 1.º de maio de 1890. Em menos de quatro annos, fundaram-se na Sicilia mais 160 fasci. O numero de adherentes subia, ainda ha poucos mezes, a 300:000, na sua maioria agricultores.

O sr. Giolliti, então presidente de conselho, principiou a preoccupar-se seriamente com o movimento socialista dos fasci, e, num intuito de repressão, mandou á Sicilia o commandante Sensales, senador, com o fim de dissolver aquellas associações.

Sensales estudou, inquiriu, investigou, e nada encontrou que podesse servir de pretexto a uma dissolução; o que não impediu o ministro de encher a Sicilia de soldados, obrigando as auctoridades a uma repressão rigorosa e até sangrenta, se tanto fosse necessario. O massacre de Giardinello foi o resultado d'estas ordens.

Mas as medidas de rigor, empregadas pelos emissarios do governo, não serviram senão para augmentar a popularidade dos fasci, já então muito grande, chamando para elles as attenções de toda a Italia. Os seus fundadores aproveitaram as circumstancias, para crear novas secções e recrutar alguns milhares de novos adherentes, de modo que o numero dos associados dos fasci, pode hoje bem avaliar-se em 400:000. Em pouco tempo será de meio milhão.

Os fasci passaram da Sicilia para o continente, onde a sua organisação avança rapidamente, e em{51} especial na Calabria, nos Abruzzos, na Ponille e na Romagna. Em Roma e Napoles, tambem foram fundadas muitas secções dos fasci.

A propaganda pelo facto é repellida pelos socialistas italianos, que nada esperam da dynamite. O partido socialista italiano não é terrorista, mas pacificamente revolucionario, na phrase consagrada.

Semelhantemente ao que succede na Irlanda, o socialismo agrario, tem tomado, na Italia, um incremento espantoso, n'estes ultimos tempos. Os governos são impotentes para o debellar. Não basta só mandar fusilar o povo faminto que se revolta nas ruas e nas praças publicas, como succede na Sicilia. Emquanto as causas do mal subsistirem, os effeitos hão de continuar a dar-se, fatal e irremediavelmente. O que importa pois, na Italia, é conjurar a crise economica e financeira que a levaram á ruina, e d'isso não serão capazes os governos monarchicos. Por isso o partido socialista, que já hoje constitue um partido forte e invencivel, ha de ir augmentando de dia para dia, até ao momento do seu triumpho. As adhesões a estas idéas emancipadoras, chegam a cada passo e de todos os pontos do paiz. O grande escriptor Edmundo de Amicis converteu-se ao socialismo, e é hoje uma das suas figuras mais salientes. Collajani, o celebre deputado que levantou no parlamento a questão dos bancos, é tambem socialista. Collajani é o temivel adversario de Lombroso. Combate o atavismo, e sustenta, com os positivistas modernos, que o individuo não é senão um producto do seu meio. Giuseppe Felice, o deputado siciliano, que foi preso por{52} occasião dos acontecimentos da Sicilia, é uma das mais nobres e sympathicas personalidades do movimento agrario, e é muito considerado entre os seus concidadãos. O mesmo com Claudio Treves, um moço de raro e excepcional talento, e tantos outros que seria longo enumerar aqui.

Para mostrar quanto o socialismo agrario tem uma rasão de ser na Italia, basta que façamos um pequeno estudo sobre os impostos n'aquelle paiz.

«Vejamos o que paga uma familia operaria na Romagna. O chefe da familia ganhou, durante o anno, 586 liras e 72 centimos. Comprou 7 hectolitros de trigo. Mas esse cereal paga o direito de 5 francos por kilo. Segue-se pois, que de imposto para o Estado e para lucro dos que vivem á sombra da protecção aduaneira, o operario foi logo espoliado em perto de 26 francos.

«Comprou tambem 7 hectolitros de milho, e sobre essa compra teve de pagar 6 francos de imposto.

«Pelo vinho nada pagou, porque apenas bebeu agua. Compra, por semana, um litro de sal para sua casa. Com esse consumo lucrou o governo, no fim do anno, 15 francos e 60 centimos. Pela sua illuminação, gasta, cada semana, em sua casa, 20 centimos com petroleo. No fim do anno somma esta despesa 10 francos e 40 centimos. Só á sua parte, embolsa o governo 7 francos e 10 centimos.

«Vivendo mais que modestamente, a familia, em todo o anno, gastou em fato 15 francos e 25 centimos. Em impostos, exigem-lhe cêrca de 3 francos. De modo que só n'estas verbas, o contribuinte concorreu para o Estado com 10 por cento do seu ganho.{53}

«Junte-se a tudo isto os impostos directos, os impostos supplementares de consumo e outros que ha em muitas communas da Italia, e ver-se-ha a rasão que assiste ao desgraçado que, trabalhando mais do que póde, deixa nas garras do fisco quasi todo o resultado do seu labor.

«A miseria é tanta e tamanha, que, nas pequenas communas da Sicilia, o povo apenas póde comer pão ordinarissimo, fabricado com farelos. E, nas ricas e uberrimas planicies da Lombardia, as classes trabalhadoras tambem não teem para se alimentar mais que a polenta, uma especie de massa de farinha de milho, havendo muitos que, por extrema pobresa, nem sequer podem temperar com sal essa miseravel comida.»

Ora foi precisamente contra este triste estado de cousas, que o sympathico e honrado deputado siciliano de Felice levantou o grito de revolta que logo se repercutiu em todo o paiz, com a rapidez de um relampago.

De Felice Jiuffrida nasceu em Catanea, no anno de 1860.

Socialista convicto, havia-se assignalado na imprensa, pelos seus rudes ataques contra a monarchia, o que lhe valeu varias condemnações. Em 1887, durante a epidemia cholerica, que dizimava o sul da{54} Italia, deu provas de grande dedicação e de altissimo valor. O governo quiz distinguil-o com a medalha de ouro; mas elle recusou a distincção, dizendo, «que da monarchia só acceitava a perseguição.»

Algum tempo depois, tendo sido condemnado a dois annos de prisão, por abuso de liberdade de imprensa, refugiou-se em Malta, d'onde regressou, em 1892, eleito, ao mesmo tempo, por Catanea e por Palermo.

Foi, em virtude da parte activa e intelligentissima que tomou na organisação dos Fasci, especialmente na Calabria e na Romagna, que o governo ordenou a sua prisão.

Foram dissolvidos os Fasci, sob protexto de attentarem contra as instituições; mas não morreram as idéas e os principios por elles representados. Ao contrario, avigoraram-se na lucta. De Felice foi o glorioso interprete da opinião popular. A consciencia publica estava com elle e applaudiu-o. Isto basta, para que seja immorredoura a sua obra e seja glorificado o seu nome, que é o nome de um bravo e o nome de um heróe!

No congresso operario de Bruxellas, em 1891, nem a Italia nem a Suissa poderam apresentar relatorio: tão escassas eram as forças socialistas n'aquelles dois paizes. Em dois annos os progressos realisados por elles são superiores a toda a expectativa e de molde a surprehender todos os espiritos.

Na Suissa todas as organisações profissionaes se constituiram em federação. A federação dos syndicatos profissionaes{55} tem progredido de dia para dia, possuindo uma receita de 28.000 francos, dos quaes 15.800 são reservados a soccorros, em casos de gréve. É de cêrca de 15.000 o numero de associados. A federação operaria suissa conta 200.000 adherentes. A sociedade suissa do Grütli comprehende 350 secções, com 15.000 societarios, possuindo um orgão central, o Grütli, que se publica tres vezes por semana.

A estas organisações, convêm ajuntar o partido democratico socialista suisso que existe, na sua fórma actual, desde 1888, possuindo, em commum, com a federação dos syndicatos profissionaes um orgão especial—o Arbeiterstimme (a Voz do operario).

No conselho nacional suisso, não contam os socialistas senão um representante. Mas é certo que o movimento se alastra por todo o paiz, a passos de gigante. Particularmente, são para registar os progressos realisados pelo partido na Suissa allemã.

Em Hespanha, o partido socialista contava cêrca de 30 grupos, por occasião do congresso internacional de Bruxellas; segundo o relatorio, apresentado ao congresso de Zurich, o partido conta hoje 50, dos quaes 6 pertencem aos trabalhadores agricolas.

Nas ultimas eleições geraes para deputados, obtiveram os socialistas 7:000 votos—2:000 a mais do que os obtidos nas eleições de 1890.

Na Hespanha,—e é este o principal facto a notar—o movimento socialista, que, não ha muito ainda, comprehendia quasi exclusivamente os trabalhadores manuaes, tem ganho, pouco a pouco, o{56} professorado, os jornalistas e os homens de letras; e hoje, pode-se dizer afoitamente que o socialismo cathedratico está, no visinho paiz, á altura d'aquelles que, como a Belgica e a França, mais se vangloriam com o progredimento das novas ideias nas escolas e nas universidades.

Em Portugal continuam os socialistas, n'uma propaganda activa e utilissima, prégando as vantagens e os beneficios do principio da associação de classe, reclamando dos poderes publicos leis protectoras do trabalho, reunindo congressos, publicando jornaes e obras de propaganda, e tornando-se em tudo dignos dos esforços dos seus irmãos e camaradas no estrangeiro. O modo firme, serio e correcto por que os socialistas portuguezes celebraram o primeiro de Maio, no proximo preterito anno de 1893, bastaria para lhes attrahir as sympathias do publico, se outros factos os não tivessem já recommendado ao suffragio popular.{57}

[II
O PROGRAMMA SOCIALISTA]

[O PROGRAMMA DO PARTIDO OPERARIO.—PARTE POLITICA E PARTE ECONOMICA.—JULES GUESDE E PAULO LAFARGUE.—O PROGRAMMA DO PARTIDO SOCIALISTA EM PORTUGAL.]

O programma do partido operario socialista francez, que é hoje considerado como o programma commum a todos os partidos operarios, foi elaborado por Jules Guesde e Paulo Lafargue. Digamos pois, algumas palavras, ácerca de cada um dos dois apostolos do socialismo.

[JULES GUESDE]

Jules Guesde póde e deve ser considerado, em França, como o verdadeiro chefe do partido operario marxista. E, se tivessemos de avaliar os seus meritos pelo numero das condemnações já soffridas por causa do socialismo, o seu logar de honra seria na primeira fila e ao lado dos primeiros combatentes da ideia. A sua primeira condemnação, em Montpellier, a cinco annos de prisão, por causa de um artigo, publicado no jornal Os Direitos do homem,{58} teve uma grande influencia na sua existencia politica e no desenvolvimento do seu espirito.

Mes Guesde refugiou-se em Italia e depois na Suissa, onde encontrou muitos francezes exilados, por causa dos acontecimentos da Communa. Bakounine e Marx estavam então em lucta. Guesde não se pronunciou, nem por um nem por outro, contentando-se apenas em assimilar a doutrina de Marx; e por tal fórma o conseguiu, que hoje os dois nomes, o do fundador do socialismo allemão e o do propagandista do collectivismo marxista, em França, são inseparaveis.

Voltando a Paris, em 1876, Guesde tentou baldadamente fazer a propaganda da doutrina allemã. A primeira proposta collectivista, feita em 1878, no congresso de Lyon, foi regeitada por grande maioria.

Todavia, em Paris, devia realisar-se, n'esse mesmo anno, um segundo congresso, por occasião da exposição universal. O governo quiz prohibil-o. A minoria guesdista, porém, não fez caso da prohibição; reuniu-se, recebeu solemnemente os delegados estrangeiros e estabeleceu a base do collectivismo.{59} Guesde proseguiu nos seus trabalhos, com trinta e sete dos seus amigos, pronunciou um notavel discurso, considerado como um verdadeiro manifesto do socialismo revolucionario, e tornou-se, por esse facto, o chefe incontestado do partido.

Tornava-se mister um programma ao socialismo francez. Guesde fôra encarregado, pelo congresso de Marselha, de o elaborar. Partiu para Londres, e redigiu-o ali sob a direcção de Marx e com a collaboração de Lafargue e de Engels.

O congresso nacional do Havre, ao qual foi submettido, approvou-o, estabelecendo definitivamente a ruptura entre collectivistas e cooperativistas. O partido operario adoptára o principio da lucta de classes, da propriedade collectiva e da revolução.

N'este programma havia, todavia, uma lacuna. Não se havia pensado senão no operario das cidades. O trabalhador dos campos fôra esquecido. Foi essa a missão do congresso de Marselha de 1892.

No seu ultimo manifesto eleitoral, Jules Guesde repelle os meios violentos. A revolução, escreveu, é antes um resultado, um facto, do que uma doutrina, e desde que os socialistas resolveram recorrer e acceitar o suffragio universal, é porque renunciaram, pelo menos provisoriamente, aos outros meios. No programma do partido operario, já formulara, de resto, o principio «de que a organisação socialista deveria ser levada a cabo por todos os meios de que o proletariado podesse dispôr, sem excluir o suffragio universal.»

Jules Guesde deve contar quarenta annos de edade, e foi quem, no congresso de Paris, em{60} 1889, propoz a manifestação do 1.º de Maio. É hoje deputado por Roubaix. Na camara franceza está-lhe reservado o successo a que dão direito o seu grande saber e a sua notavel eloquencia.

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[PAULO LAFARGUE]

Estão ainda certamente na memoria de todos os fusilamentos de Fourmies do 1.º de Maio de 1891, e o julgamento e a condemnação de Paulo Lafargue, por «ter prégado o socialismo no departamento do Norte,»—no dizer dos seus juizes. Pois foi precisamente este facto que o levou á camara dos deputados. O mesmo departamento do Norte, entendeu que devia corrigir as demasias e a violencia do governo, elegendo-o deputado. Havia um ou dois mezes que Lafargue déra entrada no carcere, sahindo d'ali, victorioso e triumphante, em direcção ao palacio Bourbon.

O dr. Lafargue é uma das figuras mais originaes{61} do partido socialista. Ao mesmo tempo, theorico e homem de acção, ha seguramente trinta annos que se mantem na lucta, e sempre com a mesma altivez e com a mesma dedicação.

Sendo estudante de medicina em 1866, foi elle um dos organisadores do congresso de Liége, onde a bandeira negra se arvorou, como que para indicar que a França estava de lucto. No seu regresso, o imperio vingou-se, excluindo-o de todas as faculdades.

Lafargue partiu então para Inglaterra. Fez em Londres o conhecimento de Karl Marx, que o iniciou no socialismo scientifico, alistando-o na Associação internacional dos trabalhadores.

Genro de Karl Marx, occupou-se activamente da organisação do partido socialista francez, cujo programma, elaborado no gabinete do celebre revolucionario, é em parte obra sua.

Foi tambem em Londres que elle se ligou com Jules Guesde. Permaneceram ambos fieis á doutrina orthodoxa e são, em França, os seus verdadeiros representantes.

—É na officina—dizia Lafargue na sessão da camara dos deputados de 16 de fevereiro de 1893—é na officina que principia a exploração da classe operaria; é ali que ella é roubada do producto do seu trabalho, e é por isso que, na sociedade actual, a classe operaria que tudo produz, é precisamente aquella que nada possue, ao passo que a classe que não trabalha é possuidora de toda a riqueza social, e governa a nação economicamente e politicamente.»{62}

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[O PROGRAMMA DO PARTIDO OPERARIO]

Considerando que a emancipação da classe productora é a de todos os seres humanos, sem distincção de sexo nem de raça;

Considerando que os productores não serão nunca livres, emquanto não estiverem na posse dos meios de producção (terras, officinas, navios, bancos, credito, etc.)

Considerando que não ha senão duas fórmas pelas quaes os meios de producção poderão pertencer-lhes, a saber:—a fórma individual que nunca existiu, como facto geral, e que tende, cada vez mais, a ser eliminada pelo progresso industrial;—e a fórma collectiva, cujos elementos materiaes e intellectuaes são constituidos pelo proprio desenvolvimento da sociedade capitalista;

Considerando que esta apropriação collectiva não póde sahir senão de uma acção revolucionaria da classe productora, ou do proletariado, organisado em partido politico distincto;

Considerando que semelhante organisação deve ser levada a cabo por todos os meios de que o proletariado dispõe, incluindo o suffragio universal, transformando-o de instrumento de corrupção, como até hoje tem sido, em instrumento de emancipação;

Os trabalhadores socialistas, tendo por alvo dos seus esforços a expropriação politica e economica{63} da classe capitalista e o regresso á collectividade de todos os meios de producção, decidiram, como meio de organisação e de lucta, entrar em todas as eleições com as seguintes reivindicações:

A.Parte politica

1.º—Abolição de todas as leis sobre a imprensa, as reuniões e as associações, e, em especial, a Associação Internacional dos trabalhadores.—Suppressão do livrete, ferrete ignominioso da classe operaria, e de todos os artigos do codigo, estabelecendo a inferioridade do operario em face do patrão, e a inferioridade da mulher em face do homem;

2.º—Suppressão do orçamento dos cultos, e o regresso á nação dos bens chamados de mão morta, moveis e immoveis, que hoje pertencem ás corporações religiosas, comprehendendo todos os annexos industriaes e commerciaes das referidas corporações;

3.º—Suppressão da divida publica;

4.º—Abolição dos exercitos permanentes e armamento geral do povo;

5.º—A Communa na posse da sua administração e da sua policia.

B.Parte economica